Henrique Gouveia e Melo considera que os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente estão a inaugurar uma nova era da guerra, marcada pela inteligência artificial
Com a tensão no Médio Oriente ainda longe de desaparecer, Henrique Gouveia e Melo considera que os Estados Unidos falharam o principal objetivo das operações militares contra o Irão. Segundo o almirante, Washington pretendia provocar uma mudança de regime em Teerão e alterar o equilíbrio de forças na região, mas acabou por não o conseguir
"Falharam o objetivo principal, que era derrubar o regime iraniano e mudar o panorama no Médio Oriente", afirma.
Apesar disso, o antigo chefe do Estado-Maior da Armada considera que os norte-americanos conseguiram atrasar o programa nuclear iraniano, reduzir parte da capacidade balística do país e enfraquecer os grupos apoiados por Teerão.
Mas, do ponto de vista estratégico, Gouveia e Melo entende que o Irão acabou por sair reforçado.
"O principal ganho iraniano foi a manutenção do regime e a legitimação desse próprio regime", sublinha, acrescentando que Teerão percebeu que pode explorar duas vulnerabilidades dos Estados Unidos: o estreito de Ormuz e a proximidade das eleições norte-americanas.
Já sobre Israel, o almirante considera que o atual governo vê a conjuntura internacional como uma oportunidade para reforçar a sua posição na região, mas alerta para as divergências cada vez mais evidentes entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump, sobretudo em relação ao Líbano.
Ao mesmo tempo, Henrique Gouveia e Melo aponta para uma transformação mais profunda, ao considerar que os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente estão a inaugurar uma nova era da guerra, marcada pela inteligência artificial.
"O que ganhou a Primeira Guerra Mundial foi a artilharia. A Segunda Guerra Mundial foi a mecanização. A Guerra Fria foi o nuclear. Esta é a guerra dos algoritmos", afirma.
Na sua perspetiva, a utilização de drones e de sistemas de inteligência artificial está a permitir que países com menos recursos consigam enfrentar adversários muito mais poderosos, o que altera profundamente a natureza dos conflitos.
Mas a revolução tecnológica vai além do campo de batalha. E o almirante deixa mesmo um aviso sobre a velocidade da mudança.
"O homem usou as ferramentas a seu favor. Só que as ferramentas obedeciam ao homem. Agora o novo martelo aprende e pensa por ele próprio."
Quanto à guerra na Ucrânia, Gouveia e Melo considera que a Rússia continua "num atoleiro" e entende que a Europa conseguiu contrariar as tentativas iniciais da administração Trump de fragilizar Kiev.
"A Europa portou-se muito bem", afirma, e admite ver nos sinais saídos da cimeira do G7 o começo de uma mudança na posição norte-americana. "É o início de um novo tempo".
