Habitantes locais exaustos choram de alívio quando chegam a um ponto de ajuda
A Rússia lançou uma nova tentativa de exercer controlo sobre a cidade de Kherson, situada no sul da Ucrânia, através de ameaças com drones sobre importantes estradas de acesso e atacando uma ponte essencial, dividindo a cidade em duas partes.
No domingo, uma onda de ataques aéreos danificou uma ponte importante entre a ilha de Kherson, Korabel, e a cidade principal, desencadeando um esforço generalizado para retirar os cerca de 1.800 civis ucranianos que ainda vivem lá. As forças russas parecem não ter atingido os esforços de evacuação nos últimos três dias, de acordo com moradores e equipas de resgate, num raro momento de trégua dos ataques diários com drones contra civis em toda a cidade nos últimos meses. Na quarta-feira, vídeos divulgados nas redes sociais confirmam a retoma dos ataques russos perto da ponte e na ilha, onde se acredita que alguns militares ucranianos também estejam destacados.
Blogues militares russos também alertaram os residentes de Kherson que a principal estrada de acesso à cidade, vinda do norte, seria alvo de ataques com drones de longo alcance. Na quarta-feira, a CNN testemunhou um trânsito significativo de cargas e civis ao longo da estrada, incluindo um grande grupo de ciclistas, às vezes protegidos por redes penduradas acima do asfalto para bloquear os drones.
A captura da cidade e região de Kherson — tomada nos primeiros dias da guerra e depois libertada por uma rápida contraofensiva ucraniana em novembro de 2022 — continua a ser um dos principais objetivos do presidente russo, Vladimir Putin, neste conflito, e a renovada pressão para separar Korabel do resto da cidade levantou preocupações de que as forças russas possam tentar bombardear e depois desembarcar no terreno nas próximas semanas.
A evacuação de Korabel continua, com os socorristas a indicarem à CNN que a situação está calma, enquanto recolhiam algumas das 925 pessoas retiradas da ilha até ao final do dia. Os bombardeamentos continuam a um ritmo acelerado na península, segundo relatos dos habitantes locais, mas os drones parecem deixar os comboios de evacuação em paz. Os habitantes locais exaustos choram de alívio e ansiedade quando chegam a um ponto de ajuda.
Nadiya, sentada na parte de trás da carrinha blindada que a levou embora, chorava: “Eles estão a atacar com tanta força desde a manhã. Quando é que tudo isto vai acabar? Já enlouquecemos com tudo isto. Quando é que eles vão cair em si? Causar tanto horror, matar toda a gente pela “paz”?” Apesar de terem estado a “zumbir” naquele dia, os drones não chegaram à sua casa. “Já estamos cansados disto. Quando é que o Trump vai chegar, ou alguém... não merecemos uma velhice como a que temos aqui.” Nadiya já ouviu falar do prazo estabelecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para um acordo de paz com a Rússia, mas, para ela, isso não muda nada.
A maioria dos idosos retirados da ilha tinha recebido a promessa de alojamento noutro local da cidade, mas havia poucas alternativas. Nina, de 85 anos, estava exausta com o calor de 35 graus, segurando a bengala, já separada das suas malas pelos socorristas. “Não tenho planos, vou viver para onde me levarem”, lamentou. “Estou com uma perna só. Estou tão cansada destes tiroteios, não aguento mais.”
Autoridades locais ucranianas sublinham que qualquer pausa nos ataques russos com drones contra o comboio de evacuação é insignificante após meses de ataques repetidos contra alvos civis.
“Eles não se importam absolutamente nada com os alvos”, criticou Yaroslav Shanko, chefe da administração militar da cidade de Kherson. “Falar sobre qualquer humanidade por parte dos russos é absolutamente inútil. Os ataques contra a comunidade e a cidade são constantes.”
Os civis geralmente são perseguidos por drones russos, cujos operadores exibem os seus ataques implacáveis em publicações online. O principal hospital de Kherson acolheu 25 pacientes feridos por bombardeamentos ou drones.
Oleh, 62 anos, foi atingido às 04:00 da manhã de quarta-feira, quando correu para fora para ajudar depois de um ataque com drones ter causado um incêndio que consumiu a casa dos seus vizinhos. Em seguida, outro drone de “duplo toque” atacou. Oleh caiu de costas sobre uma cerca, mas as pernas ficaram penduradas no topo, protegendo o tronco, mas não as pernas. Ligaduras nos tornozelos escondiam os ferimentos causados pelos estilhaços nos seus pés.
“É perigoso viver ali, temos de estar sempre atentos”, afirmou Oleh, referindo-se à deteção de drones. “Um double tap. É assim que eles [os russos] operam. Eles destroem uma casa, ela incendeia-se. Um minuto depois, aparece outro, verificando se a casa está a arder ou se alguém está a tentar apagá-la. Então eles matam e destroem ainda mais.”
Oleh é um dos muitos pacientes que vivem sozinhos e não pode ter alta do hospital rapidamente, pois não consegue andar, aumentando a ocupação das camas. Três drones sobrevoaram as instalações durante a visita da CNN, de acordo com autoridades locais. O estalo dos tiros e o zumbido dos motores atravessam as janelas do hospital.