Quem divulgou a conversa secreta em que Witkoff aconselha o Kremlin sobre como conquistar Trump? Há várias hipóteses, mas uma é a mais plausível

27 nov, 11:10
Steve Witkoff (AP)

Várias hipóteses estão em cima da mesa - desde divisões internas em Moscovo a serviços de inteligência europeus ou norte-americanos - mas nenhuma foi confirmada

A divulgação de uma transcrição que revela conversas confidenciais entre Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump para missões de paz, e Yuri Ushakov, o principal conselheiro de política externa de Vladimir Putin, está a levantar questões sobre a origem da fuga de informação. O conteúdo do telefonema, publicado pela Bloomberg, expõe a forma como Witkoff terá orientado Moscovo e Putin sobre a melhor estratégia para chegar a Trump.

Ushakov reconheceu já publicamente que parte do conteúdo é autêntico, embora tenha dito que alguns excertos são "falsos". O conselheiro do presidente russo recusou-se a detalhar, alegando que se tratavam de comunicações confidenciais, e considerou "inaceitável" que conversas desta natureza tenham vindo a público.

Em declarações ao jornal russo Kommersant, admitiu ainda que poderá ter tido conversas com Witkoff através do WhatsApp, uma plataforma muito mais vulnerável a escutas do que os canais governamentais encriptados habitualmente utilizados pelo Kremlin. "Há conversas no WhatsApp que, de um modo geral, alguém pode conseguir ouvir", afirmou.

A autenticidade e o teor comprometedor das gravações levantam especulações sobre a sua proveniência. Ao Guardian, Daniel Hoffman, ex-chefe da CIA em Moscovo, explica que o leque de possibilidades é enorme: "Podem ser cem milhões de coisas diferentes, incluindo alguém do lado russo a tentar prejudicar Witkoff." 

Apesar de os serviços secretos russos terem um longo historial de interceção e divulgação seletiva de conteúdos políticos, parece pouco provável que o Kremlin tivesse interesse em expor um dos seus conselheiros mais próximos e, ao mesmo tempo, uma das figuras mais recetivas a Moscovo da administração Trump, escreve o Guardian. Ainda assim, rumores de divisões internas sobre quem deve gerir o dossiê das relações com Washington mantêm esta possibilidade em aberto. 

Outra hipótese é a Ucrânia. Kiev tem demonstrado forte desconforto com a influência de Witkoff nas negociações e teria motivos para fragilizar a sua posição. Contudo, divulgar uma escuta desta natureza acarretaria riscos diplomáticos sérios com os Estados Unidos, caso fossem descobertos.

A suspeita que ganha mais força

Para um antigo responsável dos serviços de informação americanos ouvido pelo Guardian, a origem mais plausível está dentro do próprio aparelho de segurança dos EUA. "Teoricamente, tudo é possível - sinais, ciberataques, acesso direto aos dispositivos, mas a minha forte suspeita é que isto veio do lado americano. E, nesse caso, há duas entidades com capacidade para o fazer: a CIA e a NSA." 

A obtenção de áudio bruto, e não apenas de um resumo ou transcrição, sugere um acesso direto a material de recolha de inteligência. Além disso, várias fontes admitem existir desconforto dentro das agências com a atual política externa da administração norte-americana, especialmente no que diz respeito à Ucrânia e à Rússia. No entanto, uma fuga desta magnitude seria extremamente arriscada para qualquer funcionário descontente.

Outro ex-responsável de inteligência citado pelo Guardian recorda que vários serviços europeus têm capacidade técnica para realizar este tipo de interceção. Caso algum dos aliados estivesse alarmado com o posicionamento pró-russo de Witkoff, poderá ter escolhido divulgar o áudio para forçar uma reavaliação da política norte-americana.

Independentemente da origem, o que mais surpreende vários analistas é que alguém tenha decidido divulgar uma gravação tão sensível. Se a interceção das chamadas de Ushakov fazia parte de uma operação de longo prazo, a sua exposição pública levará certamente o Kremlin a alterar dispositivos, canais e hábitos de comunicação, potencialmente fechando uma janela de inteligência preciosa.

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