O presidente russo propôs um estranho “duelo experimental”: diz que está disponível para selecionar um alvo em Kiev e que esse alvo será do conhecimento das partes em conflito; o alvo será depois atacado com o Oreshnik, um míssil que o Kremlin diz ser "imbatível"; após enviar o míssil na direção do alvo, Putin desafia as defesas ocidentais a travar o ataque - e tem a certeza de que esse será um esforço em vão. "Escumalha", reagiu Zelenky - que pôs em causa a sanidade de Putin. Mas e se Putin tiver razão?
“De tudo o que Putin disse esta quinta-feira, há algo que, quando tentamos unir os pontos, ficou bastante claro: Putin percebe que neste momento, ao fim de quase três anos de guerra, este é talvez o ponto mais frágil da aliança em torno de Zelensky. É por isso que ele faz aquelas declarações todas - para provocar e picar, porque ele sabe que a aliança está frágil”, diz o comentador da CNN Portugal Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais,
Quanto ao poder do Oreshnik, Tiago André Lopes manifesta dúvidas quanto à capacidade ocidental para o travar. “Daquilo que nós vimos na primeira vez que o míssil foi usado, eu diria que não conseguimos parar o Oreshnik. Apesar de alguns especialistas militares dizerem que é provável haver capacidade para o fazer, porque o Oreshnik é apenas uma evolução de um míssil já conhecido, mas... Mas e se a evolução for, por exemplo, hipersónica e se atingir a velocidade que Putin diz que atinge? É possível mas é difícil de travar”, antecipa o comentador da CNN Portugal. “Passamos a depender um bocadinho da sorte e não tanto da capacidade e da competência.”
Num registo bastante otimista, o presidente russo dirigiu-se esta quinta-feira ao país na sua conferência de imprensa anual para fazer o balanço do ano. Perante as câmaras, Putin lamentou mesmo não ter começado a guerra na Ucrânia mais cedo. “Sabendo o que sabemos hoje, teria pensado em tomar a decisão de lançar a ‘operação’ mais cedo. Devíamos ter começado a preparar-nos para isto antes.”
Foi nesse contexto que o chefe de Estado russo propôs o tal desafio ao Ocidente, relacionado com o muito acarinhado Oreshnik. “Se os peritos ocidentais acreditam que o Oreshnik pode ser intercetado, que nos proponham uma experiência tecnológica e aos que financiam a Ucrânia no Ocidente, em particular os EUA. Que escolham um alvo, digamos em Kiev, que concentrem aí todos os seus sistemas de defesa aérea e antimíssil e que nós os ataquemos com o Oreshnik. Depois veremos o que acontece. Estamos prontos para essa experiência. O outro lado está pronto? [Seria interessante para nós. Vamos fazer esta experiência, este duelo tecnológico, e ver os resultados. Penso que seria útil tanto para nós como para os americanos.”
E não é só o Oreshnik...
Além do Oreshnik, um míssil balístico de alcance intermédio do qual ainda se sabe pouco, Moscovo tem vastas capacidades noutros mísseis, como destaca o major-general Agostinho Costa.
Ao nível dos mísseis balísticos intercontinentais, os célebres ICBM, o especialista em assuntos de segurança e defesa elenca dois nomes: o RS-24 Yars, capaz de chegar à velocidade Mach 25 (30 mil quilómetros por hora e com um alcance operacional superior a 10.000 quilómetros); o RSM-56 Bulava, que entrou ao serviço das Forças Armadas Russas em 2018 e tem um alcance entre os 8 e os 9 mil quilómetros.
O major-general destaca que estes dois mísseis estão equipados com o sistema MIRV (Multiple Independently Targetable Reentry Vehicle), que consiste na capacidade de um míssil transportar várias ogivas, cada uma capaz de atingir alvos diferentes, sendo que o Bulava é lançado a partir do mar, por um submarino, e o Yars a partir de terra.
Agostinho Costa menciona também o SARMAT, operacional desde 2023, mas salienta que este míssil ainda está “em fase de consolidação”.
Para os mísseis terra-ar de curto alcance, os sistemas Pantsir são os escolhidos pelo major-general, que releva que já estão preparados para serem usados contra drones.
Para o longo alcance terra-ar, Agostinho Costa realça a família dos S300, S400 e S500, “os mais eficazes” no campo de batalha, particularmente os dois últimos.
No capítulo dos mísseis terra-terra, o P-800 Oniks e o já famoso 3M22 Zircon são os eleitos. O primeiro, um míssil supersónico de cruzeiro, dependendo da versão, tem um alcance de entre 120 e 800 quilómetros e atinge velocidades superiores a 3.000 quilómetros por hora. O Zircon, por seu turno, é hipersónico de cruzeiro e lançado a partir do mar. Tem um alcance superior a 1.000 quilómetros e consegue viajar a 11.000 quilómetros por hora.
Para os ar-terra, uma das escolhas é o subsónico de cruzeiro Kh-101, lançado a partir dos Tupolev 95, 160 e 260. A primeira utilização deste míssil no campo de batalha foi, como é o caso de vários nesta lista (Oniks, S-400, Pantsir), na guerra civil da Síria, pelas forças leais a Bashar al-Assad.
A outra escolha de Agostinho Costa é o mais moderno e hipersónico balístico Kh47M2 Kinzhal, que entrou ao serviço de Moscovo em 2017.
Por fim, o míssil ar-ar que o major-general destaca é o R37 e a sua evolução, o R37M, que constituem uma das maiores ameaças à Força Aérea Ucraniana desde o início do conflito.
