"A Ucrânia está num beco sem saída". Mobilização de norte-coreanos pode ser "apenas o início" de uma "ameaça" à segurança mundial

25 out 2024, 07:00
Vladimir Putin e Kim Jong-un (AP)

 

 

"Isto não é uma entrada da Coreia do Norte na guerra", mas pode ser "o início" de uma contribuição da Coreia do Norte que "pode chegar a números muitos mais expressivos” e representar “uma ameaça” para a Europa - mas também para a Coreia do Sul, dizem os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, numa altura em que as tropas de Pyongyang já estão no campo de batalha em Kursk

O envio de soldados norte-coreanos para a Rússia pode representar “uma ameaça” para a Europa, a quem já “não sobra muitas opções” para ajudar a Ucrânia, que está agora “num beco sem saída”, como descreve o major-general Agostinho Costa. Mas esta mobilização está a preocupar sobretudo a Coreia do Sul, que teme “o que a Rússia vai dar em troca à Coreia do Norte”, indica o embaixador António Martins da Cruz.

Os sul-coreanos foram os primeiros a alertar o mundo para o que estava a acontecer no leste da Rússia. Um contingente de pelo menos 3.000 soldados tinha partido, de barco, de Wonsan, na Coreia do Norte, para Vladivostok, na Rússia, como confirmaram entretanto os EUA. A CNN divulgou, entretanto, imagens que mostram militares a equiparem-se com uniformes da Federação Russa, mas Moscovo e Pyongyang negam os relatos, com a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, a denunciá-los como “uma farsa” criada pelos ucranianos e que visa apenas “criar confusão”. Uma "confusão" que já terá chegado ao campo de batalha, segundo os serviços secretos ucranianos.

Os EUA garantem que estão em alerta. “Ainda não sabemos se estes soldados vão entrar em combate ao lado dos russos, mas esta é certamente uma probabilidade que nos preocupa”, admitiu Lloyd Austin, secretário da Defesa norte-americano, em conferência de imprensa, esta quarta-feira.

Imagens de vídeo fornecidas à CNN pelo Centro Ucraniano para a Comunicação Estratégica e Segurança da Informação parecem mostrar soldados norte-coreanos a receberem uniformes e equipamento russo no Campo de Treino de Sergeevka, no Extremo Oriente da Rússia

“Quem está muito preocupado com isto é a Coreia do Sul”, aponta o embaixador António Martins da Cruz. “Não é com a presença de norte-coreanos na Rússia. A Coreia do Sul está preocupada é com o que a Rússia vai dar em troca à Coreia do Norte”, sublinha, acrescentando que os sul-coreanos temem que Moscovo envie para Pyongyang “tecnologia de mísseis e tecnologia nuclear”, aumentando assim o clima de tensão entre as duas Coreias, décadas após a Guerra da Coreia, nos anos 50.

O presidente sul-coreano, Yoon Suk-yeol, já avisou que o país “não vai ficar de braços cruzados” perante esta mobilização, que entende como “uma provocação que ameaça a segurança mundial”, indo além da península coreana e da Europa. “E por isso a Coreia do Sul está a ponderar se há-de enviar soldados para ajudar a Ucrânia”, indica o embaixador António Martins da Cruz.

A Lituânia, que faz fronteira com o enclave russo de Kaliningrado, quer que o Ocidente reavalie a sugestão do presidente francês de enviar tropas para o conflito - uma proposta rapidamente descartada pelos restantes parceiros da NATO. No entender do ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, Gabrielius Landsbergis, se estes relatos se confirmarem, o Ocidente “tem de voltar às ‘botas no terreno’ e outras ideias propostas por Macron”, sugeriu, em declarações ao POLITICO.

Para o major-general Agostinho Costa, as afirmações de Gabrielius Landsbergis “não podem ser levadas a sério”, até porque vêm de um país com “traumas de infância” de um período subjugado à União Soviética. “É compreensível, porque estão na linha da frente e não querem voltar a fazer parte da Federação Russa”, relativiza. 

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, já avisou que o envio de soldados norte-coreanos para combater ao lado da Rússia na Ucrânia significa “uma escalada significativa” do conflito.

"A NATO não vai seguramente enviar tropas para a Ucrânia, seria um erro", argumenta o embaixador António Martins da Cruz, antigo representante português junto da NATO, que adverte que tal seria "internacionalizar ainda mais o conflito". "Se enviarmos tropas de países da NATO para a Ucrânia, podemos com isso fazer com que a Rússia ataque diretamente países da NATO", reforça.

Segundo o major-general Agostinho Costa, a mobilização de soldados norte-coreanos para a Rússia “não implica o envolvimento” da NATO, desde logo porque a Ucrânia não faz parte da Aliança Atlântica, pelo que “em momento algum se aplica o artigo 5.º nessas circunstâncias”. Além disso, acrescenta, “não obstante haja fortíssimos indícios de que há militares norte-coreanos integrados na estrutura militar russa, eles surgem não propriamente como unidade norte-coreana, porque ainda não vimos bandeiras norte-coreanas”. “Isto não é uma entrada da Coreia do Norte na guerra, porque eles não estão com a bandeira coreana, não estão com a farda coreana, não estão com a bandeira coreana. São coreanos fardados de russos, da mesma maneira que existem unidades polacas e outras unidades que estão integradas no exército ucraniano, como legiões internacionais, etc.”, sublinha.

A presença de norte-coreanos na Rússia “não é de agora”, assinala ainda o major-general Arnaut Moreira. Até ao momento, porém, essa presença era meramente “técnica”, diz, uma vez que a Coreia do Norte “é um enorme fornecedor logístico para alimentar a máquina de guerra da Federação Russa” e contava, para tal, com “norte-coreanos em funções de assessoria técnica”. Nesta fase, porém, “há indícios suficientes” para acreditar que “estamos perante “tropas combatentes”, que “foram enviadas institucionalmente e não sujeitas a contratos de natureza individual”, conclui Arnaut Moreira.

Para o major-general Agostinho Costa, “tudo indica que estes norte-coreanos, pelo menos nesta primeira fase, vão ser empregues em Kursk”. Nesse caso, diz, “não estão a fazer nada mais nada menos do que a aplicar um tratado de segurança estratégica alargado entre Coreia do Norte e Rússia, que foi assinado em junho e foi ratificado pela Duma no princípio deste mês”, estando já em vigor.

E, segundo o embaixador António Martins da Cruz, "não nos devemos espantar com isso". É que, tal como os países da NATO estão a ajudar a Ucrânia através do fornecimento de equipamento e treino militar, "é normal que os países amigos da Rússia façam a mesma coisa do outro lado".

O problema, diz o major-general Arnaut Moreira, é que não se sabe “se estes três mil soldados são apenas o início de uma contribuição que pode chegar a números muitos mais expressivos”.

Ora, “se estes três mil soldados são apenas o início de uma colaboração muitíssimo mais vasta” entre a Coreia do Norte e a Rússia, “então é preciso ver como é que o Ocidente vai responder a isto”, sublinha Arnaut Moreira.

É certo que o número de soldados norte-coreanos na Rússia conhecido até agora “é relativamente pequeno”, num panorama de 600 a 700 mil combatentes russos recrutados para a invasão russa da Ucrânia. “É uma gota de água”, compara Agostinho Costa, lembrando que estes soldados “não têm experiência de combate há algumas décadas”, desde a Guerra da Coreia. “Mas alivia a questão do recrutamento” na Rússia, contrapõe o major-general, acrescentando que Moscovo tem contado com “voluntários” para o efeito.

A Coreia do Norte tem uma das maiores forças armadas do mundo, com um contingente de 1,2 milhões de soldados, mas muitas das suas tropas não têm experiência de combate. Mas, para o embaixador António Martins da Cruz, a capacidade destes soldados não deve ser menosprezada: "Não é por não estarem em combate que os soldados não estão treinados. Os coreanos são aguerridos, mataram-se uns aos outros na Guerra na Coreia."

Na perspetiva do major-general Arnaut Moreira, esta mobilização “é um sinal de fraqueza” por parte da Rússia que, diz, tem “utilizado as suas minorias étnicas” no combate “para preservar as elites pensantes russas e os seus filhos, que se concentram maioritariamente em Moscovo e São Petersburgo”. Portanto, prossegue, isto demonstra que “a Federação Russa já não consegue gerar, no interior das suas minorias étnicas, combatentes suficientes” e, por isso, “tem de socorrer-se desta amizade profunda que entretanto estabeleceu com a Coreia do Norte”.

Nesse contexto, o major-general Arnaut Moreira também rejeita um envolvimento direto da NATO no conflito. Antes, acredita que poderia ser criada uma “coligação de vontades”, que atua “não sob um chapéu da NATO ou da União Europeia, mas num formato semelhante ao de Rammstein” - coligação de países que coordena a ajuda militar enviada à Ucrânia.

A decisão de passar da teoria para a prática, isto é, passar das intenções no papel para o combate no terreno, “não é imediata” e “depende da ameaça”, explica Arnaut Moreira. “A partir de determinado nível de ameaça, também não sobram muitas opções”, admite.

“Com coreanos ou sem coreanos”, diz o major-general Agostinho Costa, “a Ucrânia está num beco sem saída”. É que, segundo o especialista militar, “este conflito nunca foi desenhado para ser decidido militarmente”, mas sim “em termos económicos e sociais”. Caso contrário, diz, “nunca teria havido toda esta contenção de material” por parte dos EUA, como os mísseis Tomahawk, que “os norte-americanos nunca disponibilizaram - nem vão disponibilizar - à Ucrânia”. 

“A questão aqui é: como é que vamos perder esta guerra sem parecer que perdemos esta guerra? Esse é o problema que os norte-americanos têm agora. Eles dizem que vão dar todo o apoio à Ucrânia, mas a guerra não é dos EUA, eles sabem disso. Esta é a guerra dos europeus, portanto, quem vai perder esta guerra somos nós, os europeus.”

Numa perspetiva mais otimista, o embaixador António Martins da Cruz acredita que a Ucrânia e a Rússia estão agora "mais perto da mesa de negociações" do que alguma vez estiveram, sobretudo tendo em conta as eleições presidenciais norte-americanas, cujos resultados podem ditar um volte-face no decurso da guerra, dependendo do vencedor. "Os países da NATO, quer os europeus, quer os EUA, já contribuíram demasiado em material militar e financiamento para a Ucrânia. Chegou a altura de acabar com esta guerra", defende o embaixador.

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