Estudantes universitários estão a receber a promessa de um contrato de um ano a termo certo, a oportunidade de servir longe da linha da frente e a hipótese de aprender competências de alta tecnologia
“Tudo mudou este ano.”
“Todas as pessoas ‘influentes’ da universidade estão agora a convocar os estudantes para a guerra.”
“Por toda a universidade, há cartazes sobre as forças de drones literalmente por todo o lado.”
“A pressão é colossal.”
O que acabou de ler são citações de estudantes russos numa troca de mensagens com a CNN. Não estamos a divulgar os seus nomes, nem os das suas universidades, por medo de represálias, mas relatos como estes, juntamente com um conjunto crescente de provas de fontes abertas, sugerem que a Rússia está a intensificar silenciosamente uma campanha para atrair e pressionar os estudantes a juntarem-se às suas forças que operam drones.
É uma medida que corre o risco de criar tensões no sistema de educação russo e revela os crescentes desafios para Moscovo em manter o recrutamento para a invasão de larga escala da Ucrânia.
Apesar das crescentes perdas no campo de batalha, o Kremlin conseguiu evitar uma repetição da sua desastrosa mobilização “parcial” no outono de 2022, durante a qual centenas de milhares de homens fugiram do país. Mas, segundo os especialistas, esta campanha dirigida aos estudantes é um dos vários sinais que revelam um ressurgimento de táticas de recrutamento mais agressivas.
Esta iniciativa é diferente das anteriores: os estudantes estão a receber a promessa de um contrato de um ano a termo certo, a oportunidade de servir longe da linha da frente e a hipótese de aprender competências de alta tecnologia.
No entanto, especialistas e advogados disseram à CNN que tudo isto é provavelmente uma fachada para um contrato militar padrão, sem prazo definido, e, como muitos estudantes estão céticos em relação aos incentivos prometidos, as universidades estão a recorrer à coação e às ameaças para os convencer a alistar-se.
A proposta aos alunos
Ao analisar sites de universidades, páginas de redes sociais e reportagens dos meios de comunicação locais, além de conversar com vários estudantes na Rússia, a CNN encontrou evidências de uma campanha de recrutamento ampla e multifacetada. O esforço parece ter começado em janeiro, dois meses depois de o Ministério da Defesa russo ter anunciado oficialmente a criação de um novo ramo militar, as Forças de Sistemas Não Tripulados, dedicado a operações de guerra com drones.
Universidades de todo o país começaram a inundar as suas redes sociais com vídeos e cartazes de recrutamento bem elaborados. Algumas redes sociais universitárias chegaram a exibir palestras presenciais dadas por soldados e veteranos das chamadas "operações militares especiais" (OME) da Rússia.
Os estudantes estão sob imensa pressão. É claro que ouvir constantemente apelos para ingressar no Serviço Militar Obrigatório é muito desagradável. Perceber que a universidade está a fazer de tudo para nos enviar para a guerra é ainda pior”, revela estudante russo à CNN através do Telegram
A Groza, uma agência de notícias russa independente dirigida a estudantes, partilhou com a CNN a sua base de dados de 246 universidades e faculdades na Rússia e na Ucrânia ocupada que, segundo a agência, estão envolvidas nesta campanha de recrutamento, com base em informações de fontes abertas e em contactos diretos de estudantes.
Entre elas, encontram-se algumas das mais prestigiadas universidades da Rússia. A Universidade Estatal de São Petersburgo (a alma mater do próprio presidente russo, Vladimir Putin) anuncia abertamente estes contratos no seu site, juntamente com longas aulas online de professores e militares que detalham os benefícios do recrutamento.
A Escola Superior de Economia de Moscovo, classificada em segundo lugar na lista da Forbes de 2025 das melhores universidades russas, realizou um "Festival de Sistemas Não Tripulados" em fevereiro, com cartazes de recrutamento para as forças de drones do país.
A mensagem é claramente dirigida aos jovens. “Disseram-vos que estavam a perder tempo com videojogos”, lê-se na voz off de um vídeo partilhado na VK (a versão russa da rede social Facebook) da Universidade de Arquitetura e Engenharia Civil de Kazan. “Mas há um lugar onde a tua experiência é especialmente valiosa.”
Um vídeo do campus da Universidade Russa de Economia Plekhanov, em Volgogrado, mostra um ecrã dividido: um jogador de um lado e um operador de drone do outro. A legenda diz: “escolhe a skin certa”. Vários anúncios de vagas a que a CNN teve acesso afirmam que “jogadores de e-sports” ou “gamers” terão prioridade na seleção.
Não participei nas reuniões; não vou por princípio. Os estudantes que participaram disseram que lhes prometeram montanhas de ouro (bem, as coisas habituais), alívio da dívida estudantil, outras regalias e, claro, apenas um ano de serviço na retaguarda, longe da linha da frente”, confessa um estudante russo numa troca de mensagens com a CNN via Telegram
De acordo com Artem Klyga, um advogado militar russo que vive em Berlim, o Ministério da Defesa russo emitiu instruções específicas às universidades sobre como conduzir esta campanha. O advogado publicou na sua página de Telegram documentos que diz ter recebido de uma universidade de Moscovo, incluindo uma carta genérica dirigida aos "chefes dos centros de formação militar das instituições federais de ensino superior" solicitando-lhes que "organizem, juntamente com os representantes do Ministério da Defesa, campanhas para estudantes e informem diariamente a direção principal de pessoal do Ministério da Defesa".
As "instruções" detalham os incentivos a oferecer aos estudantes, tanto homens como mulheres, incluindo "um menor risco de serem atingidos por fogo inimigo" e a aquisição de "conhecimentos e competências únicas". Estas mesmas ofertas são claramente visíveis em materiais de recrutamento universitário analisados pela CNN.
Os documentos preveem também incentivos financeiros significativos, com bónus de contratação federais e regionais de pelo menos 400 mil rublos (correspondente a mais de 4 mil euros) cada. Algumas universidades estão a oferecer valores muito mais elevados. A Universidade Estadual de São Petersburgo promete um pagamento único de cerca de 47 mil euros para aqueles que ingressarem nas forças armadas e um salário base anual próximo dos 60 mil euros.
O dinheiro é a única promessa que provavelmente se concretizará, admite Artem Klyga. “Tudo o resto é mentira. Trata-se de um simples contrato com o exército russo, sem prazo final, sem cláusulas especiais”, sublinhou, em declarações à CNN.
Segundo Klyga e outros advogados e especialistas consultados pela CNN, Putin nunca revogou o decreto sobre mobilização parcial que assinou em setembro de 2022, mesmo depois de ter sido concluído o alistamento inicial de 300 mil homens e suspensas todas as atividades de mobilização. O decreto refere claramente que “os contratos de serviço militar, assinados pelos militares, mantêm-se em vigor até ao termo do período de mobilização parcial”.
“É uma armadilha”, afirma Sergey Krivenko, chefe da organização de defesa dos direitos humanos Cidadão, Exército e Direito, destinada a ajudar militares e recrutas. “No final do ano, o estudante (agora já militar) não será dispensado, assim como não dispensam qualquer militar cujo contrato tenha expirado.”
A promessa de um risco reduzido de ser atingido também não pode ser garantida, assumem os especialistas. "Assim que a pessoa assina os contratos, torna-se literalmente escrava do Ministério da Defesa", explica Grigory Sverdlin, que dirige uma organização chamada "Idite Lesom" ("Vá Embora"), que ajuda os russos a evitar o alistamento militar. "Pode ser enviada para qualquer unidade que o Ministério da Defesa necessite. Não há forma de escolher."
Não vais para a escola, vais para a guerra
Ainda não é claro quantos estudantes foram recrutados com sucesso através desta campanha. Na sua sessão anual de perguntas e respostas de final de ano, em dezembro, Putin afirmou que havia um número tão elevado de russos, incluindo estudantes, que queriam juntar-se às forças que operam drones que o Ministério da Defesa teve de realizar um concurso de seleção para os candidatos. A CNN contactou o Ministério da Defesa russo para perguntar sobre os números e os termos do contrato.
No entanto, nenhum dos estudantes com quem a CNN falou disse acreditar nas promessas do Kremlin.
Entre os meus colegas de turma, os meus amigos da universidade, ninguém está a considerar assinar um contrato, nem mesmo aqueles que estão numa situação financeira muito difícil”, afirma um estudante russo à CNN numa mensagem no Telegram
Não acho nada disto convincente; sou totalmente contra a propaganda militar e não caio nessa. Os meus colegas também compreendem que tudo isto é uma farsa, e ninguém do meu grupo cedeu à pressão”, conta um outro estudante russo à CNN
Há casos em que os estudantes em risco de reprovação estão a ser levados a acreditar que a adesão às forças que operam drones é a única forma de evitar a expulsão. Um estudante contou à CNN que foi convocado para uma reunião de grupo exclusiva para aqueles com créditos pendentes – seja por trabalhos ou testes (chamados de “dívidas” em russo) – e que estavam atrasados nos estudos. “Eles insinuaram fortemente que isso seria benéfico para quem tinha muitas dívidas”, afirma à CNN.
Outro estudante relatou que, certo dia, há algumas semanas, a “secretaria estudantil” da sua universidade “quase expulsou um terço” do seu grupo e “obrigou-os a assinar um contrato na hora para manterem as suas vagas”. O mesmo estudante partilhou com a CNN as mensagens trocadas num chat pelos estudantes nesse dia.
“Estão a expulsar toda a gente que tem pelo menos uma dívida pendente do segundo ano – que absurdo!”, afirmou um dos estudantes numa mensagem áudio.
Outro jovem aconselha os membros do grupo a não assinarem nada caso sejam convocados.
Um terceiro estudante no chat, que admite já ter sido expulso, responde: “Na segunda-feira já será tarde demais. Na sexta-feira assinam todas as ordens. Quem corre o risco de ser convocado para o exército, ou vai para o serviço militar obrigatório e lá vão obrigar-te a assinar um contrato, ou assina já e vai operar drones a 30-40 km do ponto mais crítico. Estas são as palavras do chefe do conselho estudantil.”
Vários estudantes referiram que as universidades também estão a encurtar os prazos para a conclusão dos trabalhos, dificultando a sua aprovação.
“No início de março, todos os alunos com dívidas foram notificados de que o prazo para a entrega dos trabalhos pendentes era 31 de março. Mesmo que restasse apenas um trabalho pendente, seriam expulsos”, adiantou um estudante à CNN.
Outra estudante relatou à CNN que um funcionário da sua universidade estava à procura dos caloiros mais vulneráveis – aqueles que estavam com problemas de saúde mental ou com dificuldades de adaptação – e visava-os especificamente. Primeiro, os alunos eram convidados para uma “conversa pessoal”, contou a aluna à CNN, “sem quaisquer detalhes sobre o encontro e com um pedido para não contar a ninguém”. Depois, diziam-lhes que esta era a melhor forma de evitar o aumento das dívidas e garantir que não iriam chumbar nos seus cursos, uma abordagem que a estudante descreveu como “abuso emocional”.
Dificuldades no recrutamento
Até há pouco tempo, a Rússia conseguiu recrutar soldados suficientes para repor as perdas na linha da frente, graças a um sistema de salários e bónus exorbitantes, para além de campanhas paralelas coercivas e enganosas dirigidas a populações específicas, como prisioneiros e estrangeiros.
No entanto, há indícios de que este sistema já não é suficiente. Autoridades ocidentais estimaram, em fevereiro, que a Ucrânia tinha infligido perdas que ultrapassaram a taxa de recrutamento da Rússia durante vários meses consecutivos. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou, no final de março passado, que a Rússia tinha perdido 89 mil soldados (mortos e gravemente feridos) até então e conseguido recrutar apenas 80 mil no mesmo período. A Rússia não divulga os seus números de baixas.
No final do ano passado, Putin assinou vários decretos que permitem que os membros da reserva militar russa fossem convocados para tarefas e treinos específicos - uma medida que, segundo analistas do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), um think tank norte-americano, pode abrir caminho a mobilizações forçadas ou secretas em série.
“Isto é um forte indício de que o Kremlin está a tentar expandir os seus poderes para realizar um tipo de recrutamento mais coercivo do que nunca, algo que o presidente tentou evitar ao máximo no passado”, sublinhou Kateryna Stepanenko, chefe da equipa do ISW na Rússia, em declarações à CNN.
Nunca imaginei que a minha adorada universidade se tornasse algo do qual eu teria de proteger os meus amigos”, lamenta um estudante russo numa troca de mensagens com a CNN
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou na semana passada que a campanha de recrutamento para as Forças de Sistemas Não Tripulados (drones) está em curso, classificando-a como “uma oferta totalmente aberta para um novo ramo das forças armadas”.
No entanto, o facto de visar os potenciais eleitores mais jovens do país e de transformar as universidades – tradicionalmente vistas na Rússia como refúgios seguros do serviço militar obrigatório – em canais de recrutamento, acarreta riscos políticos para o Kremlin, admitem os especialistas.
“Os estudantes, na sua maioria, compreendem o que está a acontecer, e não gostam desta opressão” por parte das autoridades, afirma Klyga. “Com estas ações, não estão a criar um grupo de apoiantes do atual regime político”, conclui.
“As instituições governamentais são agora uma fonte de ameaça, saturadas de propaganda, prejudicando os jovens que eram literalmente crianças ontem”, lamentou um estudante à CNN.
“Para mim, em geral, cada ano que passa parece mais assustador do que o anterior”, confessa um outro estudante.