É no calor da Florida que se pode decidir quase tudo. Os Estados Unidos estão contentes com o progresso e a Rússia admite aceder a pedidos da Ucrânia, mas há coisas por resolver
Um plano definitivo para acabar a guerra. O presidente da Ucrânia sabe que é difícil, mas está confiante que isso possa ser alcançado dentro de dois dias, quando visitar a residência de Donald Trump em Mar-a-Lago, na Florida, este domingo.
Lá, onde o Natal se faz num clima bem mais quente que os gélidos invernos de Kiev ou Washington, o presidente dos Estados Unidos vai receber um homólogo ucraniano disposto a concessões, mas também ele com exigências, algumas das quais complicadas de ultrapassar para a Rússia.
Depois de já ter percebido que vai mesmo ter de fazer concessões para acabar a guerra, Volodymyr Zelensky fala cada vez mais na necessidade de um referendo. O presidente da Ucrânia admite perder o Donbass e admite concordar com outros pontos do plano dos Estados Unidos, mas não quer arcar sozinho com o ónus dessa aparente derrota.
Nesse cenário, a possibilidade de um referendo é cada vez mais real. Em declarações exclusivas à Axios, o presidente da Ucrânia admitiu consultar a população sobre uma solução para chegar à paz, mas ressalvou que há coisas que têm de acontecer para isso.
E é uma das exigências de Kiev que ainda divide os dois lados. Volodymyr Zelensky quer um referendo justo e transparente, mas entende que isso não pode acontecer num cenário de guerra, já que as pessoas podem não se sentir seguras para sair de casa e ir votar, sobretudo quando a Rússia souber que isso está a acontecer.
Assim, o presidente da Ucrânia vai à Florida dizer que a realização de um referendo está condicionada a um cessar-fogo de 60 dias, o prazo que Kiev entende ser o mínimo necessário para preparar tudo em condições de ouvir os milhões de habitantes que têm voto na matéria.
E a discórdia começa logo aí. A Rússia até está aberta a um cessar-fogo, mas pretende uma janela temporal muito menor. Também segundo a Axios, um responsável norte-americano referiu que Moscovo entende a necessidade de haver um cessar-fogo em caso de referendo, mas não concorda com os 60 dias pedidos pela Ucrânia.
“É melhor não ter um referendo do que um referendo onde as pessoas não tenham possibilidade de vir e votar”, sublinhou.
Mesmo que tenha sido feito algum progresso - Volodymyr Zelensky assume-o nas declarações à Axios -, o plano em cima da mesa ainda consiste em “dolorosas concessões territoriais” à Rússia.
Por isso mesmo, o presidente da Ucrânia espera ainda conseguir melhorar o plano de paz, esperando poder jogar com a admissão do referendo, que os Estados Unidos viram como algo muito positivo.
“Tenho algumas informações, mas neste momento só quero acreditar nas palavras dos líderes”, reiterou Volodymyr Zelensky, lembrando a complexidade política, logística e de segurança de realizar um referendo em contexto de guerra.
Neste momento, esse e outros assuntos passam todos por cinco documentos codificados e que são do conhecimento de muito poucas pessoas das delegações de Estados Unidos e Ucrânia. Talvez venha a haver um sexto documento, admitiu Volodymyr Zelensky.
“Penso que estamos prontos com estes documentos”, acrescentou o presidente da Ucrânia, para falar sobre as garantias de segurança, nas quais ainda existem “questões técnicas” por resolver.
Entre essas questões está a duração do acordo, que os Estados Unidos querem que se estenda por 15 anos e possa ser renovado. “Penso que precisamos mais do que 15 anos”, frisou Volodymyr Zelensky, admitindo que será um “grande sucesso” se Donald Trump concordar com isso durante a reunião dos dois.
De qualquer forma, sejam quais forem essas garantias de segurança, ambas as partes já concordaram que terão de ser submetidas à ratificação legislativa. O mesmo é diz que o Congresso dos Estados Unidos e o Parlamento da Ucrânia terão de aprovar as medidas.
