Nos planos de defesa da Suécia para o período entre 2025 e 2030, um ataque surpresa à Gotlândia surge como um dos cenários prioritários para preparação militar. Se isso acontecer, a estratégia passa por defender a ilha e manter a população no território sempre que possível
A poucos quilómetros da Rússia, a ilha sueca Gotlândia está a preparar-se para se transformar numa das peças centrais da estratégia de defesa da NATO. Entre jovens recrutas que cumprem serviço militar obrigatório e populações treinadas para sobreviver a um eventual conflito, a ilha está a organizar-se para um cenário que, há poucos anos, parecia improvável.
A Gotlândia vive um processo acelerado de remilitarização desde a invasão russa da Ucrânia, reforçado após a entrada da Suécia na NATO. As autoridades do país temem que, se Moscovo decidir testar a capacidade da resposta da Aliança Atlântica, esta ilha, situada no centro do mar Báltico, possa tornar-se um dos primeiros alvos.
Com pouco mais de 60 mil habitantes, Gotlândia encontra-se a cerca de 275 quilómetros de Kaliningrado, o enclave russo fortemente militarizado entre a Polónia e a Lituânia. A sua localização permite controlar rotas marítimas e aéreas fundamentais no Báltico, razão pela qual os responsáveis militares suecos a consideram estratégica para toda a região, de acordo com uma reportagem do The Guardian.
"Se conseguem controlar a Gotlândia, também conseguem controlar o Mar Báltico. É por isso que precisamos de manter o controlo - pela Suécia, mas também pelo bem da NATO", afirmou o coronel Andreas Gustafsson, comandante das forças terrestres suecas em Gotlândia.
Jovens chamados para defender a ilha
Um dos rostos desta nova realidade é Ella Adman, de 19 anos. Há apenas alguns meses terminou o ensino secundário e nunca tinha pegado numa arma. Hoje integra o serviço militar obrigatório, transporta uma espingarda de assalto e prepara-se para cumprir a sua primeira missão oficial em Estocolmo, onde irá participar na segurança da família real sueca.
Inicialmente surpreendida pela exigência dos 15 meses de formação militar e pelos dias de treino que podem ultrapassar as 16 horas, admite agora que a experiência lhe mudou a perspetiva. "Tu descobres do que és capaz e do quão forte te tornas", afirmou em entrevista ao jornal britânico.
Ella faz parte das centenas de recrutas destacados para o regimento P18, reinstalado na Gotlândia em 2018, depois de ter sido encerrado em 2005 numa altura em que a ameaça russa parecia distante. Desde então, e sobretudo após fevereiro de 2022, o efetivo militar na ilha voltou a crescer rapidamente e os exercícios conjuntos com forças da NATO tornaram-se frequentes.
Embora as autoridades suecas não considerem provável uma invasão convencional no imediato, não excluem essa possibilidade, sobretudo caso venha a existir um cessar-fogo ou um acordo de paz na Ucrânia que permita à Rússia deslocar tropas para outras frentes.
"O risco é que a Rússia se torne desesperada. Quanto maior for a pressão sobre Moscovo, maior poderá ser a tentação de agir", explicou o coronel Andreas Gustafsson.
Nos planos de defesa da Suécia para o período entre 2025 e 2030, um ataque surpresa à Gotlândia surge como um dos cenários prioritários para preparação militar. Se isso acontecer, a estratégia passa por defender a ilha e manter a população no território sempre que possível. Em caso de mobilização, cerca de 4.500 militares seriam destacados para proteger a Gotlândia.
E a preparação vai muito além das forças armadas. Em várias localidades, os habitantes organizam-se para enfrentar situações de emergência prolongadas.
Eva Rinbald, médica e residente numa zona rural da ilha, criou um grupo de preparação comunitária no seu bairro. Os moradores começaram por identificar recursos disponíveis, como reservas de água, eletricidade e meios de comunicação, e estão agora a mapear poços e outras fontes de abastecimento.
Na propriedade onde vive, existem hortas, árvores de fruto, galinhas, patos, painéis solares e sistemas de recolha de água da chuva. O objetivo é garantir autonomia caso as ligações ao exterior sejam interrompidas. Além disso, está prevista a criação de um centro comunitário onde os residentes possam encontrar abrigo, aquecimento, carregar telemóveis, cozinhar e receber informação durante uma crise.
A Agência Sueca para a Proteção Civil e Preparação de Emergências (MSB) considera a Gotlândia como um modelo para o restante país. A insularidade torna a região particularmente vulnerável ao corte de abastecimentos, mas também permite testar soluções que poderão ser aplicadas noutras zonas da Suécia.
Entre as medidas em preparação estão exercícios de evacuação interna, reforço da capacidade hospitalar para responder a vítimas em massa, formação para lidar com munições não detonadas e equipas especializadas para operações em edifícios destruídos.
Segundo o diretor-geral da MSB, Mikael Frisel, a defesa da ilha depende tanto da presença militar como da capacidade dos civis resistirem durante um conflito: "Temos uma situação mundial muito séria e percebemos no Mar Báltico que é uma área em que estamos muito próximos da Rússia e há incidentes tanto acima quanto abaixo da superfície".
