Comandantes que matam os próprios soldados e homens lançados como "carne para canhão": ex-soldados russos denunciam brutalidade na linha da frente

24 fev, 16:34
Corpos de 11 soldados russos encontrados na vila de Vilkhivka, depois da localidade nos arredores de Kharkiv ter sido reconquistada. (AP Photo/Felipe Dana)

Quatro russos relatam à BBC a violência a que foram sujeitos e a que assistiram na linha da frente da guerra na Ucrânia. Os ex-soldados explicam a "lógica militar" do Exército russo, que passa por lançar homens para a linha da frente como "carne para canhão"

Quatro ex-soldados russos denunciam, num documentário da BBC, a brutalidade das condições no seu lado da linha da frente na Ucrânia, com descrições de tortura daqueles que se recusavam a combater como "carne para canhão".

No documentário The Zero Line: Inside Russia's War (A Linha Zero: Por Dentro da Guerra Russa, traduzido para português), a BBC expõe testemunhos de quatro homens que foram enviados para a linha da frente após a invasão russa de larga escala da Ucrânia.

Dois dos soldados relatam que viram os comandantes das brigadas a ordenar a execução dos seus próprios homens, em missões que descreve como homens a serem enviados para a linha da frente como "carne para canhão", com o objetivo de desgastar os soldados ucranianos e irromper nas defesas.

Ilya, um professor que dava aulas a crianças com necessidades especiais, em Kungur, recorda quando a polícia apareceu em casa dos seus pais e o informou de que estava a ser convocado para o Exército. Estávamos em maio de 2024.

O jovem de 35 anos foi mobilizado juntamente com outros 78 homens, num centro de recrutamento da cidade de Perm. Ilya lembra como "quase todos estavam bêbados". "Avante para a batalha! Vamos pegar no Zelensky e hastear a nossa bandeira!", recorda-se de gritarem.

"Eu observava-os e pensava: 'Como é que vim parar aqui?' Eu estava com muito medo", confessa.

Assim que chegaram à Ucrânia, Ilya conta que a maioria dos homens foi enviada diretamente para a linha da frente. O jovem professor não queria disparar nem matar ninguém e acabou num posto de comando. A sua função era identificar e contabilizar os mortos.

Ilya diz ter testemunhado quatro pessoas a serem baleadas à queima-roupa por um comandante porque tinham fugido da linha da frente e se recusavam a regressar. "O mais triste é que os conhecia", desabafa. "Lembro-me de um deles gritar 'Não disparem, eu faço qualquer coisa! ', mas ele [o comandante] alvejou-os na mesma."

Dima, um jovem de 34 anos que trabalhava em Moscovo como técnico de reparação de eletrodomésticos antes de ser enviado para a guerra, diz que matar os próprios homens é considerado "normal" no Exército russo.

Tal como Ilya, Dima foi convocado para a guerra de um momento para o outro, quando estava a ir para o trabalho. Dima também não queria matar ninguém e, apesar de não ter experiência na área da saúde, juntou-se a uma unidade de paramédicos. Mais tarde, foi transferido para uma brigada onde tinha de retirar os soldados feridos da linha da frente.

Foi ali, na 25.ª Brigada, que Dima diz ter visto os seus camaradas serem executados por ordem do seu comandante. "Vi – a apenas dois metros, a três metros. Ouve-se click, clack, e um estrondo. Não é drama, não é um filme, é a vida real", diz.

Esse comandante, Alexei Ksenofontov, foi condecorado com a Estrela de Ouro, a mais alta medalha do Estado, e nomeado "Herói da Rússia" em 2024. Muitos familiares que sabiam o que se passava no terreno enviaram diretamente uma carta a Putin, em janeiro passado, a pedir para que investigasse as acusações de tortura e morte à queima-roupa na sua unidade, revela Dima.

Os quatro soldados que fugiram da Rússia explicam como os homens eram lançados como "carne para canhão". "Vi-os [os comandantes] enviar homens atrás de homens como carne contra os ucranianos, para que ficassem sem munições e drones e outra debandada pudesse atingir o seu objetivo", revela outro ex-soldado, Denis.

"Envias três tipos, depois mais três. Não funcionou, envias 10. Não funcionou com 10, envias 50", complementa Dimas. "Eventualmente, vão conseguir romper as linhas inimigas. Essa é a lógica militar", acrescenta.

"Tivemos 200 mortos em três dias. No primeiro ataque, derrotaram-nos. O nosso regimento foi aniquilado em apenas três dias", conta Dimas.

Apesar de já estarem longe da linha da frente, os soldados confessam que não conseguem esquecer o que ali viram. "Tenho pesadelos. Vejo uma floresta cheia de cadáveres, pessoas com a cara mutilada, bocas brancas e sujas de sangue. O cheiro não é um cheiro, é um sabor", descreve Dima.

"Sou um criminoso, e ninguém se importa — o meu crime é simplesmente não querer matar", lamenta.

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