As cinco horas em Moscovo "mataram" o plano de Genebra. "A prioridade da Rússia são os EUA, não a Ucrânia"

3 dez, 19:40
Yuri Ushakov, Jared Kushner, Kirill Dmitriev, Steve Witkoff (Kristina Kormilitsyna/Pool Sputnik Kremoin via AP)

Pouco se sabe sobre o ponto atual do plano de paz para resolver a guerra. Começou por ter 28 pontos, mas já teve 19 e agora a Rússia voltou a baralhar todas as contas

A reunião desta terça-feira entre o presidente russo e os enviados americanos, Jared Kushner e Steve Witkoff, serviu para “matar” o entendimento saído de Genebra entre Kiev e os aliados ocidentais, diz Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal, em análise às palavras de Yuri Ushakov, conselheiro de Vladimir Putin, após o encontro.

“Ushakov tentou matar a reunião de Genebra”, disse o docente universitário, que é da opinião de que a proposta europeia “esbarra” nas pretensões russas ao não contemplar “condições territoriais”.

Nas declarações de Ushakov, a Europa foi quase olimpicamente ignorada. Apenas em resposta a um jornalista é que o conselheiro de Putin referiu que o presidente transmitiu a Kushner e Witkoff “a sua avaliação das ações destrutivas” da Europa.

Para Tiago André Lopes, Moscovo não considera que a Europa esteja a negociar com “seriedade”.

“Na visão da Rússia, a Europa não está a ter em conta o contexto quer militar, quer de segurança, quer económico”, diz o comentador da CNN Portugal.

Ainda assim, Tiago André Lopes diz ter depreendido das palavras de Ushakov que houve “algum progresso” nas reuniões, mas não muito, dado que o próprio braço direito de Putin não revelou o conteúdo das negociações. “Moscovo sempre foi contra a diplomacia pública, aquilo que agora se chama de diplomacia de megafone. Para a Rússia, este acordo é para negociar em privado”.

Da esquerda para a direita, Yuri Ushakov, Vladimir Putin, um tradutor e Kirill Dmitriev antes da reunião com Jared Kushner e Steve Witkoff esta terça-feira no Kremlin (Alexander Kazakov/Pool Sputnik Kremlin via AP)

De facto, pouco se sabe acerca do plano esboçado por Washington DC. Começou por ter 28 pontos, foi cortado para 19, Zelensky falou depois em 20 e Ushakov disse que eram 27.

“É uma negociação muito flexível”, diz Francisco Pereira Coutinho, que entende que, para os russos, a “prioridade” são as relações com os EUA e não a guerra da Ucrânia, vista como algo menor pelo Kremlin.

“Se pudessem nem discutir a questão ucraniana e avançar, os russos agradeceriam. Moscovo quer que os EUA deixem de decretar qualquer tipo de sanções, que retirem aquelas que, entretanto, foram decretando, e não adotem mais e ainda mais problemáticas. Aquilo que vamos ouvindo falar são os negócios que podem ser feitos entre os EUA e a Rússia. E o tempo vai passando”.

Das palavras de Ushakov, Pereira Coutinho entendeu que a Rússia pretende “manter as linhas de comunicação com os EUA abertas, não deixando que a questão ucraniana perturbe esse tipo de negociações”.

O professor universitário concluiu ainda que a situação em torno do conflito da Ucrânia “não mudou substancialmente” esta terça-feira.

“Os russos não disseram que não queriam o plano americano, disseram de uma forma bastante ardilosa e diplomática que não concordavam com algumas coisas, mas concordavam com outras. Isto é basicamente dizer que não estão, neste momento, dispostos a avançar para um cessar-fogo ou para um armistício, mas, por outro lado, não querem hostilizar os Estados Unidos e querem manter a situação como está”, explicou à CNN Portugal.

Francisco Pereira Coutinho destacou também as palavras de Vladimir Putin num fórum de investimento do banco russo VTB, horas antes da reunião com Kushner e Witkoff, em que disse que a Rússia estaria preparada para uma guerra com a Europa, embora, refere o líder russo, não a queira.

O que mais disse Ushakov?

À saída da reunião, o conselheiro de Putin afirmou que as conversações bilaterais foram “muito úteis, construtivas e muito informativas”, mas considerou que a paz não está nem mais perto, nem mais longe.

Yuri Ushakov rejeitou, por várias vezes, após as perguntas dos jornalistas, a detalhar o que esteve em cima da mesa. Ushakov referiu ainda que Witkoff e Kushner “não prometeram” que iriam a Kiev após a reunião. E não foram mesmo, ponto que Tiago André Lopes destaca.

“Witkoff seguiu para a embaixada [dos EUA em Moscovo] e depois para os EUA. Era suposto ele ter passado por Kiev. Alguma coisa na negociação justificou ele ir diretamente para Washington DC”.

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