ANÁLISE || Durante "uma série de dias", russos simpatizantes com a causa ucraniana vigiaram Igor Kirillov, mapeando todos os seus movimentos para saber quando é que o podiam atacar. Esse dia aconteceu, foi uma "ação bem planeada", ainda que sem grande impacto no campo de batalha, segundo o major-general Agostinho Costa. Isidro de Morais Pereira discorda
Os serviços secretos ucranianos reivindicaram o assassínio de Igor Kirillov - responsável pela defesa nuclear, biológica e química das Forças Armadas Russas - em plena zona residencial em Moscovo. Mas não agiram sozinhos.
Os especialistas militares da CNN Portugal acreditam que os ucranianos contaram com a ajuda de “agentes infiltrados” na capital russa ou com “simpatizantes da causa ucraniana entre a população russa” para concretizar este “atentado terrorista”, como lhe chamaram as autoridades russas.
“É relativamente simples de executar uma ação destas, basta saber onde é que o general mora, perceber a rotina dele, perceber a que horas é que ele sai de casa e a que horas é que ele chega, encostar numa trotinete à zona onde a viatura dele pára e detonar à distância. Isto controla-se com um telemóvel”, explica o major-general Agostinho Costa, que reconhece que esta ação foi “bem planeada”, embora “não vá alterar rigorosamente nada da guerra”.
De acordo com o Comité de Investigação russo, o engenho explosivo foi colocado numa trotinete estacionada perto da entrada de um edifício residencial na Avenida Ryazansky, em Moscovo.
"Há naturalmente russos simpatizantes da causa ucraniana, ou no mínimo descontentes com o regime de Putin, que levaram a cabo ações de reconhecimento durante uma série de dias para mapear os movimentos deste general - as horas a que saía, onde trabalhava, a que horas costumava chegar", explica o major-general Isidro de Morais Pereira.
Segundo o major-general Agostinho Costa, Igor Kirillov era “um general de patente média”, com “duas estrelas, que, para o modelo NATO, é um major-general”, embora os russos os designem como tenente-general. “É um homem que está em Moscovo a ver qual é a melhor forma de desenvolver os meios de proteção nuclear, proteção biológica, proteção química. Portanto, em termos práticos, ele não representa nada.
“Como ele, os russos devem ter dezenas”, diz, acrescentando que, mesmo que fosse um comandante das forças estratégicas, “a lógica militar é: morre um comandante, avança outro”.
"Não é apenas Israel que tem um braço longo que chega a todo o lado"
Apesar de acreditar que este assassínio não vá ter grande impacto no campo de batalha, Agostinho Costa admite que “é uma ação com efeito mediático”, nem que seja para dar algum “alívio” a nível interno, mas também para “dar a ideia de que, não obstante no campo de batalha as coisas não estejam a correr bem, no plano estratégico a Ucrânia tem iniciativa - e isso é importante”.
Para o major-general Isidro de Morais Pereira, este assassínio vai muito além de uma “ação subversiva” por parte dos serviços secretos ucranianos, pois mostra que “não é apenas Israel que tem um braço longo que chega a todo o lado onde estejam os seus inimigos”, como Benjamin Netanyahu tem vindo a afirmar. “A Ucrânia também tem um braço que parece que está a ficar cada vez mais longo. Foi capaz de perturbar as operações russas em África, foi capaz de apoiar - se bem que de forma limitada - a revolução na Síria e consegue levar a cabo ações desta natureza, de carácter subversivo, em Moscovo. É preciso um braço, no mínimo, de 500 a 600 km para fazer isto.”
E este “braço longo” estica-se com o apoio de insurretos, segundo os especialistas militares. “Os serviços secretos ucranianos reivindicaram este atentado, mas nada disto se faz sem haver um apoio da população em Moscovo. Há fações entre os russos que se opõem ao governo do atual presidente e é natural que a Ucrânia aproveite estas células e as convoque para este tipo de ações”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.
Ao contrário do major-general Agostinho Costa, Isidro de Morais Pereira destaca a importância do assassínio de Igor Kirillov para o campo de batalha e para responsabilizar a Rússia pela uso de armas químicas contra forças ucranianas. “Há mais de dois anos que a Ucrânia diz ter provas de que a Rússia está a utilizar, desde logo no leste do território ucraniano, a cloropicrina, que é um agente asfixiante que foi muito utilizado na Segunda Guerra Mundial”, começa por explicar.
Uma vez que a Rússia é signatária da Convenção de Armas Químicas, está proibida de utilizar este tipo de armas e, por isso, ao utilizá-las, diz o major-general Isidro de Morais Pereira, está a cometer “um atropelo claro à lei internacional e um crime de guerra”.
Ora, como responsável pela defesa nuclear, biológica e química das Forças Armadas Russas, Igor Kirillov, era “o responsável pela manutenção e guarda deste tipo armas”, indica o major-general Isidro de Morais Pereira. Ou seja, foi ele quem “as forneceu para a frente de combate”, conclui o especialista militar.
“E naturalmente que teve o beneplácito de Vladimir Putin, porque, para utilizar armas proibidas de importância estratégica, tem de ter, naturalmente, a aprovação do decisor político”, acrescenta o major-general Isidro de Morais Pereira, atribuindo também responsabilidades ao presidente russo.
Horas antes do assassínio, os serviços secretos ucranianos acusaram Igor Kirillov de ordenar o uso maciço de armas químicas proibidas em ataques contra o exército ucraniano nas frentes leste e sul do campo de batalha.
“Desde o início da guerra, seguindo as ordens de Kirillov, o exército russo usou diferentes tipos de munições químicas proibidas contra a Ucrânia mais de 4.800 vezes”, pode ler-se num comunicado dos serviços secretos ucranianos.
Citado pelo POLITICO, um funcionário ucraniano, que falou sob condição de anonimato, justificou o assassínio de Igor Kirillov considerando-o um "alvo absolutamente legítimo". "Kirillov era um criminoso de guerra e um alvo absolutamente legítimo desde que deu ordens para usar armas químicas proibidas contra os militares ucranianos. Um fim tão inglório aguarda todos aqueles que matam ucranianos."
