Fogueiras, danças e gatos: é assim que os ucranianos enfrentam o inverno mais rigoroso dos últimos anos

CNN , Daria Tarasova-Markina, Svitlana Vlasova e Ivana Kottasová
17 jan, 11:55
Ucranianos enfrentam inverno mais rigoroso dos últimos anos (GettyImages via CNN)

As temperaturas atingiram os 19.ºC negativos na capital ucraniana esta semana. Ao mesmo tempo, as forças russas intensificam os ataques, atingindo as infraestruturas energéticas

Kiev - Kateryna Skurydina vai para a cama com roupa térmica, duas camisolas e um cachecol. Cobre-se com um edredão de penas e dois cobertores. Mas a sua arma secreta é o seu gato, Pushok.

“Ele tem a temperatura corporal elevada. Por isso, é como uma botija de água quente”, começa por contar à CNN.

O aquecimento no apartamento de Kateryna em Kiev está praticamente desligado desde que a Rússia lançou um ataque maciço à infraestrutura energética da cidade, a 8 de Janeiro, deixando centenas de milhares de casas, empresas e escolas na capital sem energia.

As temperaturas atingiram os 19.ºC negativos esta semana e as autoridades entendem que esta vaga de ataques russos - no meio do que o primeiro-ministro qualifica como o inverno mais rigoroso em 20 anos - não é coincidência.

Tal como a maioria dos ucranianos, Kateryna já se habituou a viver com constantes cortes de energia. Tem vários carregadores portáteis e aparelhos à prova de apagões. O apartamento de Kateryna está cheio de velas artificiais alimentadas por USB, luzes de Natal e lanternas de campismo.

O frio, porém, é uma novidade.

A temperatura no interior do seu edifício atingiu os 10.ºC nos últimos dias, oito graus abaixo da temperatura interior considerada saudável pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“É muito difícil mentalmente. Agora que fiquei sem aquecimento, percebi que não preciso assim tanto de eletricidade. Quando se tem aquecimento, mas não se tem eletricidade, está tudo bem”, confessou, mencionando o seu hábito de fazer exercício para melhorar o humor durante os apagões.

“O desporto mantém-me ativa. Vou a um ginásio que funciona com energia ecológica. [Mas] Ontem até fecharam o ginásio porque não tem aquecimento e está muito frio. Não dá para ir a lado nenhum.”

Estado de emergência

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou na quarta-feira o estado de emergência para o setor energético do país, admitindo que as consequências dos ataques russos e das temperaturas extremamente baixas foram muito graves.

Segundo o presidente da Câmara de Kiev, Vitali Klitschko, na quinta-feira, cerca de 300 edifícios de vários andares na capital permaneciam sem aquecimento, um número muito inferior aos 6 mil que ficaram sem energia após o ataque russo em larga escala da semana anterior.

Embora Kiev tenha sido a cidade mais afetada, foram registados cortes de energia de emergência em todo o país.

De acordo com as autoridades ucranianas, na quarta-feira um ataque russo em grande escala contra Kryvyi Rih - a cidade natal de Zelensky, situada no centro da Ucrânia, - deixou dezenas de milhares de pessoas sem eletricidade. Houve também relatos de grandes apagões em Dnipro, no sudeste da Ucrânia. Na quinta-feira, os ataques provocaram cortes de energia em Zhytomyr, no oeste, e Kharkiv, no nordeste, segundo o Ministério da Energia ucraniano.

Muitas escolas fecharam, incapazes de aquecer as salas de aula a temperaturas seguras. As lojas, cafés e restaurantes, que normalmente oferecem algum alívio aos residentes em busca de calor e eletricidade, também foram obrigados a fechar.

O frio desta semana foi tão intenso que alguns geradores a diesel – essenciais para manter a energia elétrica quando o fornecimento da rede é interrompido – deixaram de funcionar.

Stas ajuda a filha de 2 anos a usar a lanterna do carro durante um apagão no apartamento da família em Kiev, a 13 de janeiro de 2026. Andrew Kravchenko/AFP/Getty Images

As autoridades de Kiev e de outras partes do país têm conseguido garantir centenas de "pontos de invencibilidade" onde os residentes podem aquecer-se, carregar os seus dispositivos e trabalhar. Na quarta-feira, Zelensky prometeu que seriam abertos mais desses “pontos de invencibilidade”.

Iryna Palandina, que na quinta-feira se dirigiu a um desses pontos de ajuda em Kiev, contou à CNN que estava sem eletricidade, sem água canalizada e sem forma de cozinhar em casa.

“Viemos tomar chá porque nem tenho como aquecer água”, conta. “Depois do último ataque, tudo se tornou muito difícil. Antes disso, estávamos mais ou menos a desenrascar-nos. Sempre achei que a nossa família estava preparada, que tínhamos um inversor, UPS, baterias, (...), mas quando só temos duas horas de eletricidade por dia, a bateria acaba e não há tempo para recarregar", explicou.

Nas redes sociais, os habitantes de Kiev que têm mais horas de luz estão a oferecer ajuda a quem não a tem. Em alguns condomínios residenciais, durante os apagões, os vizinhos reúnem-se nos pátios para cozinharem juntos numa fogueira e conviverem. Os vídeos espalham-se nas redes sociais mostrando pessoas a assar carne, a ingerir bebidas quentes e a dançar para se aquecer.

A Rússia tem vindo a negar consistentemente que está a atacar infraestruturas civis, apesar das inúmeras provas em contrário.

Na quinta-feira, o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) divulgou dados que mostram que houve pelo menos 256 ataques aéreos russos contra instalações de energia e sistemas de aquecimento em toda a Ucrânia desde o início da época de aquecimento, em outubro.

Em comunicado, o SBU refere que os números mostram que os ataques “visam destruir o povo ucraniano e constituem crimes contra a humanidade”.

O ministro ucraniano da Energia declarou na sexta-feira que não restava uma única central elétrica no país que não tenha sido atingida pelas forças russas durante a guerra.

Organizações internacionais e aliados da Ucrânia condenaram a Rússia por atacar as instalações energéticas ucranianas.

"Uma nação muito resiliente"

Serhiy Salata é o proprietário da “I’m Salata”, uma empresa que cultiva alface e outros produtos agrícolas em quintas verticais especializadas em Kiev. Para que as plantas sobrevivam, Serhiy precisa que a temperatura, a luz e a quantidade de CO2 no ar sejam o mais constantes possível – uma tarefa difícil quando os cortes de energia inesperados são uma ameaça constante.

A empresa tem painéis solares e um gerador para alimentar as partes mais vitais do sistema, mas ainda depende parcialmente do fornecimento de energia da rede elétrica.

“As condições obrigam-nos a estar constantemente a experimentar”, observa. “Por exemplo, preciso de calcular a temperatura na sala de forma a que, se as luzes forem abaixo durante quatro horas, a temperatura não desça abaixo do nível crítico.”

Ucranianos aquecem-se numa tenda fornecida pelos serviços de emergência para os residentes cujos apartamentos ficaram sem aquecimento durante uma onda de temperaturas negativas em Kiev, na Ucrânia, a 13 de janeiro de 2026. (Ukrinform/NurPhoto via Getty Images)

Sentada no seu apartamento gelado, Kateryna Skurydina recorreu à internet para se aquecer, encomendando online um cobertor elétrico e duas botijas de água quente.

“Num momento de desespero, quando estava muito frio, encomendei tudo o que vi. Tudo o que gostei”, confessa, apontando para um aparelho feito com um pote de barro e várias velas. “Funciona como uma lareira para as mãos. Não aquece a divisão propriamente dita, mas, se estiver sentada perto dela no computador, deixa-me um pouco mais quente.”

Entretanto, o gato de Kateryna, Pushok, passou a comer sopa. “Talvez por ser quente? Ele normalmente detesta. Mas começou a comer aos poucos”, conta. Pushok significa “Fofinho” – um nome irónico, dado que é um Sphynx e não tem pelo.

“Quando a covid chegou, parecia que era a pior coisa do mundo. Depois, parecia que o pior eram os bombardeamentos, e depois a falta de eletricidade. Acho que seremos uma nação muito resiliente”, comenta Kateryna, acariciando Pushok por cima da camisola.

“Já sei viver sem eletricidade, sem aquecimento, sob bombardeamentos. Qualquer problema do dia-a-dia será resolvido com muito mais facilidade. Serei aquela avó que tem sempre, espero, um carregador portátil carregado para qualquer eventualidade, um maço de velas, comida liofilizada e tudo a funcionar a pilhas ou USB”, antevê Kateryna.

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