Pouco se sabe sobre o ponto atual do plano de paz para resolver a guerra. Começou por ter 28 pontos, mas já teve 19 e agora a Rússia voltou a baralhar todas as contas
A reunião desta terça-feira entre o presidente russo e os enviados americanos, Jared Kushner e Steve Witkoff, serviu para “matar” o entendimento saído de Genebra entre Kiev e os aliados ocidentais, diz Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal, em análise às palavras de Yuri Ushakov, conselheiro de Vladimir Putin, após o encontro.
“Ushakov tentou matar a reunião de Genebra”, disse o docente universitário, que é da opinião de que a proposta europeia “esbarra” nas pretensões russas ao não contemplar “condições territoriais”.
Nas declarações de Ushakov, a Europa foi quase olimpicamente ignorada. Apenas em resposta a um jornalista é que o conselheiro de Putin referiu que o presidente transmitiu a Kushner e Witkoff “a sua avaliação das ações destrutivas” da Europa.
Para Tiago André Lopes, Moscovo não considera que a Europa esteja a negociar com “seriedade”.
“Na visão da Rússia, a Europa não está a ter em conta o contexto quer militar, quer de segurança, quer económico”, diz o comentador da CNN Portugal.
Ainda assim, Tiago André Lopes diz ter depreendido das palavras de Ushakov que houve “algum progresso” nas reuniões, mas não muito, dado que o próprio braço direito de Putin não revelou o conteúdo das negociações. “Moscovo sempre foi contra a diplomacia pública, aquilo que agora se chama de diplomacia de megafone. Para a Rússia, este acordo é para negociar em privado”.
De facto, pouco se sabe acerca do plano esboçado por Washington DC. Começou por ter 28 pontos, foi cortado para 19, Zelensky falou depois em 20 e Ushakov disse que eram 27.
“É uma negociação muito flexível”, diz Francisco Pereira Coutinho, que entende que, para os russos, a “prioridade” são as relações com os EUA e não a guerra da Ucrânia, vista como algo menor pelo Kremlin.
“Se pudessem nem discutir a questão ucraniana e avançar, os russos agradeceriam. Moscovo quer que os EUA deixem de decretar qualquer tipo de sanções, que retirem aquelas que, entretanto, foram decretando, e não adotem mais e ainda mais problemáticas. Aquilo que vamos ouvindo falar são os negócios que podem ser feitos entre os EUA e a Rússia. E o tempo vai passando”.
Das palavras de Ushakov, Pereira Coutinho entendeu que a Rússia pretende “manter as linhas de comunicação com os EUA abertas, não deixando que a questão ucraniana perturbe esse tipo de negociações”.
O professor universitário concluiu ainda que a situação em torno do conflito da Ucrânia “não mudou substancialmente” esta terça-feira.
“Os russos não disseram que não queriam o plano americano, disseram de uma forma bastante ardilosa e diplomática que não concordavam com algumas coisas, mas concordavam com outras. Isto é basicamente dizer que não estão, neste momento, dispostos a avançar para um cessar-fogo ou para um armistício, mas, por outro lado, não querem hostilizar os Estados Unidos e querem manter a situação como está”, explicou à CNN Portugal.
Francisco Pereira Coutinho destacou também as palavras de Vladimir Putin num fórum de investimento do banco russo VTB, horas antes da reunião com Kushner e Witkoff, em que disse que a Rússia estaria preparada para uma guerra com a Europa, embora, refere o líder russo, não a queira.
O que mais disse Ushakov?
À saída da reunião, o conselheiro de Putin afirmou que as conversações bilaterais foram “muito úteis, construtivas e muito informativas”, mas considerou que a paz não está nem mais perto, nem mais longe.
Yuri Ushakov rejeitou, por várias vezes, após as perguntas dos jornalistas, a detalhar o que esteve em cima da mesa. Ushakov referiu ainda que Witkoff e Kushner “não prometeram” que iriam a Kiev após a reunião. E não foram mesmo, ponto que Tiago André Lopes destaca.
“Witkoff seguiu para a embaixada [dos EUA em Moscovo] e depois para os EUA. Era suposto ele ter passado por Kiev. Alguma coisa na negociação justificou ele ir diretamente para Washington DC”.