“Todas as noites adormeço sem saber se vou acordar”, diz Nazar, de 21 anos. Porque seria impossível viver sempre com medo, os jovens aprenderam a entender os ataques e a normalizar os alertas
Primeiro ouviram-se as sirenes. Parámos de conversar, olhámos à nossa volta e tudo parecia normal. Passava um pouco das 14:30 de sábado, a temperatura rondava os 30 graus e os muitos jovens que participavam no FEST, o Festival da Juventude, em Lviv, na Ucrânia, não apressaram os passos nem deram mostras de qualquer nervosismo. A música continuava a tocar e as bancas de comida continuavam a servir hambúrgueres com batatas fritas. Segundos depois foram as aplicações nos telefones que desataram a soar. “Atenção, atenção. Há um alerta aéreo. Por favor, dirija-se para o abrigo mais próximo.” Aí começámos a ficar mais nervosos. Começámos, nós, os portugueses, claro. Porque toda a gente parecia estar na boa.
Procurámos o abrigo, uma cave que era também uma das salas de conferências do festival. O espaço ficou mais cheio, uns sentados, outros de pé, mas a conferência prosseguiu, como se nada estivesse a acontecer. O ambiente era descontraído. “É um alerta de prevenção, não precisam ter medo”, explicaram-nos. Na verdade, toda a Ucrânia estava em alerta por ter sido detetada a atividade de um avião russo. Vinte minutos depois um novo aviso nos telemóveis: o perigo tinha passado. A vida continuou. E até já dava para fazer piadas sobre o tema. Os jovens portugueses participantes no Enlargement CEmp já tinham uma história para contar aos amigos no regresso a Lisboa: o dia em que estiveram sob alerta de ataque aéreo.
Ainda assim, é bom lembrar que isto, sendo a guerra, não é bem a guerra. A guerra é outra coisa, dir-lhes-ão os seus novos amigos ucranianos, com quem tanto conversaram nos últimos quatro dias. A guerra é quando tens medo de verdade. Todos os dias. Quando tiveste que fugir da tua casa, da tua cidade, da tua região, e não sabes quando podes voltar. Quando já sabes distinguir o som dos drones do som dos aviões. A guerra é quando já não ficas nervoso por ouvires o alerta.
“Se eu perceber que é um drone e que está muito perto eu corro para o abrigo, mas se não for eu fico na cama e espero não morrer”
Aleksandr, 18 anos
Oriundo de Kremnets, na zona ocidental da Ucrânia
Estudante de Relações Internacionais em Kiev
Posso ser chamado para a guerra quando tiver 25 anos, mas eu não quero ir. Espero que a guerra termine antes disso.
Kiev é uma cidade grande. Nem todas as zonas são perigosas mas eu vivo numa das mais perigosas porque a residência universitária fica perto de uma fábrica que produz armamento. Por isso, aquela região é bombardeada com muita frequência. Quase todas as noites ouço explosões e é muito complicado porque tenho que estudar e tenho trabalhos de casa para fazer, ou tenho simplesmente que dormir mas não posso porque tenho de ir para os abrigos. Se eu perceber que é um drone e que está muito perto eu corro para o abrigo, mas se não for eu fico na cama e espero não morrer.
Acho que não terei oportunidade de sair do país porque é preciso ter muito dinheiro, por isso terei que me habituar a viver assim. Mas é muito, muito assustador porque todas as noites adormeço sem saber se vou acordar. Todos os ucranianos têm muitos pesadelos. Sonhamos que estamos a morrer ou que somos atacados.
Lviv é muito mais segura do que Kiev. Em Kiev há ataques todos os dias. Em Lviv, nestes dias, foi quase como se estivesse de férias.
“Comecei a aproveitar mesmo cada momento e descobri que o tempo é precioso”
Anna Hrykorieva, 18 anos
Oriunda de Mariupol, na região de Donetsk, ocupada pela Rússia desde 2022
Estuda Relações Internacionais em Kiev
A minha vida mudou completamente em 2022. A minha cidade foi ocupada e tive que sair, com a minha família, fomos para Khmelnytskyi, na região ocidental. E desde então, acho que a minha cabeça também mudou muito porque os meus valores eram diferentes. Comecei a adorar a minha vida, a aproveitar mesmo cada momento e... não sei, descobri que o tempo é precioso. Pode mudar tudo tão depressa. Quando era mais nova preocupávamo-nos com coisas que agora não têm importância nenhuma, agora há coisas mais importantes.
Fiquei muito impressionada com os jovens portugueses porque, quando me perguntam de onde sou e eu digo que sou de Mariupol, eles sabem o que aconteceu. Sabem que houve um cerco. Mas eu não contei muitos pormenores sobre o que aconteceu, só falei em geral, porque eu não gosto de falar disso.
“Não podemos estar sempre com medo porque isto já acontece há vários anos e se estivermos sempre com medo isso vai arruinar a nossa vida”
Nazar Kostiachenko, 21 anos
Oriundo da região de Chernihiv, no norte da Ucrânia
Estuda Direito Internacional na Universidade de Kharkiv (online)
Quando a guerra começou, em 2014, é claro que assisti a muitas coisas. Ainda me lembro do sofrimento da nossa nação, das primeiras pessoas que morreram, das primeiras cidades atingidas. Era muito novo, mas percebi logo o que significava a ocupação e sempre senti que o que estava a acontecer não era justo. Os russos tentaram manipular o que estava a ser dito, e diziam que não era uma guerra, que era apenas uma tensão política na Ucrânia. Mas nós sabemos os factos. Acho que também é por isso que quero ser diplomata e estar ao serviço da Ucrânia.
Depois a invasão em larga escala, em 2022, influenciou-me de muitas maneiras, mudou-me muito. A universidade fechou e eu tive que parar de estudar. Vivi sob ocupação durante algum tempo. E tive que me adaptar a uma nova realidade. Às vezes não tínhamos eletricidade, ou não tínhamos internet, ou água ou até comida. A nossa vida mudou dramaticamente. E isto mudou-me. Mudou a maneira como penso e como sinto, afetou a minha saúde mental.
Nestes últimos anos muitos ucranianos aprenderam a distinguir o som dos ataques, sabemos se é um avião ou se é um drone. Sabemos se os alertas são mesmo alertas ou se é só uma prevenção. Às vezes as pessoas têm medo. Mas não podemos estar sempre com medo porque isto já acontece há vários anos e se estivermos sempre com medo isso vai arruinar a nossa vida. É por isso que tentamos fazer a nossa vida normal. É por isso que, quando ouvimos um alerta, ficamos calmos.
Neste caso, sabia que Lviv é uma localização mais segura, mas também sabia que este alerta era, muito provavelmente, por causa de um avião na Rússia. Só que este avião tem um tipo de mísseis que são supersónicos, voam muito depressa, por isso temos que estar preparados. Foi por isso que toda a Ucrânia estava sob alerta.
“Quando ouvimos o som sibilante de um drone, não sabemos se vai ser o nosso último momento ou não”
Nelly Akopian, 18 anos
Oriunda da região de Shostka
Estuda Filologia, inglês, alemão e espanhol, em Kiev
Pensei que íamos morrer naquele dia em que tudo começou, em 2022. Eu tinha 16 anos e essa foi a primeira vez que ouvi o alerta de ataque aéreo a soar. Só o tinha visto algo assim nos filmes. Por isso, comecei logo a chorar, claro, mas os meus pais mantiveram a calma e ficámos em Shostka, apesar de ser muito perto das fronteiras russas.
Agora, já estou habituada aos alertas. Mas posso dizer que a minha visão do mundo mudou completamente. Agora, aprecio cada momento, cada coisa boa que temos. O problema é que a nossa geração não consegue ver o futuro, porque não sabemos o que vai acontecer amanhã, especialmente as pessoas que vivem muito perto das linhas da frente. Acho que me tornei mais madura, mas, ao mesmo tempo, talvez depressiva, porque perdi a esperança.
Adoro Kiev, mas é uma cidade muito perigosa, com os drones e os ataques a toda a hora. Tenho visto muitas notícias que dizem que a Rússia está a atacar não só infraestruturas, mas também universidades e escolas. Por isso, quando ouvimos o som sibilante de um drone, não sabemos se vai ser o nosso último momento ou não.