Donald Trump prepara-se para receber o homólogo ucraniano na Casa Branca depois de a última semana ter mostrado que nem entre os americanos existe um “posicionamento consensual” quanto à forma de acabar com a guerra na Ucrânia
Entre todas as dúvidas que ainda persistem quanto a um possível acordo de paz, sobretudo diante da nova proposta de Donald Trump para acabar com a guerra na Ucrânia, uma questão salta à vista: “Qual é a alternativa?”
A pergunta foi colocada por Greg Swenson, um operacional do Partido Republicano, em conversa com o Politico, dias depois de a administração norte-americana ter apresentado uma proposta negocial que, como revelado por fontes do próprio partido, teve por base uma “lista de desejos” da Rússia de Vladimir Putin – e que Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, conseguiu “moderar” à última da hora num encontro com oficiais europeus em Genebra.
“A primeira proposta continha uma série de pressupostos que seriam muito difíceis de fazer passar que não fosse, exclusivamente, num diálogo de uma parte da administração norte-americana com a Federação Russa”, aponta Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa. “O que era necessário foi o que foi feito, alterar partes do documento – e o primeiro teste será, efetivamente, perceber o que é que é aceite pelo presidente Trump e pela parte da administração que está com ele e que não estava em Genebra.”
No final da semana passada, Trump tinha dado ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, poucos dias para ceder e aceitar esse plano inicial de 28 pontos – amplamente criticado por se afigurar como uma lista de concessões unilaterais a Putin. Mas chegado o fim de semana, Rubio conseguiu reduzir essa lista para 20 pontos e adiar o “prazo final” - o qual, se não fosse cumprido, avisara Trump, deixaria o líder ucraniano sozinho a “lutar até às últimas consequências”.
Na sua viagem à Suíça, como relatado pelo New York Times, o chefe da diplomacia dos EUA conseguiu que alguns dos tópicos mais sensíveis, como o limite imposto ao tamanho das forças armadas ucranianas e a proibição de estacionamento de tropas da NATO no país invadido, fossem postos de parte e remetidos para futuras negociações, bem como onde será traçada a nova fronteira entre a Ucrânia e a Rússia.
Como destaca Ana Santos Pinto, “só o elemento de existir um documento faz com que seja diferente das etapas anteriores, porque agora há uma base negocial”. A questão é perceber, adianta a ex-secretária de Estado da Defesa, de que forma vão Trump, a sua administração e o Partido Republicano posicionar-se nas negociações vindouras, tendo em conta que este volte-face em questão de dias – que fez com que passássemos de um acordo pró-russo de 28 pontos para um acordo marinado de 20 pontos – mostrou um “posicionamento não consensualizado” entre duas barricadas.
“Acho que esta dimensão de aceitação por parte dos EUA não é irrelevante. Ou seja, quando fazemos a leitura do posicionamento - seja dos republicanos, seja da administração - percebemos que, de um lado, há abertura a um maior posicionamento da Rússia - por parte do vice-presidente, JD Vance; do secretário do Exército, Dan Driscoll; e de Steve Witkoff. Do outro lado não há esse abertura - falo do lado do partido e do de membros da própria administração, incluindo Marco Rubio”, indica Ana Santos Pinto. “Isto já não se prende tanto com a reação da Rússia mas com a reação da administração norte-americana, em relação a esta incompatibilidade de posições. E a grande questão é como é que estas duas vertentes se vão posicionar perante o presidente Trump, que no fim da linha é sempre quem valida a aceitação ou não dos pressupostos de negociação.”
Evitar a capitulação
Na segunda-feira, ao noticiar os esforços de Rubio para conseguir alterações ao documento inicial, o New York Times ressaltava que “o preço das mudanças é evidente”, dado que, “segundo algumas autoridades do governo Trump, Putin provavelmente rejeitará a nova proposta de imediato, o que levaria a longas e arrastadas negociações – exatamente o que Trump tem tentado evitar”.
A posição oficial do Kremlin assim o provou, esta terça-feira de manhã, pela boca de Sergei Lavrov. “As nossas avaliações permanecem válidas, no sentido em que as principais disposições do plano [original] de Trump se baseiam em entendimentos alcançados em Anchorage [no Alasca], na cimeira russo-americana de agosto – e esses princípios estão, em geral, refletidos no plano, que acolhemos com satisfação”, disse o ministro russo dos Negócios Estrangeiros.
Lavrov assegurou que Moscovo não está a pressionar Washington DC, mas que, “se o espírito e a letra de Anchorage forem apagados em termos dos principais entendimentos que estabelecemos, então, é claro, essa será uma situação fundamentalmente diferente [para a Rússia]”. Por outras palavras: o lado russo nunca aceitará menos do que ver a Ucrânia reduzir o seu exército de um milhão para um máximo de 600 mil soldados, ceder o Donbass ocupado à Rússia e nunca aderir à NATO – precisamente os termos do acordo que Rubio conseguiu que fossem postos de parte por ora.
Logo a seguir, a CBS News noticiava em exclusivo que Kiev já aceitou a nova proposta de Trump e que só restava discutir “detalhes menores” para o lado ucraniano fechar o acordo. Nem uma hora depois, água na fervura, com o secretário de Segurança Nacional da Ucrânia, Rustem Umarov, a escrever na X que as delegações chegaram a um “entendimento comum sobre os termos fundamentais do acordo discutido em Genebra” mas que ainda há muitos pontos a negociar. “Contamos agora com o apoio dos nossos parceiros europeus” para “completar as etapas finais e fazer um acordo com o presidente Trump”, adiantou a mesma fonte, já depois de Zelensky ter reconhecido que ainda há “muito trabalho” a fazer, mas antes de o Financial Times noticiar que Kiev poderá aceitar reduzir as suas forças a 800 mil tropas.
Com Driscoll reunido com os russos em Abu Dhabi e com o presidente ucraniano a preparar-se para uma nova viagem até Washington DC, onde se deve encontrar com Trump na Casa Branca possivelmente já esta quinta-feira, voltamos à questão inicial: qual é a alternativa? Ou perguntando de outra forma: que alternativa podem os parceiros europeus oferecer?
“A alternativa que os países europeus, incluindo o Reino Unido, têm é continuar a tentar influenciar o processo da melhor forma, como têm estado a fazer e como fizeram agora em Genebra, para no fundo tentar ganhar tempo”, responde Marta Mucznik, analista do International Crisis Group, para quem “toda esta discussão com a Rússia é prematura” dada a posição de enorme fragilidade da Ucrânia atualmente.
“A questão é mais o que é que a Europa pode fazer para evitar ser constantemente apanhada na curva e ter de estar sempre a fazer esta gestão de danos – tem sido essa a diplomacia europeia nos últimos meses, a diplomacia do controlo de danos, para evitar uma tentativa de impor um plano de paz que corresponde a uma derrota ucraniana e que não leva a uma paz duradoura e sustentável.”
A dor de cabeça dos ativos congelados
Num momento em que Zelensky se vê encurralado e em que a administração Trump continua a olhar com desdém para a Europa, negociando os termos da futura segurança da Ucrânia e de todo o continente sem a envolver, o leque de opções à disposição dos europeus é limitado. E isso leva-nos à questão dos ativos russos congelados, que a UE continua relutante em utilizar para ajudar Kiev a comprar as armas de que necessita com urgência para enfrentar o inimigo nas diferentes frentes de batalha, e chegar à posição de força necessária para poder negociar com mais segurança e margem de manobra.
Ao final de quatro anos de guerra, eram elevadas as expectativas de que a UE a 27 pudesse alcançar um acordo histórico para usar 140 mil milhões de euros ligados a esse ativos como “empréstimo de reparações” para colocar Kiev numa situação mais segura durante pelo menos dois anos. Mas num enorme revés diplomático e político, o plano caiu por terra na cimeira de outubro em Bruxelas, perante objeções da Bélgica, onde está depositada grande parte desses ativos.
“A questão dos ativos financeiros é particularmente relevante”, considera Ana Santos Pinto, ressaltando o facto de os mercados financeiros continuarem a ser autónomos na UE, ao contrário do comércio ou da política monetária, o que faz com que, “caso exista contestação internacional e a Bélgica tenha de ressarcir as empresas e os titulares russos destes ativos, fica sozinha nesse ressarcimento”.
“Aquilo que a UE não conseguiu foi consensualizar uma solução comum para respaldar esta utilização dos ativos, sendo que no caso o que se discutia para já, como primeiro elemento, é a utilização dos lucros, dos juros dos ativos congelados, não dos ativos em si”, adianta a especialista. “É um problema que a UE não conseguiu resolver e isso fez com que, no documento original dos 28 pontos, se dissesse que esses ativos nos mercados europeus iam ser geridos pelos norte-americanos, que garantiriam que 50% dos lucros fossem investidos na reconstrução da Ucrânia. Ou seja: os europeus seriam juridicamente responsáveis, mas os EUA é que iam gerir e lucrar, e a UE ainda poria mais 100 mil milhões em cima disso.”
Com os passos atrás garantidos por Rubio, não é certo o que espera a questão dos ativos congelados, até porque as negociações dentro da UE continuam em curso e a própria Comissão Von der Leyen precisa de apresentar a sua proposta em relação a isso e a uma série de outras questões. “O que se diz muito em Bruxelas e Berlim por estes dias é que este é o momento make it or break it [vai ou racha] para a Europa, é o momento em que a Europa tem de provar que consegue dar o apoio de que a Ucrânia precisa e tentar mudar o curso dos acontecimentos”, diz Mucznik. “No fundo, é isso que a Europa tem feito, tem tentado puxar a administração Trump à razão e tentado influenciar o processo – a questão é se vai continuar a negociar com base na proposta russa ou na contraproposta europeia.”
“A questão que se coloca agora”, adianta Ana Santos Pinto, “é que posição é que os Estados europeus – incluindo o Reino Unido, e eventualmente também o Canadá e o Japão – vão adotar. Este é o ponto de decisão”. Dado que Lavrov já deixou claro que não aceita a proposta reformulada em Genebra, o que prenuncia que vai arrastar os pés nas supostas negociações vindouras, as atenções estão viradas para a Europa e para os Estados Unidos.
“A base de entendimento, o raciocínio da Federação Russa, é: eu não estou aqui para negociar, estou aqui para validar os meus pressupostos - e é isso que está no documento inicial. E perante a não aceitação do novo documento por parte da Rússia, a questão é o que é que a administração norte-americana vai fazer e o que é que os europeus e aliados da NATO vão fazer perante o posicionamento norte-americano”, adianta a investigadora do IPRI. “E isso acho que vai ultrapassar esta quinta-feira e vai depender muito da forma como, internamente, a administração e o Partido Republicano interagem e falam entre si – e como apresentam a sua argumentação ao presidente Trump.”