Maksym Butkevych passou mais de dois anos e meio em cativeiro em Lugansk, região separatista pró-russa, onde confessou um crime "fictício" antes de ser libertado numa troca de prisioneiros de guerra com a Ucrânia
Maksym Butkevych foi capturado pelas forças russas e feito prisioneiro de guerra nos primeiros meses da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O ativista e jornalista, que se voluntariou como soldado logo após a invasão russa, foi libertado numa troca de prisioneiros de guerra em outubro do ano passado e contou ao The Guardian como foi espancado, torturado e submetido a um julgamento de fachada durante aqueles mais de dois anos em cativeiro em Lugansk, região separatista quase totalmente controlada pela Rússia.
Butkevych e os seus colegas soldados foram atraídos para uma armadilha na linha da frente oriental. Quando foram apanhados, começaram por ser esmurrados e roubados. "Houve alguns pontapés e murros. Levaram relógios e outras coisas", conta. Mal ele sabia que estava só no início do que viriam a ser dois anos de tortura, ameaças de execução, violência sexual e agressões com o objetivo de lhe retirar uma "confissão" forçada de um crime que ele nunca cometeu.
De mãos e pernas atadas, os soldados foram transportados para um edifício inacabado nos arredores de Lugansk, onde foram confrontados com a crueldade que se tornaria comum nos anos que se seguiriam em cativeiro.
"Havia um oficial que se comportava de uma forma muito desagradável, tentando provocar-nos. Ele queria mostrar que era mais esperto do que o soldado comum", recorda. "Perguntou quem era casado quando estávamos ajoelhados à frente dele. Perguntou onde estavam as mulheres dos soldados. Um respondeu “na Polónia” e outro “na Alemanha”. Começou a falar sobre o que as suas mulheres faziam sexualmente, com pormenores doentios. Eu só pensei: ‘Este oficial tem problemas graves’".
Na manhã seguinte, Butkevych e os seus colegas soldados foram apresentados a um grupo de comandantes e propagandistas que os visitava, tendo-lhes sido dito que seriam filmados para mostrar que tinham sido capturados e que estavam a ser bem tratados. Seguiu-se uma conversa em que os soldados russos insistiram que a invasão deveria ser definida como uma “guerra” e Butkevych respondeu que só estava interessado no custo humano do que estava a acontecer.
“Ficaram surpreendidos por eu estar a manter a minha posição, embora não estivesse a discutir.”
Depois, foram confrontados com a primeira ameaça explícita de que poderiam ser mortos, apesar de serem prisioneiros de guerra. "Disseram-me: 'Provavelmente pensas que és um prisioneiro de guerra. Não és até seres registado. Para já, estás desaparecido no campo de batalha. Se não te portares bem, podemos ir até ao pátio das traseiras para veres onde executámos os prisioneiros que se portaram mal'".
A primeira agressão grave ocorreu algumas horas mais tarde, quando os propagandistas já tinham ido embora: "Algumas horas mais tarde, as tropas russas regressaram com um soldado das forças especiais. Disseram-me que eu devia dizer que queria que o tipo das forças especiais apanhasse e matasse os meus colegas soldados na Ucrânia. Eu disse: ‘Não é nada pessoal, mas não posso dizer isso’.
"Depois disseram-nos que íamos aprender a história da Ucrânia", acrescenta. Enquanto o oficial "desagradável" recitava o que parecia ser um discurso de Putin, os soldados eram obrigados a repetir as suas palavras. "Se se enganassem ou cometessem um deslize, eu era espancado com um pau de madeira", recorda. "Comecei a desmaiar e a minha mão ficou inchada. Eu disse: ‘Vai partir-me o ombro’, e o oficial respondeu: ‘Não, eu sei o que estou a fazer’. A certa altura, ele parou de recitar o que quer que estava a dizer, estava a murmurar e eu vi que ele estava a gostar do que estava a fazer."
"Depois vieram outros, deram-me pontapés e murros e alguém pegou num telefone e ordenou-nos que disséssemos: ‘Glória à Rússia’, e pediram-nos novamente que falássemos sobre os russos que apanhavam os nossos companheiros do exército. Depois disso, mandaram-nos subir para um camião e acabei por desmaiar", relata.
Butkevych acordou noutro edifício em Lugansk, onde lhe foram dados colchões e toalhas velhas e foi informado que estava num centro de detenção preventiva. "Só havia uma torneira na cela para beber e lavarmo-nos, com uma água muito má. Apesar de sermos alimentados três vezes por dia, a comida era horrível. Porções muito pequenas. Muito rapidamente começámos a sentir a fome a apoderar-se de nós", lembra.
Foi ali, naquela prisão em Lugansk, que os soldados começaram a ser interrogados. "Nas primeiras semanas, o objetivo era obter informações militares, mas nós não as dávamos. Depois passaram a tentar minar a moral".
Alguns soldados foram torturados com choques elétricos provocados por fios ligados ao dínamo de um sistema telefónico de campo. "Chama-se tapik. Usaram-na noutros soldados, mas ameaçaram-me, colocando [o dínamo] à minha frente", recorda. Com o tempo, Butkevych disse que se apercebeu de que aqueles que o interrogavam estavam mais interessados no seu historial em matéria de direitos humanos e num período em que passou três anos no Reino Unido.
"Depois - lembro-me porque era o meu aniversário - fui interrogado por dois tipos. Já os tinha conhecido antes", conta. “Estavam a fazer a cena do polícia bom, polícia mau”. Butkevych foi pressionado a dar uma entrevista a uma “organização internacional de comunicação social responsável” [não foi esclarecida qual a organização] para falar sobre o facto de a Ucrânia “ser um país nazi” e questionado sobre o financiamento da Fundação Soros que tinha recebido para a sua organização não-governamental.
Foi nessa altura que Butkevych se recorda de ser torturado e ameaçado de uma forma mais direcionada, tendo sido espancado com um bastão de borracha. Ameaçaram-no vezes sem conta de que poderia ser morto e chegou a receber ameaças de violação oral e anal com um bastão de choque elétrico.
Foi então que lhe propuseram três opções: assinar uma confissão admitindo crimes de guerra e ser “muito rapidamente trocado”; ser levado para o local do seu alegado ‘crime’, onde seria alvejado ao tentar fugir; ou ser colocado numa cela com reclusos que lhe fariam a vida num “inferno”.
Decidiu assinar a confissão. "Durante vários dias, nem sequer sabia o que estava a confessar, até que fui levado a um especialista em psiquiatria que me perguntou se eu compreendia aquilo de que era acusado”, conta Butkevych, que mais tarde veio a saber que tinha confessado ter matado duas mulheres civis numa aldeia que nunca tinha visitado. “Depois, fui condenado a 13 anos de prisão numa prisão de regime rigoroso."
Depois de um processo repleto de "absurdos", que incluiu a invenção de acusações e a assinatura de documentos legais por um advogado que atestou falsamente ter estado presente durante o interrogatório, Butkevych percebeu finalmente o que estava em causa. "Apercebi-me que o que aconteceu no meu caso foi que as tropas russas tinham bombardeado fortemente uma aldeia. Quando finalmente tomaram conta da aldeia, encontraram civis feridos pelo seu próprio fogo e culparam os prisioneiros de guerra ucranianos", explica.
Naquele estabelecimento em Lugansk, foi forçado a trabalhar, foi agredido e torturado, ao mesmo tempo que decorria um processo judicial "fictício". "Foi então que descobri que, aparentemente, tinha um advogado em Moscovo. Um verdadeiro advogado de direitos humanos. Eu disse que tinha sido forçado a confessar sob tortura. O advogado disse que tinha provas de que, no dia do alegado crime, eu estava em Kiev. O tribunal não quis saber".
Na manhã de 17 de outubro do ano passado - após mais de dois anos em cativeiro - foi-lhe dito que fosse buscar as suas coisas. Não sabia para onde ia e nem pensou sequer que poderia ser libertado. Deu por si num aeródromo próximo, onde se encontravam outros prisioneiros de guerra, e foi trocado por prisioneiros russos detidos pela Ucrânia.
“Penso que, antes do meu cativeiro, não tinha percebido até que ponto o sistema penal russo reflete os valores e os métodos do mundo russo”, afirma. "Não se trata de uma exceção. Reflete a visão fundamental do ser humano como material descartável. Se te ‘comportares’, podes ser bem tratado, mas tens de obedecer. Não há poder de decisão."
"Esta é uma boa ideia do que a Rússia quer levar para a Ucrânia", conclui Butkevych.