Na conversa, Witkoff admite que um acordo de paz poderá exigir à Ucrânia cedências profundas, incluindo Donetsk e eventuais trocas de território
A 14 de outubro, Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump para missões de paz, falou diretamente com Yuri Ushakov, o principal conselheiro de política externa de Vladimir Putin. Em pouco mais de cinco minutos, deu-lhe instruções claras de como falar com o presidente norte-americano, quando ligar e o que dizer para avançar com um plano de paz à imagem do recente acordo fechado em Gaza.
A conversa telefónica, cuja gravação foi obtida pela Bloomberg, ocorreu dois dias antes do telefonema entre Trump e Putin, a 16 de outubro.
O nascimento informal do "Plano dos 28 pontos"
A gravação revela ainda que a proposta que viria a transformar-se no chamado Plano dos 28 pontos começou como um simples esboço, discutido informalmente entre Witkoff e altos responsáveis do Kremlin. Na chamada, o enviado norte-americano sugere mesmo que o acordo de paz poderá exigir à Ucrânia cedências muito mais profundas do que as conhecidas até agora, incluindo Donetsk e, nas suas palavras, talvez até “uma troca de territórios algures”.
Aquilo que parecia, na altura, uma sugestão avulsa, está hoje próximo de se tornar o novo ponto de partida das negociações que a administração norte-americana tenta impor a Kiev.
Na noite desta terça-feira, Donald Trump reagiu à notícia da Bloomberg e saiu em defesa de Steve Witkoff.
“Isso é uma coisa normal. Ele tem de vender isto à Ucrânia, tem de vender a Ucrânia à Rússia. É o que um negociador faz (…). Não ouvi a gravação, mas disseram-me que é negociação padrão”, afirmou a bordo do Air Force One. “Imagino que esteja a dizer o mesmo à Ucrânia, porque ambas as partes têm de dar e receber.”
A transcrição da conversa na íntegra:
Steve Witkoff (SW): Olá Yuri.
Yuri Ushakov (YU): Sim Steve, olá, como estás?
SW: Bem, Yuri. Como estás tu?
YU: Estou bem. Parabéns, meu amigo.
SW: Obrigado.
YU: Fizeste um grande trabalho. Simplesmente um grande trabalho. Muito obrigado. Obrigado, obrigado.
SW: Obrigado, Yuri e obrigado pelo teu apoio. Eu sei que o teu país apoiou isto e agradeço-te.
YU: Sim, sim, sim. Sim. Sabes que por isso suspendemos a organização da primeira cimeira russo-árabe.
SW: Sim.
YU: Sim, porque achamos que estás a fazer o verdadeiro trabalho ali na região.
SW: Bem, ouve. Vou dizer-te uma coisa. Acho, acho que se conseguirmos resolver a questão Rússia-Ucrânia, toda a gente vai ficar radiante.
YU: Sim, sim, sim. Sim, só precisas de resolver um problema. [ri-se]
SW: Qual?
YU: A guerra russo-ucraniana.
SW: Eu sei. Como é que resolvemos isso?
YU: Meu amigo, só quero o teu conselho. Achas que seria útil que os nossos chefes falassem ao telefone?
SW: Sim, acho que sim.
YU: Achas. E quando é que pensas que poderia ser possível?
SW: Acho que assim que tu sugerires, o meu chefe está pronto para o fazer.
YU: Ok, ok.
SW: Yuri, Yuri, aqui está o que eu faria. A minha recomendação.
YU: Sim, por favor.
SW: Eu faria a chamada e reiterava que felicitam o presidente por esta conquista, que apoiaram, que apoiaram isto, que respeitam que ele é um homem de paz e que estão mesmo muito satisfeitos por ver que isto aconteceu. Portanto eu diria isso. Acho que a partir daí a chamada vai ser muito boa.
Porque deixa-me dizer-te o que disse ao presidente. Disse ao presidente que tu, que a Federação Russa sempre quis um acordo de paz. Essa é a minha convicção. Disse ao presidente que acredito nisso. E acredito que a questão, o problema, é que temos duas nações que estão a ter dificuldade em chegar a um compromisso e, quando o conseguirmos, vamos ter um acordo de paz. Estou até a pensar que talvez estabeleçamos uma proposta de paz em 20 pontos, tal como fizemos em Gaza. Fizemos um plano Trump de 20 pontos para a paz e estou a pensar que talvez façamos o mesmo convosco. O meu ponto é este...
YU: Ok, ok meu amigo. Acho que esse ponto muito específico os nossos líderes podiam discutir. Steve, concordo contigo que ele irá felicitar, irá dizer que o Sr. Trump é um verdadeiro homem de paz e tal e tal. Ele irá dizer isso.
SW: Mas aqui vai o que eu acho que seria incrível.
YU: Ok, ok.
SW: E se, e se... ouve-me...
YU: Vou discutir isso com o meu chefe e depois volto a falar contigo. Ok?
SW: Sim porque ouve o que estou a dizer. Só quero que digas, talvez digas isto ao presidente Putin, porque sabes que tenho o máximo respeito pelo presidente Putin.
YU: Sim, sim
SW: Talvez ele diga ao presidente Trump: sabes, o Steve e o Yuri discutiram um plano de paz muito semelhante em 20 pontos e isso poderia ser algo que achamos que pode fazer avançar um pouco as coisas, estamos abertos a esse tipo de ideias, a explorar o que será necessário para chegar a um acordo de paz. Agora, entre nós, eu sei o que será necessário para chegar a um acordo de paz: Donetsk e talvez uma troca de território algures. Mas estou a dizer que, em vez de falarmos assim, falemos de uma forma mais esperançosa porque acho que vamos chegar a um acordo aqui. E acho, Yuri, que o presidente me vai dar bastante espaço e margem para chegar ao acordo.
YU: Estou a perceber...
SW: ...por isso se pudermos criar essa oportunidade de que 'depois disto eu falei com o Yuri e tivemos uma conversa que acho que pode levar a grandes desenvolvimentos'.
YU: Ok, parece bem. Parece bem.
SW: E aqui vai mais uma coisa: o Zelensky vai à Casa Branca na sexta-feira.
YU: Eu sei disso. [ri-se]
SW: Eu vou a essa reunião porque querem que eu esteja lá, mas acho que, se possível, temos a chamada com o teu chefe antes dessa reunião de sexta-feira.
YU: Antes, antes, sim?
SW: Correto.
YU: Ok, ok. Percebi o teu conselho. Vou discutir isso com o meu chefe e depois volto a falar contigo, ok?
SW: Ok Yuri, falo contigo em breve.
YU: Ótimo, ótimo. Muito obrigado. Obrigado.
SW: Adeus, adeus.
YU: Adeus.