Líderes europeus ficaram na "mesa das crianças" a ver a Rússia e os EUA a decidir o seu futuro. "Acabámos como uma caricatura da União Europeia"

19 fev 2025, 07:00
Autoridades dos EUA e da Rússia no Palácio Diriyah de Riad (Evelyn Hockstein / POOL / AFP)
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Zelensky diz que foi apanhado de "surpresa" pela "reunião russo-americana na Arábia Saudita" sobre o futuro do seu próprio país. Os líderes europeus também foram relegados para "a mesa das crianças" e, entre cimeiras e "macronices", não há consensos sobre como travar a ameaça desta reaproximação de Vladimir Putin e Donald Trump

A União Europeia (UE) foi relegada para “a mesa das crianças” nas negociações entre a Rússia e os EUA sobre o futuro da Ucrânia, comparou o CEO da Rheinmetall, a maior fabricante de armas da Alemanha, citado pelo Financial Times, numa crítica à postura dos líderes europeus quanto à política de defesa. Manuel Serrano, especialista em política internacional, vai mais longe: “Nós não estamos sequer no mesmo edifício, quanto mais na mesma sala.”

Sem a Ucrânia nem a UE à mesa das negociações em Riade, na Arábia Saudita, as delegações norte-americanas e russas decidiram, numa reunião que se prolongou por mais de quatro horas, designar equipas “de alto nível” para pôr fim ao conflito “o mais rápido possível”. 

“Nós estamos completamente de fora e isso é propositado”, afirma à CNN Portugal Manuel Serrano, sublinhando que esta pode ser a estratégia da nova administração dos EUA, cunhada por Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump na Casa Branca, como “muzzle velocity”. “É anunciar tudo ao mesmo tempo, de forma super rápida, acontece uma coisa atrás da outra”, deixando os líderes europeus totalmente assoberbados, explica o especialista. E nós, na Europa, diz, “não temos capacidade de reagir a nada”.

“A Europa sente que foi posta de lado”, afirma o embaixador Francisco Seixas da Costa, apontando o dedo aos “Estados Unidos de Donald Trump”, que, diz, “consideram-se os donos da bola”, qual criança num recreio que joga as próprias regras, e que têm “uma particular falta de consideração pela Europa enquanto potência mundial”. No entender de Manuel Serrano, porém, “não podemos culpar Trump por tudo e mais alguma coisa”, responsabilizando também a própria UE “pela nossa falta de uma estrutura eficaz”.

Mais tarde, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que faz parte da delegação dos EUA que viajou até Riade, telefonou aos ministros dos Negócios Estrangeiros de França, Reino Unido, Itália e Alemanha para lhes assegurar que a UE não está de fora das negociações. "As palavras de Rubio foram muito claras. A Europa vai participar nas negociações por uma razão óbvia: nós impusemos sanções à Rússia, sanções que ainda estão em vigor e não pode haver quaisquer negociações se esse assunto não estiver em cima da mesa nem se aqueles que as aplicarem estiverem à mesa das negociações", declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, em comunicado citado pela Reuters.

Mas não são só os líderes europeus que se sentem relegados para segundo plano neste tema. O próprio presidente ucraniano disse que foi apanhado de "surpresa" com a reunião desta terça-feira entre a Rússia e os EUA sobre o futuro do seu próprio país. “Não fomos convidados para esta reunião russo-americana na Arábia Saudita. Foi uma surpresa para nós. Acho que foi uma surpresa para muitas pessoas”, declarou, em conferência de imprensa em Ancara, Turquia, onde se encontrou com o seu homólogo Recep Tayiip Erdogan, ao mesmo tempo que decorriam as negociações na Arábia Saudita.

Por isso mesmo, Zelensky decidiu adiar a visita que tinha programada para esta quarta-feira à Arábia Saudita: “Somos absolutamente honestos e abertos. Não quero nenhuma coincidência. É por isso que não vou para a Arábia Saudita”, afirmou, acrescentando que, apesar de querer que a guerra acabe, não o quer a qualquer custo. "Queremos que seja justo e que ninguém decida pelas nossas costas", vincou.

Depois do “falhanço estrepitoso” da reunião dos líderes europeus em Paris, como descreve Manuel Serrano, num formato bastante criticado, uma vez que foram apenas convocados os chefes de governo de sete Estados-membros da UE, além do Reino Unido, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, Emmanuel Macron voltou esta terça-feira a convocar uma nova reunião no Palácio do Eliseu. Desta vez, convocou alguns aliados da NATO não convidados para o encontro desta segunda-feira, designadamente Noruega, Canadá, Lituânia, Estónia, Letónia, Chéquia, Grécia, Finlândia, Roménia, Suécia e Bélgica.

Às tantas, com tantas cimeiras e reuniões “sem sucesso”, a União Europeia acabou por se transformar numa “caricatura” de si própria, critica Manuel Serrano. Segundo o POLITICO, os media estatais russos estão a ser instruídos a retratar Kiev e os europeus como fracos e com cada vez menos influência na cena internacional. O jornal Komsomolskaya Pravda escreveu que a Europa está num estado de “choque e horror”.

A atitude de Emmanuel Macron também está a ser criticada. Há quem entenda que estas reuniões sucessivas são mais uma "macronice" para "ocupar um espaço que está vazio" - a necessidade de um líder forte na UE. No entender do embaixador Francisco Seixas da Costa, o presidente francês "está a aproveitar a circunstância de a Alemanha estar numa fase de transição política", com as eleições federais agendadas para o próximo dia 23. Mesmo Macron "está numa posição muito frágil, quer em relação ao governo que decidiu manter, quer em relação ao seu próprio futuro", acrescenta o embaixador. Agora, diz, "está a fazer das suas fraquezas internas uma força externa". Só que, "ao não convocar os outros [Estados-membros da UE], faz um atestado de menoridade à própria UE", critica Francisco Seixas da Costa.

Mais do que cimeiras - que Manuel Serrano admite que, por vezes, são necessárias - a UE precisa de dar uma resposta “mais forte”, defende o especialista. Na reunião de segunda-feira em Paris, os líderes voltaram a discutir a possibilidade de envio de tropas europeias para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Emmanuel Macron foi o primeiro a sugerir esta ideia no ano passado, que foi imediatamente excluída pelos restantes líderes europeus. 

A insistência nesta ideia criou desconforto na reunião de segunda-feira, ao ponto de o chanceler alemão ter sido o primeiro a abandonar o Palácio do Eliseu, confessando aos jornalistas que ficou “irritado” com uma discussão que considera “absolutamente inapropriada” antes de haver sequer um plano de paz na Ucrânia. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ofereceu-se para enviar soldados para a Ucrânia, mas só com o apoio dos EUA, considerando que essa seria “a única forma de dissuadir efetivamente a Rússia de voltar a atacar a Ucrânia”.

Olaf Scholz, chanceler alemão, foi o primeiro a abandonar o Palácio do Eliseu. Aos jornalistas, confessou estar "irritado" com a insistência em torno do envio de soldados europeus para a Ucrânia
(AP/Thibault Camus)

Para Manuel Serrano, “há coisas concretas que se podem fazer” a nível europeu como resposta à ameaça russa. “Por exemplo, a emissão de dívida conjunta para financiamento de defesa, que foi uma coisa que nós, União Europeia, fizemos durante a pandemia. Se é fácil de fazer? Não”, admite o especialista, acrescentando, contudo, que há Estados que parecem cada vez mais favoráveis a essa ideia. “A Dinamarca há vários meses dizia que nunca o aceitaria e agora aparentemente já mudou de opinião”, diz, acrescentando também o exemplo da Alemanha, onde, diz, “com toda a certeza vai haver um novo chanceler” a suceder a Olaf Scholz. “Friedrich Merz [candidato da CDU nas eleições federais] não se opôs”, diz, acrescentando que este candidato é “muito mais pró-Ucrânia” do que Scholz.

O especialista em política internacional teme que a UE não consiga responder ao desafio Trump 2.0 e receia as consequências disso mesmo para o bloco europeu, desde logo o aumento do populismo e do euroceticismo. "Trump tem um ódio visceral à União Europeia, por ele a União Europeia não existia", diz. Influenciados por esta narrativa, "as agendas radicais de extrema-direita", diz, "desistiram de destruir a União Europeia de fora. Logo, partidos como o Chega, AFD (Alemanha) e União Nacional (França) estão a tentar destruir a União Europeia desde dentro."

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