O Irão está lentamente a instalar-se como interveniente na guerra na Ucrânia

CNN , Nadeen Ebrahim
21 out, 08:00
Uma imagem de drones durante um exercício militar num local não identificado no Irão, nesta imagem obtida a 24 de agosto. Foto: West Asia News Agency/Reuters

Com a Rússia a enfrentar cada vez mais contratempos na Ucrânia, parece estar a recorrer crescentemente à ajuda do Irão, num desenvolvimento que causou preocupação ao ocidente e aos adversários regionais de Teerão

Fontes próximas dos serviços de informações dos EUA disseram à CNN que o Irão enviou instrutores militares para a Crimeia para treinar e aconselhar os militares russos quanto à utilização de drones de fabrico iraniano que Moscovo tem usado para espalhar o terror em cidades por toda a Ucrânia.

A presença de pessoal iraniano em território ucraniano ocupado iria assinalar um aumento significativo do envolvimento do Irão na guerra a prestar apoio à Rússia, e também uma nova fase na crescente ameaça militar dos dois países.

Na terça-feira, a Reuters também reportou que o Irão pode fornecer mísseis terra-terra à Rússia. Nasser Kanani, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, negou essas alegações e disse que o Irão “sempre se opôs à continuação da guerra [na Ucrânia]”.

Apesar das suas diferenças, o Irão e a Rússia têm estado a aproximar-se porque “partilham a mesma perceção de ameaça”, disse Behnam Ben Taleblu, membro da Fundação para a Defesa das Democracias, um grupo de reflexão da linha dura em Washington. “Eles veem uma ordem regional alinhada contra eles por uma potência externa”, disse ele em referência aos Estados Unidos.

Se o Irão vende mísseis à Rússia, isso significa que está “a deslocar algumas das suas munições mais fiáveis e precisas para mais perto da Europa”, disse ele. “É crucial ver o envolvimento do Irão com a Rússia como parte da sua guerra mais lata com o Ocidente.”

Desde a invasão da Rússia, os dois países sancionados têm colaborado em questões políticas e económicas, sendo a faceta militar a mais recente na relação entre ambos.

O Major-General Yahya Safavi, assessor militar do líder supremo do Irão, gabou-se na terça-feira de que há atualmente 22 países interessados em comprar drones iranianos.

O Irão, que antes da revolução de 1979 importava a maioria das suas armas, fabrica atualmente mais de 80 % do seu equipamento militar, segundo uma citação do major-general à agência noticiosa Fars.

O Irão e a Rússia negaram por repetidas vezes o envolvimento da República Islâmica na Ucrânia, mas os analistas dizem que as notícias relativas aos drones iranianos não são necessariamente vistas como publicidade negativa em Teerão.

Apesar de a utilização de armas iranianas por parte da Rússia dizer mais sobre o seu desespero na guerra do que sobre a capacidade militar de Teerão, os peritos dizem que as notícias na comunicação social sobre os drones assassinos iranianos estão a impulsionar a imagem do país que tenta mostrar ao mundo que as suas armas podem competir num conflito internacional.

“Para os iranianos trata-se de obter quota de mercado, trata-se de prestígio, de solidificar alianças”, disse Eric Lob, um académico colaborador externo do programa sobre o Irão no Instituto do Médio Oriente, acrescentando ainda que se tratam de incentivos para um país tão isolado como o Irão.

O Irão não era conhecido como exportador de armas. Anteriormente, as suas armas eram enviadas para grupos ideologicamente alinhados no Iraque, Iémen e Líbano, maioritariamente para satisfazer a agenda regional da República Islâmica. Segundo os analistas, a guerra na Ucrânia está a mudar isso.

Há vários anos que são usados drones no Médio Oriente, mas Lob diz que “os iranianos têm trabalhado nas suas capacidades internas com drones desde a guerra Irão-Iraque, desde a década de 1980”, o que deu a Teerão tempo mais do que suficiente para evoluir.

A guerra na Ucrânia é uma oportunidade para o Irão observar como os seus drones estão a ser usados no campo de batalha, para poder analisar onde falham e ver como os melhorar, disse Aniseh Bassiri Tabrizi, investigadora do Instituto Real de Serviços Unificados (RUSI) em Londres. Ela acrescentou que “é possível que o que está a acontecer na Ucrânia consiga mais clientes para o Irão... país que pretende ser um dos principais atores no ramo das armas e drones”.

Mas os inimigos do Irão também estão atentos ao desempenho dos seus drones na Ucrânia. Os seus rivais regionais nos estados do Golfo Pérsico têm sido alvos diretos de ataques com drones no Iémen, por parte do grupo Houthi, alinhado com o Irão, e a República Islâmica foi acusada de fornecer esses drones.

Também Israel, arquinimigo do Irão, deve estar a observar muito atentamente, disse Amir Avivi, general reformado das Forças Israelitas de Defesa (IDF), fundador e CEO do Fórum de Defesa e Segurança de Israel.

“É uma ameaça e uma oportunidade”, disse à CNN. “É uma oportunidade para vermos realmente as capacidades [iranianas] no terreno e sabermos o que se passa. Por outro lado, uma das coisas que nos preocupam é que as armas... podem chegar ao Hezbollah, por exemplo, ou ao Hamas.”

“É um desafio continuar sempre a desenvolver e estar sempre um passo à frente das capacidades que o outro lado está a desenvolver”, disse ele. “Por isso, estamos a observar muito atentamente para vermos o que acontece na Ucrânia.”

No entanto, o crescimento da ligação militar entre Teerão e Moscovo é uma “má notícia” para o Ocidente, disse ele, “porque nunca se viu uma cooperação tão forte e próxima entre a Rússia e o Irão.”

Hadas Gold e Abbas Al Lawati contribuíram para esta notícia

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