Conversas secretas, encontros discretos e um alegado plano de paz com a marca de Washington, DC e Moscovo reabriram o debate entre os especialistas: estará tudo a acelerar para um desfecho? Ou, pelo contrário, a Ucrânia aproxima-se da fase mais difícil da guerra?
Diana Soller não acredita que a proposta dos EUA para resolver o conflito na Ucrânia, conhecida esta quarta-feira, signifique uma aceleração natural do processo de paz. Estaremos antes, de acordo com a especialista em Relações Internacionais, diante do resultado inesperado de negociações secretas entre os Estados Unidos e a Rússia, que terão dado origem a um plano de paz "em que a Ucrânia sai a perder em grande escala".
"O que parece estar a acelerar inadvertidamente são as conversações entre os EUA e a Rússia, que deram origem a um plano de paz em que a Ucrânia sai a perder em grande escala, exceto nas garantias de segurança e numa suposta arquitetura de paz que inclui a Europa", explica.
Para Diana Soller, a Ucrânia encontra-se hoje "numa situação muito mais complicada" do que há apenas alguns meses. As autoridades ucranianas estarão "alarmadas" com as movimentações diplomáticas de Washington, DC, que, segundo a comentadora da CNN Portugal, parece ter regressado à sua estratégia inicial: apoiar uma solução imposta à Ucrânia, com concessões territoriais significativas à Ucrânia.
"A Ucrânia é o elo mais fraco. A Europa não tem capacidade para a suportar sozinha e, se os EUA cortarem o programa de armamento da NATO ou a partilha de inteligência, a Ucrânia fica sem margem de manobra", aponta, referindo-se a um plano que tem 28 pontos em que quase todos respondem a exigências russas.
Neste cenário, Kiev teria apenas duas opções, na opinião da especialista: aceitar um acordo que equivaleria a "uma derrota profunda", ainda que com garantias de segurança, ou rejeitar o plano e entrar numa nova fase da guerra, mais irregular, mais subterrânea, uma guerra de guerrilha e sabotagem "até ao momento em que não puder resistir mais".
O tenente-general Rafael Martins reforça a ideia de que este plano não é obra de um súbito volte-face diplomático. Pelo contrário, acredita que está em preparação há meses.
“Este plano não começou há duas semanas, vem de muito atrás. Não sabemos que conversa Putin teve com Trump naquela viagem de três minutos de carro. As referências continuam a ser o que ficou combinado no Alasca" refere, lembrando a reunião bilateral que reuniu os dois líderes e na qual, tal como neste plano agora apresentado, a Ucrânia ficou de fora.
Segundo o especialista militar, pode ter havido “encenações de demoras e retardamentos” para colocar a Rússia numa posição tática, estratégica e operacionalmente vantajosa. E hoje, diz, Moscovo está precisamente nessa posição.
Na sua opinião, territorialmente, militarmente e diplomaticamente, a Rússia teria condições para impor exigências incluindo a formalização da cedência do Donbass e de partes de Kherson e Zaporizhzhia. “Com alguma flexibilidade”, admite, mas sempre com Kiev como lado derrotado.
"Enquanto não conhecermos o sumo deste pacote, nomeadamente as futuras relações EUA-Ucrânia e EUA-Rússia, só podemos fazer este juízo de valor: a derrota está iminente", completa, lembrando a lista de exigências de Volodymyr Zelensky que fica no escuro com esta proposta.
Outro aspeto controverso do plano é a alegada participação de Steve Witkoff, enviado especial norte-americano, e de empresários próximos do Kremlin que teriam agido como negociadores informais. Para o especialista em política internacional Marcos Farias Ferreira, isso não é apenas credível. É também sintomático do modo como esta guerra está a ser gerida ao mais alto nível.
"São os fatores decisivos. É isso que torna tão difícil conceber uma oposição eficaz à pressão dos EUA e à sua forma de resolver problemas".
O que está em causa, explica, é a lógica americana da "paz pela força". Aceitá-la num conflito abre a porta a aplicá-la noutros. E a Rússia, através de canais discretos construídos por figuras como Kirill Dmitriev, terá conseguido algo "extraordinário": voltar a colocar a responsabilidade da decisão no campo da Ucrânia e não no Kremlin, considera.
"A diplomacia europeia, embora toda mobilizada, não conseguiu demover Trump deste pressuposto. Venderam-lhe a alma, fizeram o que ele queria e não conseguiram, em troca, um plano mais justo para terminar a guerra".
Para Marcos Farias Ferreira, isso revela um fracasso estrutural: o "descalabro da diplomacia europeia", o erro estratégico acumulado durante meses e mesmo "irresponsabilidade política".