O comandante do blindado que rompeu as barricadas em Mariupol é o novo chefe das Forças Armadas da Ucrânia

21 jul, 23:13
Mykhailo Drapatyi (AP Photo)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Aos 44 anos, é visto como um dos oficiais mais experientes da sua geração. Construiu a carreira quase sempre na linha da frente e ganhou reputação por liderar algumas das operações mais difíceis da guerra contra a Rússia

A imagem correu o mundo em 2014. Um veículo blindado ucraniano acelera em direção a uma barricada montada por forças pró-russas e atravessa-a sem abrandar, abrindo caminho para a entrada das tropas em Mariupol. No interior seguia o então major Mykhailo Drapatyi, comandante da operação. O momento tornou-se um dos símbolos da resistência ucraniana nos primeiros meses da guerra no Donbass e transformou um oficial praticamente desconhecido numa figura respeitada dentro das Forças Armadas.

Doze anos depois, Drapatyi chega ao cargo mais importante da hierarquia militar ucraniana. O presidente Volodymyr Zelensky anunciou a sua nomeação para comandante-chefe das Forças Armadas, substituindo Oleksandr Syrskyi, numa altura em que Kiev procura dar um novo rumo à condução da guerra e acelerar reformas há muito reclamadas por militares e especialistas.

O oficial que entrou para a história em Mariupol

Natural de Kamianets-Podilskyi, no oeste da Ucrânia, Drapatyi formou-se no Instituto de Forças Blindadas de Kharkiv em 2004. Iniciou a carreira na 72.ª Brigada Mecanizada, mas foi a guerra iniciada pela Rússia em 2014 que mudou o rumo da sua vida militar.

Na primavera desse ano, quando grupos armados apoiados por Moscovo assumiram o controlo de várias cidades do leste da Ucrânia, Drapatyi comandava o 2.º batalhão da brigada. Em maio participou na operação para recuperar Mariupol e foi durante essa missão que aconteceu o episódio que o tornaria conhecido.

9 травня 2014 рік. Донеччина Маріуполь. Тодішній комбат 72-ї бригади Михайло Драпатий вривається на техніці у місто pic.twitter.com/M2Ur8GptC1

— Serhii Nuzhnenko (@SerhiiNuzhnenko) July 21, 2026

Poucos meses depois voltou a destacar-se. Cercado com centenas de militares ucranianos na zona de Izvaryne, junto à fronteira russa, liderou uma retirada de cerca de 260 soldados e mais de 30 veículos militares ao longo de aproximadamente 160 quilómetros sob intenso fogo de artilharia. A operação consolidou a sua reputação como um comandante disposto a assumir riscos para retirar os seus homens do cerco. 

Quando Moscovo lançou a invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, Drapatyi já integrava o núcleo dos comandantes mais experientes das Forças Armadas.

Nos primeiros meses da guerra ajudou a travar o avanço das tropas russas sobre Kryvyi Rih, impedindo que a ofensiva se expandisse para o centro do país. Mais tarde comandou o agrupamento militar responsável pela contraofensiva que permitiu libertar a margem ocidental da região de Kherson, uma das maiores vitórias militares ucranianas desde o início da invasão.

Em maio de 2024 voltou a ser chamado para uma das frentes mais críticas, quando a Rússia abriu uma nova ofensiva na região de Kharkiv. Sob o seu comando, as forças ucranianas conseguiriam conter o avanço russo e impedir uma progressão mais profunda em direção à segunda maior cidade do país.

Depois assumiu o Grupo Operacional de Lugansk, foi nomeado comandante das Forças Terrestres e, mais tarde, comandante das Forças Conjuntas, cargo que ocupava até agora.

Em junho de 2025 apresentou a demissão como comandante das Forças Terrestres na sequência de ataques russos contra centros de treinos militar que provocaram dezenas de mortos. Em vez de afastar responsabilidades, afirmou que a tragédia revelava falhas estruturais que não tinham sido corrigidas, uma atitude que reforçou a imagem de um comandante disposto a responder pelos erros. 

O general que quer mudar a forma de fazer a guerra

Drapatyi tornou-se uma das principais vozes a favor da modernização das Forças Armadas. Enquanto comandante das Forças Terrestres criticou publicamente o excesso de burocracia, a falta de iniciativa entre os oficiais, a distância entre os quartéis-generais e a realidade da frente de combate e a resistência à mudança dentro da instituição militar.

Volodymyr Zelensky cumprimenta o novo comandante-chefe das Forças Armadas ucranianas, Mykhailo Drapatyi, durante um encontro em Kiev. (Serviço de Imprensa da Presidência da Ucrânia)

Defendeu uma estrutura de comando mais descentralizada, maior autonomia para os comandantes no terreno, alterações nos métodos de treino e uma reforma do recrutamento. Também foi um dos principais impulsionadores da utilização massiva de drones, ao defender a criação de uma extensa zona controlada por sistemas não tripulados capaz de dificultar qualquer avanço das forças russas.

Ao anunciar a nomeação, Zelensky explicou que Drapatyi terá como missão reorganizar o Estado-Maior das Forças Armadas, preparar uma nova estratégia de defesa e acelerar a reforma do Exército. 

Entre as prioridades definidas pelo presidente estão o reforço da defesa aérea, a modernização do sistema de mobilização e o desenvolvimento das capacidades de ataque de longo alcance. 

A escolha representa também uma mudança geracional e de estilo de liderança. Se Syrskyi era frequentemente associado a um modelo de comando mais centralizado, Drapatyi é visto como um oficial mais próximo das tropas, favorável à inovação e defensor de um Exército mais flexível, preparado para uma guerra onde a tecnologia pesa tanto como os tanques e a artilharia. 

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa