"Este míssil introduz um patamar diferente na guerra", uma vez que "não é intercetável" pelos sistemas de defesa aérea da Ucrânia. Há sistemas dos EUA que podem parar estes mísseis mas a quantidade disponível não é muita
Tem um alcance de 5.000 a 6.000 km e foi desenvolvido para carregar ogivas nucleares. “É a primeira vez que a Rússia está a utilizar um míssil balístico intercontinental de médio alcance contra a Ucrânia”, assinala o major-general Isidro de Morais Pereira, que diz "estranhar" que as forças russas tenham utilizado um míssil intercontinental concebido no tempo da União Soviética “para carregar ogivas nucleares” e que agora foi usado para lançar ogivas convencionais.
Assim, há duas hipóteses, teoriza o major-general: “Ou a Rússia está com falta de mísseis [convencionais] e tem muitos destes e está a querer despachá-los ou está a aumentar a parada da ameaça”.
De qualquer modo, observa o tenente-general Marco Serronha, "este míssil introduz um patamar diferente na guerra da Ucrânia", uma vez que "não é intercetável" pelos sistemas de defesa aérea de que a Ucrânia dispõe, nomeadamente os sistemas Patriot, fornecidos pelos EUA. Segundo o especialista, este míssil só é interceptável por "sistemas de mísseis antiaéreos e antibalísticos que os EUA têm mas em pouca quantidade". Em outubro, os norte-americanos enviaram para Israel um dos oito sistemas de defesa antimíssil de que dispõe atualmente.
“É um míssil poderoso, que carrega uma ogiva de 1.500kg de TNT e tem uma capacidade destrutiva muito grande, mesmo carregando ogivas convencionais”, sublinha o major-general Isidro de Morais Pereira, em declarações à CNN Portugal.
As informações, para já, ainda são escassas. A notícia do ataque foi avançada por fontes ucranianas, não tendo sido confirmada pela Rússia ou outras fontes independentes. Sabe-se que se trata de um míssil RS-26 Rubezh lançado a partir da região de Astrakhan, no Mar Cáspio. A partir do momento em que é lançado da Terra, “sobe muito alto, sai fora da atmosfera, atinge velocidades superiores a 20.000 km/h, e depois, quando reentra na atmosfera, abranda novamente e atinge o seu objetivo”, explica Isidro de Morais Pereira.
De acordo com o governador de Dnipro, Serhii Lysak, o ataque provocou dois incêndios na cidade e danificou as instalações de uma empresa local, presumindo-se assim que “o objetivo seria atingir empresas tecnológicas” na região.
Os mísseis balísticos intercontinentais podem ser de curto alcance, atingindo menos de 1.000km; de médio alcance, entre 3.000 e 5.000km; e de longo alcance, que pode chegar aos 9.000km, segundo o Centro de Controlo de Armas e Não Proliferação.
O primeiro míssil balístico intercontinental foi lançado em 1957 pela então União Soviética. É a primeira vez que a Rússia lança um míssil desta natureza contra a Ucrânia.
O ataque surge depois de os EUA terem permitido à Ucrânia utilizar armas de longo alcance em solo russo e da revisão da doutrina nuclear russa, que alarga as circunstâncias em que Putin pode responder com armas nucleares a ataques do inimigo realizados mesmo com armas convencionais.