Norte-coreanos não estão na Rússia para ajudar Putin, estão "numa espécie de treino em situação real" para "eventual invasão da Coreia do Sul"

13 jan 2025, 13:12

Dois soldados norte-coreanos foram capturados em Kursk. Tinham documentos de identificação russos falsos, não sabiam que estavam a combater numa guerra e um deles diz que quer ficar na Ucrânia. Especialistas admitem que os norte-coreanos foram enviados para a Rússia para se prepararem para algo maior, que ultrapassa as fronteiras da Europa

Os soldados norte-coreanos que estão a combater em Kursk estão a ser usados “como carne para canhão” e para preparar uma “eventual invasão da Coreia do Sul”, argumentam especialistas ouvidos pela CNN Portugal, numa análise ao anúncio da captura de dois soldados norte-coreanos naquela região russa.

Os dois soldados capturados possuíam documentos de identificação russos falsos e dizem que não sabiam que estavam a combater. “Disseram-lhes que era apenas treino”, refere um tradutor dos serviços de informação ucranianos e sul-coreanos, que estão a interrogar os dois combatentes. Um deles afirmou que, antes de ser capturado, estava há cinco dias sem comer e sem beber água.

O tenente-general Marco Serronha não tem dúvidas de que estes soldados - cerca de 11 mil, segundo os serviços de segurança ucranianos - “estão a ser utilizados essencialmente como carne para canhão”. Uma vez que Pyongyang “não tem problemas de efetivos militares - tem um exército de quase 1,5 milhão de pessoas - não é por se perderem ali 15 ou 20 mil, para a liderança da Coreia do Norte não é grave, como sabemos”, acrescenta o especialista militar.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, garante que, tal como estes dois soldados, “muitos mais” serão capturados. “É uma questão de tempo até que os nossos homens consigam capturar mais. E ninguém no mundo deve ter dúvidas de que o exército russo depende da assistência militar da Coreia do Norte. Putin começou há três anos com ultimatos à NATO e tentativas de reescrever a história, e agora não pode passar sem a ajuda militar de Pyongyang.”

Tiago André Lopes, especialista em relações internacionais, olha para esta situação com muita relutância e admite que possamos estar perante uma “campanha de propaganda e charme” por parte das autoridades ucranianas, confrontadas com a falta de apoio da Europa e dos EUA. “O problema de Zelensky neste momento é que o assunto está a cair politicamente”, lembrando a posição cada vez mais assertiva do primeiro-ministro eslovaco em relação a este conflito. “Robert Fico é cada vez mais verbal contra a Ucrânia do que Viktor Orbán”, sublinha, comparando-o com o presidente da Hungria que até há bem pouco tempo parecia isolado na UE na sua resistência ao apoio a Kiev. Mas não só, acrescenta o especialista: na Croácia, as sondagens sugerem a reeleição do presidente Zoran Milanović, “que é contra a ajuda à Ucrânia”; na Roménia, tudo indica que “as eleições de maio vão ser ainda mais dramáticas do que aquelas que foram canceladas, e a hipótese do candidato da extrema-direita ganhar é agora muito maior”; e “a hipótese de a extrema-direita crescer na Bulgária é muito significativa”, além da reeleição de Donald Trump, que “já deu todas as indicações de que vai desacelerar a ajuda” dos EUA à Ucrânia.

Resumindo, “o cenário político mudou todo”, daí que, segundo Tiago André Lopes, “interessa à Ucrânia criar alguma coisa que cause alarme ou algum medo.” 

O especialista em relações internacionais não exclui que esta captura não passe, afinal, de uma encenação por parte da Ucrânia, salientando que um dos soldados norte-coreanos capturados tinha em sua posse um bilhete de identidade militar russo que teria sido “emitido em nome de outra pessoa”, um jovem de 26 anos da região russa de Tuva, que faz fronteira com a Mongólia, onde a população tem traços asiáticos. 

Tiago André Lopes lembra que em dezembro passado a Ucrânia já tinha anunciado a captura de um soldado norte-coreano que acabou por morrer pouco depois, segundo os serviços secretos sul-coreanos. “Ora, se foi agora a primeira vez [que capturaram soldados norte-coreanos], então em dezembro mentiram”, sugere o especialista, que admite que lhe faz “muita confusão” não haver qualquer reação da parte da Coreia do Norte sobre esta questão, além de observar “coisas estranhas” nos vídeos divulgados pela presidência ucraniana, desde logo as “respostas coreografadas” dos soldados norte-coreanos em resposta aos ucranianos, como aquela em que um deles admite querer “viver na Ucrânia”, rejeitando regressar a Pyongyang.

Norte-coreanos em Kursk podem estar mesmo a treinar - mas para "invadir" os vizinhos

A Coreia do Sul confirmou no domingo a captura dos dois soldados norte-coreanos em Kursk. De acordo com o Serviço Nacional de Informações (NIS) de Seul, já foram mortos 300 soldados norte-coreanos em combate contra a Ucrânia e há registo de 2.700 feridos. Os serviços de informação sul-coreanos atribuem as “baixas maciças” dos soldados norte-coreanos à sua “falta de compreensão da guerra moderna”, incluindo o seu ato “inútil” de disparar contra drones de longo alcance.

“É um exército que não tem experiência, que não está rodado, que não tem treinado”, observa Tiago André Lopes, que acredita que a mobilização dos cerca de 11 mil soldados norte-coreanos para a região russa de Kursk pode ser a preparação para algo mais. “Ir até Kursk é uma espécie de fletir os músculos e esticar as pernas” para uma eventual invasão da Coreia do Sul. “Estão a rodar a máquina de guerra e eventualmente depois vão promover alguns destes oficiais que estão agora no terreno em Kursk - os que sobreviverem, obviamente - ao nível da sua patente porque têm experiência de campo. É uma espécie de treino em situação real, que é relevante para quem eventualmente quer lançar uma incursão contra o vizinho do Sul”, sugere.

Também o tenente-general Marco Serronha acredita que “há um interesse” de Pyongyang por detrás desta mobilização: “Há um interesse por parte da Coreia do Norte de expor não só os seus militares mas também as suas lideranças militares à guerra moderna e aos novos equipamentos”, teoriza, apontando que os soldados norte-coreanos “estão a ser muito suscetíveis a ataques com drones porque não estão treinados para isso”.

“Esta exposição a novas configurações em termos tecnológicos nesta guerra vai ajudar a Coreia do Norte a preparar-se melhor para uma eventual invasão da Coreia do Sul”, argumenta o especialista militar, que acredita que esta mobilização não aconteceu sem “contrapartidas” para a Coreia do Norte, como o fornecimento de tecnologias militares russas para Pyongyang.

Os especialistas lembram que a Rússia e Coreia do Norte ratificaram em novembro passado um acordo de defesa mútua, que prevê uma “assistência militar imediata” recíproca em caso de ataque a um dos dois. Lembrando que a Ucrânia tem recebido ajuda militar dos países da NATO ao longo dos últimos três anos, Tiago André Lopes diz não conseguir compreender “porque é que uns podem receber ajuda e outros não podem”. 

O que é certo é que tanto Moscovo como Pyongyang negam a mobilização de soldados norte-coreanos para a região de Kursk. Uma vez que o acordo de defesa mútua é público, o tenente-general Marco Serronha questiona-se o porquê de estarem a “esconder” esta mobilização, antecipando uma resposta: “Julgo que é mais para não dar ideia do lado da Rússia de que há uma necessidade de efetivos militares para continuar a guerra” sem “envolver a classe média russa numa eventual mobilização” para o efeito.

"E estou  perfeitamente convicto de que, mais do que os 10 ou 12 mil norte-coreanos [que estão em Kursk], poderão aparecer mais ao longo dos meses, se a guerra continuar", afirma o tenente-general Marco Serronha.

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