Aos 44 anos, é visto como um dos oficiais mais experientes da sua geração. Construiu a carreira quase sempre na linha da frente e ganhou reputação por liderar algumas das operações mais difíceis da guerra contra a Rússia
A imagem correu o mundo em 2014. Um veículo blindado ucraniano acelera em direção a uma barricada montada por forças pró-russas e atravessa-a sem abrandar, abrindo caminho para a entrada das tropas em Mariupol. No interior seguia o então major Mykhailo Drapatyi, comandante da operação. O momento tornou-se um dos símbolos da resistência ucraniana nos primeiros meses da guerra no Donbass e transformou um oficial praticamente desconhecido numa figura respeitada dentro das Forças Armadas.
Doze anos depois, Drapatyi chega ao cargo mais importante da hierarquia militar ucraniana. O presidente Volodymyr Zelensky anunciou a sua nomeação para comandante-chefe das Forças Armadas, substituindo Oleksandr Syrskyi, numa altura em que Kiev procura dar um novo rumo à condução da guerra e acelerar reformas há muito reclamadas por militares e especialistas.
O oficial que entrou para a história em Mariupol
Natural de Kamianets-Podilskyi, no oeste da Ucrânia, Drapatyi formou-se no Instituto de Forças Blindadas de Kharkiv em 2004. Iniciou a carreira na 72.ª Brigada Mecanizada, mas foi a guerra iniciada pela Rússia em 2014 que mudou o rumo da sua vida militar.
Na primavera desse ano, quando grupos armados apoiados por Moscovo assumiram o controlo de várias cidades do leste da Ucrânia, Drapatyi comandava o 2.º batalhão da brigada. Em maio participou na operação para recuperar Mariupol e foi durante essa missão que aconteceu o episódio que o tornaria conhecido.
9 травня 2014 рік. Донеччина Маріуполь. Тодішній комбат 72-ї бригади Михайло Драпатий вривається на техніці у місто pic.twitter.com/M2Ur8GptC1
— Serhii Nuzhnenko (@SerhiiNuzhnenko) July 21, 2026
Poucos meses depois voltou a destacar-se. Cercado com centenas de militares ucranianos na zona de Izvaryne, junto à fronteira russa, liderou uma retirada de cerca de 260 soldados e mais de 30 veículos militares ao longo de aproximadamente 160 quilómetros sob intenso fogo de artilharia. A operação consolidou a sua reputação como um comandante disposto a assumir riscos para retirar os seus homens do cerco.
Quando Moscovo lançou a invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, Drapatyi já integrava o núcleo dos comandantes mais experientes das Forças Armadas.
Nos primeiros meses da guerra ajudou a travar o avanço das tropas russas sobre Kryvyi Rih, impedindo que a ofensiva se expandisse para o centro do país. Mais tarde comandou o agrupamento militar responsável pela contraofensiva que permitiu libertar a margem ocidental da região de Kherson, uma das maiores vitórias militares ucranianas desde o início da invasão.
Em maio de 2024 voltou a ser chamado para uma das frentes mais críticas, quando a Rússia abriu uma nova ofensiva na região de Kharkiv. Sob o seu comando, as forças ucranianas conseguiriam conter o avanço russo e impedir uma progressão mais profunda em direção à segunda maior cidade do país.
Depois assumiu o Grupo Operacional de Lugansk, foi nomeado comandante das Forças Terrestres e, mais tarde, comandante das Forças Conjuntas, cargo que ocupava até agora.
Em junho de 2025 apresentou a demissão como comandante das Forças Terrestres na sequência de ataques russos contra centros de treinos militar que provocaram dezenas de mortos. Em vez de afastar responsabilidades, afirmou que a tragédia revelava falhas estruturais que não tinham sido corrigidas, uma atitude que reforçou a imagem de um comandante disposto a responder pelos erros.
O general que quer mudar a forma de fazer a guerra
Drapatyi tornou-se uma das principais vozes a favor da modernização das Forças Armadas. Enquanto comandante das Forças Terrestres criticou publicamente o excesso de burocracia, a falta de iniciativa entre os oficiais, a distância entre os quartéis-generais e a realidade da frente de combate e a resistência à mudança dentro da instituição militar.
Defendeu uma estrutura de comando mais descentralizada, maior autonomia para os comandantes no terreno, alterações nos métodos de treino e uma reforma do recrutamento. Também foi um dos principais impulsionadores da utilização massiva de drones, ao defender a criação de uma extensa zona controlada por sistemas não tripulados capaz de dificultar qualquer avanço das forças russas.
Ao anunciar a nomeação, Zelensky explicou que Drapatyi terá como missão reorganizar o Estado-Maior das Forças Armadas, preparar uma nova estratégia de defesa e acelerar a reforma do Exército.
Entre as prioridades definidas pelo presidente estão o reforço da defesa aérea, a modernização do sistema de mobilização e o desenvolvimento das capacidades de ataque de longo alcance.
A escolha representa também uma mudança geracional e de estilo de liderança. Se Syrskyi era frequentemente associado a um modelo de comando mais centralizado, Drapatyi é visto como um oficial mais próximo das tropas, favorável à inovação e defensor de um Exército mais flexível, preparado para uma guerra onde a tecnologia pesa tanto como os tanques e a artilharia.
