Os três pontos cruciais para a Ucrânia que podem determinar o sucesso anunciado pelos EUA do acordo de paz

CNN , Matthew Chance
26 nov, 09:05
Marco Rubio (CNN)

EUA anunciam progressos nas conversações sobre a Ucrânia, mas fonte ucraniana garante à CNN que há obstáculos significativos

Apesar de "alguns pontos de discordância remanescentes", o presidente Trump saudou o "progresso tremendo" alcançado pela sua administração para pôr fim à guerra na Ucrânia. 

Antes, o seu principal diplomata, o Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, também adotou um tom persistentemente otimista após “conversações muito positivas” sobre a Ucrânia em Genebra, no fim de semana. “Os pontos que permanecem não são intransponíveis”, insistiu.

Entretanto, enquanto um enviado militar dos EUA se reunia com responsáveis russos em Abu Dhabi, foi declarado que “os ucranianos concordaram com o acordo de paz”, apesar de “alguns detalhes menores a serem resolvidos”.

Esse é o discurso uniformemente otimista que a administração Trump tem adotado relativamente às negociações difíceis e sensíveis atualmente em curso, com o objetivo de construir uma posição comum entre EUA, Ucrânia e Europa sobre como a guerra na Ucrânia deverá chegar a um fim negociado.

No entanto, segundo uma fonte sénior ucraniana com conhecimento direto das negociações, continuam a existir divergências significativas entre o que a administração Trump pede à Ucrânia e o que as autoridades em Kiev estão dispostas a aceitar.

Em declarações à CNN a partir da capital ucraniana, a fonte concordou com os responsáveis de Trump que, de facto, foi alcançado um “consenso” sobre a maioria dos pontos incluídos nas 28 propostas de paz dos EUA divulgadas na semana passada.

Contudo, afirmou que, longe de existirem apenas alguns pontos menores de discordância, ainda há pelo menos três áreas cruciais onde subsistem diferenças significativas - diferenças que podem determinar o sucesso ou o fracasso dos esforços para negociar o fim do conflito.

Em primeiro lugar, a questão sensível de saber se a Ucrânia cederia territórios-chave na região de Donbass, no leste da Ucrânia, anexados mas ainda não conquistados pela Rússia, incluindo o “cinturão de fortalezas” de cidades e vilas fortemente defendidas, consideradas vitais para a segurança ucraniana.

Militares ucranianos ao lado de edifícios destruídos na cidade de Kostyantynivka, na linha da frente, região de Donetsk. Iryna Rybakova/93.ª (Iryna Rybakova/93rd Mechanized Brigade/AFP/Getty Images)

Propostas anteriores dos EUA pediam à Ucrânia para entregar o território, que passaria a ser uma zona desmilitarizada administrada pela Rússia. A fonte ucraniana explica à CNN que houve “algum progresso” relativamente a essa proposta, mas que ainda não foi tomada qualquer decisão sobre o conteúdo ou formulação nos projetos de propostas.

“Seria muito errado dizer que temos agora uma versão que é aceite pela Ucrânia”, acrescenta a fonte.

Em segundo lugar, a controversa proposta dos EUA para que a Ucrânia limite o tamanho das suas forças armadas a 600 mil efetivos - um número previsto no plano de 28 pontos - continua também a ser debatida. A fonte ucraniana afirma que foi mencionado um novo número, mais elevado, mas que Kiev ainda queria mudanças adicionais antes de estar disposta a concordar com tais limitações ao seu exército.

Por fim, relativamente à questão de a Ucrânia renunciar à sua ambição de aderir à NATO, a fonte disse à CNN que essa exigência continua a ser inaceitável. Tal concessão estabeleceria um “mau precedente”, segundo a fonte, e daria efetivamente à Rússia um veto sobre a aliança militar ocidental “da qual nem sequer é membro”.

Todos os três pontos - a cedência de território anexado, a desmilitarização da Ucrânia e a sua exclusão permanente da NATO - são as razões mais frequentemente citadas pelo Kremlin para travar a guerra na Ucrânia. A sua resolução a favor da Rússia é também a principal condição de Moscovo para pôr fim à sua brutal campanha.

Mas todos os três pontos referidos pela fonte são também linhas vermelhas sensíveis e de longa data para a Ucrânia, pelas quais dezenas de milhares de soldados ucranianos lutaram e morreram. Abdicar formalmente de qualquer um deles representa um pedido enorme e acarretaria riscos significativos para os líderes ucranianos que tentassem fazê-lo.

Por muito que a administração Trump tente apresentar a situação de forma positiva, isto está longe de ser apenas “alguns pontos de discordância remanescentes”, ou “pontos que não são intransponíveis”, ou até “detalhes menores a serem resolvidos”.

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