BALANÇO DO ANO || A guerra era para acabar em 24 horas, mas as negociações ainda correm e ameaçam arrastar-se. Para já, a Rússia vai conseguindo quase tudo o que quer
A guerra na Ucrânia conheceu em 2025 um novo protagonista, Donald Trump, que chegou à presidência dos Estados Unidos com a quase promessa eleitoral de acabar com o conflito em 24 horas.
Apesar do insucesso, Ucrânia e Rússia estão envolvidas em negociações indiretas, com base num plano norte-americano sem participação ucraniana e europeia.
O plano previa, nomeadamente, que a Ucrânia abdicasse de territórios reclamados pela Rússia, da presença de uma força internacional e da adesão à NATO.
Previa, porque quando parecia que Kiev e o presidente Volodymyr Zelensky estavam “entre a espada e a parede”, União Europeia e Reino Unido pressionaram para que os interesses ucranianos e europeus fossem tidos em conta.
Dessa intervenção, sucederam-se notícias sobre novas versões do plano e mais conversações.
Trump entrou no processo a humilhar Zelensky quando o recebeu em fevereiro, num estilo que o tem marcado: entra sem respeitar regras, nem sequer diplomáticas, antes de “negociar”.
O tom mudou em encontros posteriores, mas sempre com Zelensky numa posição de pedir ajuda, sobretudo militar, que Washington usa para condicionar Kiev.
Já o ambiente com o líder russo foi o oposto, como na cimeira do Alasca, em agosto, quando Trump apadrinhou o regresso de Vladimir Putin à ribalta internacional.
Para alguns comentadores, Putin obteve então uma vitória total sobre Trump, que nada conseguiu, nem mesmo um compromisso de um encontro do homólogo russo com Zelensky, muito menos um cessar-fogo, como pretendia.
No terreno, o exército russo nunca deu tréguas.
Fez acompanhar cada iniciativa diplomática por bombardeamentos que disse visarem alvos militares, mesmo quando as imagens mostravam edifícios residenciais atingidos e civis feridos e assustados.
Outro alvo preferencial foi a rede elétrica para tornar ainda mais insuportável o dia-a-dia dos ucranianos e pressionar Zelensky a procurar uma solução a qualquer preço.
Moscovo também incrementou a chamada guerra híbrida contra países europeus como a Polónia, com a suspeita de operações com ‘drones’ que fecharam aeroportos e sabotagem de linhas férreas.
Uma das consequências foi alarmar a Europa, que reclama o reforço de meios da NATO e um “escudo ‘antidrones’”.
A poucas semanas do quarto aniversário da guerra, Putin reafirmou recentemente que mantém as reivindicações iniciais: ou a Ucrânia sai do Donbass a mal, ou sai a bem.
“Tudo se resume a uma só coisa: ou libertamos os territórios através da ação militar, ou as tropas ucranianas retiram-se e abandonam o país”, afirmou.
O país é o de Putin, porque considera Donetsk e Lugansk, o chamado Donbass, como parte da Rússia.
Um pedido de auxílio das duas regiões do leste da Ucrânia – cuja guerra separatista teve apoio de Moscovo - esteve na origem direta da invasão em fevereiro de 2022.
Moscovo anexou o Donbass em setembro de 2022, juntamente com Zaporizhzhia e Kherson, que juntou à Crimeia, integrada em 2014.
As tropas russas controlavam em dezembro quase 20% do território ucraniano, incluindo a totalidade de Lugansk e 80% de Donetsk.
Tal como há um ano, continua a ser impossível antecipar o tempo e o modo como terminará o conflito.
Na Estratégia de Segurança Nacional, divulgada na semana passada, Washington definiu como objetivo “restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia”, para o que tem de “negociar uma célere cessação das hostilidades na Ucrânia”.
É neste quadro que se insere o plano de Trump para a Ucrânia, que Zelensky insistiu recentemente ter direito a uma paz justa.
“Nesta guerra pela independência, a Ucrânia (…) conquistou o direito à vida. E mereceu uma paz justa”, disse o líder do país que se libertou de Moscovo em 1991, ao tornar-se independente da União Soviética.
Trump assumiu que quer o Nobel da Paz e as candidaturas para o prémio de 2026 terminam em 31 de janeiro.
Para ainda usar a Ucrânia como argumento, o republicano de 79 anos terá de acomodar a vontade de Putin e a determinação ucraniana.
