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Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

O que posso fazer para que a guerra acabe?

22 out 2025, 09:21

Porto, 17 de outubro, final da manhã. Estava a acompanhar um grupo de crianças que tinham feito a Primeira Comunhão no ano passado. Era uma sessão alegre, cheia de energia e gargalhadas. Quando me preparava para regressar a casa, um deles disse que queria falar comigo. Notei-lhe no olhar uma preocupação diferente.

Sentámo-nos numa sala de visitas, daquelas onde costumo conversar com adultos sobre assuntos sérios. O rapaz sentado não chegava com os pés ao chão. Olhou-me com uma expressão cansada, com um rosto preocupado. “Eu sou russo”, disse, num português com um sotaque. “Estou preocupado e não consigo dormir.”

As crianças são simples e, quase sempre, assim são os seus problemas. Pensei que seria algo pequeno. Disse-lhe: “Fala com a tua mãe, ela ajuda-te. Pensa em coisas boas e pede ao teu anjo da guarda para te ajudar a dormir.” Mas ele ficou sério, como quem quer dizer: “Não estás a perceber nada.” E continuou: “É por causa dos meus avós que eu não consigo dormir. Vim para Portugal, mas os meus avós estão longe. O meu avô Ivan vive na Rússia, o meu avô Igor está na Ucrânia. Não quero que eles morram.”

Fez uma pausa, olhou-me nos olhos e perguntou: “O que é preciso fazer para acabar a guerra? O que posso fazer para que os meus avós não morram?”

Fiquei sem palavras. As crianças têm o dom de nos desarmar com perguntas que valem mais do que muitas conferências sobre paz. Aquelas noites mal dormidas não eram insónias de criança, eram o eco de uma dor profunda: a saudade e o medo de perder quem se ama.

As crianças acreditam que os padres têm resposta para tudo, como o Inspetor Gadget ou o MacGyver. Disse-lhe apenas que acreditava em Deus e na força da oração. “O que podemos fazer pelo teu avô Ivan e pelo teu avô Igor é rezar”, disse-lhe.

Fomos até à capela que estava ali ao lado e rezámos pelos avós e pelo fim da guerra. Rezei uma Avé-Maria em português. Ele terminou em russo. Não percebi o que disse, mas Nossa Senhora entendeu tudo.

Despediu-se com um sorriso e foi embora brincar com as outras crianças para o recreio. Nessa noite, fiquei a pensar. Agradeci os avós que tive, o país onde vivo e a paz em Portugal. É verdade que há muito por melhorar no nosso país, mas nenhum de nós, graças a Deus, tem avós escondidos em abrigos, ameaçados por bombas.

Nada disto aconteceu por acaso. Há poucos dias, o Papa Leão XIV, em Roma, voltou a pedir diante da imagem de Nossa Senhora pela paz no mundo: “Ao teu Coração Imaculado confiamos o mundo inteiro e toda a humanidade, especialmente os teus filhos atormentados pelo flagelo da guerra. Advogada da graça, indica-nos o caminho da reconciliação e do perdão. Não deixes de interceder por nós na alegria e na dor, e alcança-nos o dom da paz que tanto imploramos.”

Quando ouvi estas palavras, lembrei-me do que fez o Papa Bento XV durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto os líderes do mundo preparavam ofensivas, o Papa ajoelhou-se. Sabia que o coração humano, por si só, já não bastava para alcançar a paz. A 5 de maio de 1917 escreveu uma carta com um pedido simples e profundo: que pedíssemos a paz a Nossa Senhora, chamando-a Rainha da Paz. Dizia: “Queremos que, nesta hora mais tremenda do que nunca, se eleve à grande Mãe de Deus a súplica viva e confiante dos seus filhos aflitos.” Era o grito da Igreja no meio do caos: “Mãe, ajuda-nos.”

E o Céu respondeu. Oito dias depois, a 13 de maio de 1917, em Fátima, três crianças guardavam ovelhas quando viram uma luz mais forte do que o sol. “Não tenhais medo”, disse-lhes. “Sou do Céu. Sou a Virgem do Rosário”. E ofereceu a solução mais simples e mais poderosa que o mundo alguma vez recebeu: “Rezai o Rosário todos os dias para alcançar a paz no mundo e o fim da guerra.”

O Papa pediu. Nossa Senhora apareceu. O mundo clamava por paz, e o Céu mostrou o caminho: a oração. E a guerra acabou.

Essa mesma intuição teve Ronald Reagan, quando esteve na Assembleia da República, em 1985. Disse nessa ocasião: “Quando me encontrei com o Papa João Paulo II, disse-lhe que nas orações de pessoas simples em todo o mundo — pessoas simples como os pastorinhos de Fátima — reside mais poder do que em todos os grandes exércitos e estadistas do mundo.”

Corremos o risco de nos habituarmos à guerra. Já estamos adormecidos com tantas imagens que nos chegam. Imagens para as quais já nem olhamos, debates que deixámos de ouvir. Claro que queremos que a guerra acabe! Mas é lá longe e a minha vida aqui continua, com tantos desafios, eu não posso fazer nada.

Os pastorinhos também poderiam ter pensado assim. Mas eles tinham o poder de quem reza. A oração não é uma anestesia para crianças nem uma fuga ingénua dos problemas. A oração é a resposta à pergunta que aquela criança me tinha feito: “O que posso eu fazer pela paz?”

A cinco mil quilómetros de distância do conflito na Ucrânia, podemos fazer pouco. Ou podemos fazer muito: rezar a Nossa Senhora pela paz, como os pastorinhos, como João Paulo II, como Francisco, como Leão XIV e como aquela criança russa que tinha à minha frente. Podemos fazer muito para que aquele menino volte um dia a abraçar os seus avós.

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