Vladimir Putin mantém várias condições para que haja um acordo, mas algumas delas são bandeiras vermelhas para Volodymyr Zelensky
Após largos meses sem qualquer conversa sobre cessar-fogo, os Estados Unidos estão agora a tentar o feito dos feitos num conflito que dura há mais de três anos. As conversações deste domingo com a Ucrânia foram “construtivas e com significado”, mas é expectável que a delegação russa seja menos flexível no encontro desta segunda-feira, tal como Putin foi na chamada telefónica com Trump.
Esta manhã, o porta-voz do Kremlin fez alguns comentários sobre a reunião que está a decorrer em Riade, na Arábia Saudita, entre as delegações russa e norte-americana para se alcançar um acordo de cessar-fogo. Segundo a Reuters, Dmitry Peskov diz que estão a “decorrer negociações sobre questões técnicas” e, embora existam “muitos aspetos diferentes relacionados com uma possível solução na Ucrânia que precisam de ser resolvidos”, assim como “grande parte das iniciativas” da Rússia “não foram implementadas”, há o “desejo e vontade de avançar para uma solução”.
Um dos aspetos que precisa ser resolvido diz respeito às centrais nucleares ucranianas, em particular a de Zaporizhzhia, a maior de toda a Europa, que foi capturada pelos russos em 2022 e que está agora debaixo de olho dos EUA, que defendem que será essencial para produzir a energia necessária para explorar os minerais raros ucranianos. Volodymyr Zelensky confirmou que a infraestrutura foi tema de conversa com Donald Trump e que Kiev estaria pronto para discutir a participação dos EUA na modernização da central caso fosse devolvida à Ucrânia, algo que poderá não agradar de todo a Vladimir Putin.
A Rússia quer ainda que a Ucrânia vá a eleições para eleger um novo presidente, mas Zelensky não pareceu muito melindrado com a ideia, tendo até dito que abdicaria da presidência por uma adesão à NATO. Mas essa possível entrada da Ucrânia na NATO é também uma das linhas vermelhas já traçadas pelo presidente russo, que quer que Kiev abandone oficialmente as suas ambições de fazer parte da Aliança Atlântica, que o Kremlin tem visto expandir-se para leste desde o fim da União Soviética. Apesar de John Coale, enviado adjunto dos EUA para a Ucrânia, ter dito que os Estados Unidos não descartaram uma possível adesão da Ucrânia à NATO ou um retorno negociado às suas fronteiras pré-2014, Donald Trump já avisou que não acredita que a Rússia vá permitir tal coisa, como recorda a Reuters. Moscovo também defende que um acordo de cessar-fogo implicaria um enfraquecimento da capacidade militar da Ucrânia, embora vários países europeus, em particular a França e o Reino Unido, concordem que a chave para sua segurança da Ucrânia é um exército forte.
O interesse norte-americano na infraestrutura de gás da Ucrânia pode também ser um travão para Vladimir Putin, que teme que um acordo com os Estados Unidos possibilite à própria Ucrânia a importação de gás natural liquefeito norte-americano que depois seria armazenado e enviado para países europeus que procuram alternativas ao gás natural russo, enfraquecendo o setor em Moscovo.
Uma outra questão que poderá minar as conversações entre os EUA e a Rússia para que se alcance um cessar-fogo diz respeito aos territórios capturados pelas tropas de Moscovo e que a Rússia já veio dizer que não abdica. A Rússia quer controlar a totalidade das quatro regiões orientais ucranianas que reivindica como suas, Lugansk (que já controla totalmente), Donetsk (que em conjunto com a primeira completa o Donbass), Zaporizhzhia e Kherson (duas regiões que, com as outras duas, passaram a fazer parte da Federação Russa após um referendo que o Ocidente considerou ilegal), além da península da Crimeia, que foi anexada em 2014. Mas não só: Putin quer que Trump reconheça estes territórios ucranianos como russos.
Para Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos e principal negociador do acordo de cessar-fogo (e futura paz) na Ucrânia, se Volodymyr Zelensky não ceder já as "regiões que são russófonas" a Vladimir Putin irá criar-se "um elefante na sala”. Mas esta questão territorial é também uma linha vermelha para Kiev, que já deixou claro que não irá abdicar de territórios seus.
Desde a invasão russa à Ucrânia, a Europa uniu-se nas sanções contra pessoas, empresas e entidades russas - incluindo os dois eleitos por Vladimir Putin para negociar com os Estados Unidos: o espião Sergey Beseda e o diplomata Grigory Karasin. A agência Reuters revela que o presidente russo quer que as sanções ocidentais contra a Rússia sejam amenizadas, algo em que a administração de Trump já está a trabalhar, sobretudo nas penalizações referentes ao petróleo russo.
Para já, parece haver entendimento entre a Rússia e os EUA no que respeita a um cessar-fogo nos ataques contra estruturas energéticas - embora Kiev e Moscovo se acusem mutuamente dos ataques dos últimos dias contra linhas ferroviárias e estações petrolíferas em território russo - e no regresso da Rússia à proteção da navegação do Mar Negro, que é, no entanto, o primeiro objetivo norte-americano, ainda antes de se conseguir um acordo mais amplo.
O Kremlin diz que Vladimir Putin “espondeu de forma construtiva” à iniciativa de Donald Trump para proteger a navegação no Mar Negro e que os dois líderes concordaram em iniciar negociações nesse sentido, dois anos depois de Moscovo ter abanadonado o acordo celebrado pela Turquia e as Nações Unidas para a exportação segura de quase 33 milhões de toneladas de cereais ucranianos através do Mar Negro.
