A Rússia "empastelou o sinal de GPS" do avião de von der Leyen para lhe "dar uma lição de humildade" após o episódio do "lava-louça"

1 set 2025, 18:50

Aterragem do avião que transportava a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Plovdiv, na Bulgária, ficou marcada por um episódio que os especialistas consideram cada vez mais comum: alegada interferência russa nos sistemas de navegação por GPS. O caso, que obrigou a tripulação a recorrer a métodos alternativos para garantir a aproximação segura à pista, não colocou em perigo a vida da líder europeia, mas é visto como um sinal político claro de Moscovo

"Há dois tipos de ameaças do ponto de vista de guerra eletrónica. Uma é o jamming, que corta pura e simplesmente o sinal GPS. A outra, mais grave, é o spoofing: o avião continua a receber sinais, mas falsos, distorcidos, que podem levá-lo para caminhos mais difíceis”, explica à CNN Portugal o comandante de aviação José Correia Guedes.

No caso do voo onde seguia Ursula von der Leyen, a falha terá resultado da primeira técnica. “O avião deixou de receber o sinal GPS. Não houve um ataque ao avião, houve um ataque ao sinal, que é bloqueado a partir de uma emissão rádio feita a partir da terra. Uma vez privado desse sinal, o sistema de navegação do avião deixa de funcionar.”

Nesse momento, os pilotos foram obrigados a reverter a operação para os sistemas básicos de navegação, recorrendo a mapas de papel para garantirem a aproximação segura à pista.

Para o major-general Agostinho Costa, o caso inscreve-se na lógica da guerra eletrónica, na qual a Rússia é considerada uma das potências mais avançadas - é uma área em que "sempre se desenvolveu mais do que o Ocidente". “O que fizeram foi empastelar o sinal GPS. Não é nada de difícil para eles, basta emitir ruído na mesma frequência e o sistema deixa de funcionar. É um irritante, uma forma de mostrar capacidade.”

Agostinha Costa interpreta o episódio como, mais do que uma demonstração de poder, uma provocação dirigida à líder europeia. “É uma lição de humildade para quem, há dois anos, disse que os russos não tinham chips e andavam a tirá-los de frigoríficos e das máquinas de lavar louça. Com este gesto, Moscovo mostra que tem meios e não hesita em usá-los".

Para o major-general Arnaut Moreira, este episódio não é inédito, mas reflete uma evolução. “A Federação Russa está a alargar a abrangência daquilo que começou no Báltico. Já tinha feito este tipo de experiências com voos ocidentais na região de Kaliningrado e agora transporta a capacidade de inibir os sinais GPS mais para sul.”

Segundo o militar, não se trata apenas de mostrar força tecnológica: “Não basta ter capacidade. É preciso haver intenção. O que aconteceu neste voo mostra que houve ambas. Foi uma mensagem política, um aviso direcionado a esta viagem concreta. Estamos aqui perante uma diminuição da capacidade de segurança aeronáutica em determinadas zonas, feita de forma propositada pela Federação Russa”.

"Não houve vontade de abater o avião mas sim de causar notícia"

Apesar do impacto político, os especialistas garantem que a segurança da aterragem não esteve comprometida. “Há sistemas alternativos baseados em terra. Os pilotos estão preparados para este tipo de situações. Antes do GPS navegávamos com cartas e ajudas rádio no solo. Eu fiz isso milhares de vezes, Não é nada de outro mundo”, reforça o comandante Correia Guedes.

Agostinho Costa lembra que os mapas em papel fazem parte do material obrigatório no kit do avião e faz uma comparação com a condução automóvel: navegar sem GPS é como conduzir sem o navegador do carro - dá mais trabalho, pode atrasar, mas chega-se ao destino. "Só é mais complicado se não houver visibilidade, mas mesmo assim há redundâncias e ajudas no terreno. Não é nada a que os pilotos não estejam habituados".

A avaliação dos três especialistas converge num ponto: mais do que uma falha operacional, o episódio foi uma demonstração política. A Rússia terá usado a guerra eletrónica não para abater um avião europeu, mas para lançar um sinal de poder.

“Parece-me que não houve vontade de abater o avião, mas de criar dificuldades e causar notícia. O avião nunca esteve em perigo, não houve uma ameaça direta à vida da presidente da Comissão Europeia", resume o comandante ouvido pela CNN Portugal. "Mas foi uma carga de trabalhos para os pilotos."

Ou, como sintetiza o major-general Agostinho Costa, "isto é o conflito no espectro eletromagnético" – invisível, mas "cada vez mais presente" no quotidiano europeu.

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