O que faria com um bónus de 69 mil euros, mais de quatro vezes superior ao valor de um salário médio anual? Ou com o perdão de uma dívida de 121 mil euros?
São estas as perguntas que estão a ser colocadas aos homens na Rússia, enquanto os militares anunciam incentivos multimilionários em rublos para combater na Ucrânia. Anúncios espalhados por cartazes nas estradas e inseridos nas redes sociais dos homens mais jovens oferecem quantias impressionantes - mais do que muitas pessoas ganham em anos - juntamente com promessas de se tornarem “heróis” ou de obterem cidadania russa de forma acelerada.
E, ainda assim, o recrutamento militar caiu 20% no primeiro trimestre deste ano em comparação com 2025, e há sinais de que continua a falhar, segundo o especialista em economia russa Janis Kluge.
A estratégia do Kremlin tem sido, há muito, resistir mais tempo do que a Ucrânia numa guerra de desgaste, tirando partido da sua enorme população e de uma grande indústria militar capaz de sustentar uma campanha lenta e prolongada. E agora, com a guerra na Ucrânia a entrar no quinto ano, o fundo de guerra do presidente Vladimir Putin está a receber um impulso necessário graças ao aumento dos preços do petróleo provocado pela guerra com o Irão.
O problema?
“Os rublos não combatem guerras”, afirma Nigel Gould-Davies, investigador sénior para a Rússia e Eurásia no International Institute for Strategic Studies (IISS). Observa que esta é a primeira guerra na história da Rússia em que o Estado está a pagar aos cidadãos para combaterem em vez de os obrigar - e isso está a gerar pressão económica e problemas de mão de obra.
“Há sinais de que este incentivo pode já não estar a funcionar eficazmente e de que a Rússia começou a perder mais tropas do que consegue recrutar”, escreveu Gould-Davies num relatório recente.
Analistas dizem que Moscovo está a recorrer a medidas cada vez mais desesperadas para reforçar as suas forças, e que Putin será provavelmente forçado a tomar decisões mais impopulares este ano se quiser continuar a invasão da Ucrânia.
Afinal, se um potencial recruta militar recusou um bónus elevado no ano passado, não é claro o que o faria mudar de ideias agora, especialmente tendo em conta relatos de más condições na linha da frente e de soldados que subornam oficiais para evitar serem enviados para missões terrestres consideradas suicidas.
A Rússia já enviou dezenas de milhares de ex-prisioneiros para a frente de combate, foi reforçada por três vagas distintas de soldados norte-coreanos e incentivou imigrantes a juntarem-se ao exército. O governo anunciou recentemente outra campanha de recrutamento, oferecendo pagar dívidas até 121 mil euros a homens que se alistem e que, de outra forma, enfrentariam penalizações por incumprimento.
E o impacto do conflito sobre homens em idade de combater teve consequências para o resto da economia russa, que enfrenta agora uma crise laboral mais ampla.
“Não estão apenas com dificuldades em encontrar pessoas para ir para a frente… estão com dificuldades em encontrar pessoas para empregar”, explica Gould-Davies à CNN.
No caso específico da indústria da defesa, há sinais de que já está a operar no limite da capacidade, com fábricas a trabalhar sem parar. Isso significa que é difícil para a Rússia aumentar ainda mais a produção militar, enquanto a procura por trabalhadores industriais coloca mais pressão sobre o resto da economia.
“Toda a economia russa está a sofrer com a escassez de mão de obra mais grave da história”, acrescenta Gould-Davies.
Quase 500 mil soldados russos morreram na guerra, segundo alguns relatórios de serviços de informação ocidentais, e centenas de milhares abandonaram o país para evitar o recrutamento. A escassez de trabalhadores resultante está a aumentar salários e a alimentar mais inflação.
“A mão de obra é um recurso mais escasso do que capital físico ou financiamento. Também é mais difícil de aumentar”, segundo Gould-Davies. “Com esforço, é possível construir uma nova fábrica ou obter mais dinheiro. Mas o Estado não consegue determinar a taxa de natalidade.”
A escassez de trabalhadores pode obrigar o Kremlin a recrutar mais mão de obra da Índia, Coreia do Norte e vários países africanos para aliviar a pressão tanto nos setores civis como militares.
Mais drasticamente, isso pode significar uma segunda mobilização forçada de tropas, acompanhada por medidas como restringir a liberdade de circulação dos cidadãos - especialmente homens em idade de recrutamento. Algo que Putin tem tentado evitar, depois de a primeira “mobilização parcial” se ter revelado extremamente impopular e ter levado muitos russos a emigrar.
“O Kremlin enfrentará em breve uma escolha fundamental: aumentar radicalmente as exigências sobre a economia e a sociedade russas ou reduzir os seus objetivos de guerra”, prevê Gould-Davies.
A guerra aumenta a pressão económica
Alguns especialistas, incluindo Maria Snegovaya, do Center for Strategic and International Studies, acreditam que o Kremlin pode ultrapassar os problemas de recrutamento pressionando mais as regiões fora das grandes cidades como Moscovo, incentivando estudantes a assinar contratos militares e recrutando mais estrangeiros. O facto de o setor da defesa estar perto da capacidade máxima cria dificuldades para Putin, mas “não é catastrófico”, segundo Snegovaya.
Economicamente, porém, “a pressão está a tornar-se cada vez mais visível”, afirma à CNN.
Observa que “o peso orçamental de sustentar o esforço de guerra” aumentou, já que os custos com pessoal militar e recrutamento representam dezenas de milhares de milhões de dólares por ano, equivalendo a 9,5% do orçamento federal e 2% do PIB russo, segundo algumas estimativas.
A Rússia está a enfrentar estagnação económica - e até recessão segundo alguns economistas - além de encerramentos de empresas e queda da confiança dos consumidores, afirma Snegovaya.
Apesar de algum crescimento salarial, os rendimentos não acompanharam a inflação persistente. A taxa oficial de inflação anual em junho é de 5,52%, segundo os meios estatais russos TASS. As famílias russas enfrentam preços alimentares mais de 18% superiores aos de janeiro de 2024, contas de serviços elevadas e um recente aumento de dois pontos percentuais no imposto sobre vendas. Ataques ucranianos a infraestruturas críticas russas também provocaram escassez de combustível em algumas zonas e atrasos persistentes nos aeroportos.
Mesmo com a desaceleração da inflação global, Snegovaya afirma que o sentimento dos consumidores continua negativo.
“Estas tendências podem… enfraquecer o apoio à guerra, aumentando potencialmente o descontentamento social. No entanto, o regime está a reforçar o seu aparelho repressivo.”
“O Kremlin tem tendência para intensificar os seus objetivos em vez de os reduzir”, alerta.
Ucrânia ultrapassa na inovação
Entretanto, os avanços da Ucrânia na guerra com drones e tecnologia significam que as suas forças militares estão a causar muito mais baixas à Rússia do que no início do conflito.
“As forças ucranianas estão a conseguir inovar mais no campo de batalha”, especialmente na utilização de drones táticos, segundo a analista Kateryna Stepanenko, do Institute for the Study of War (ISW).
No início deste ano, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que as suas forças capturaram uma posição russa ao utilizar apenas drones e robôs pela primeira vez, e que realizaram mais de 22 mil missões terrestres não tripuladas com robôs apenas nos primeiros três meses de 2026.
Em maio, a Ucrânia teve um ganho territorial líquido de quase 100 quilómetros quadrados, tornando-se o segundo mês consecutivo em que as forças russas registaram uma perda líquida, segundo o comandante-chefe ucraniano Oleksandr Syrskyi.
As baixas russas rondam entre 30 mil e 35 mil por mês, segundo responsáveis ocidentais, embora as estimativas variem. Syrskyi afirmou que, em maio, os operadores de drones da Ucrânia mataram ou feriram mais soldados do que a Rússia conseguiu recrutar.
E enquanto a tecnologia militar da Ucrânia melhora, especialistas afirmam que o exército russo se tornou mais fraco à medida que envia maiores números de ex-prisioneiros e soldados sem treino para a frente.
Os esforços de Moscovo para recrutar estudantes para as suas unidades especializadas em drones têm sido marcados por desconfiança e contratempos, segundo Stepanenko, depois de o ministério da Defesa russo ter enviado alguns operadores de drones para assaltos terrestres na linha da frente.
“Isso criou uma campanha de relações públicas nada útil para o recrutamento das forças de sistemas não tripulados”, conclui Stepanenko.
