Putin "é o maior vencedor" da guerra no Irão

CNN , Análise de Stephen Collinson
12 mar, 13:23
O presidente dos EUA, Donald Trump, fala com a imprensa após aterrar na base aérea de Joint Base Andrews, em Maryland, a bordo do Air Force One. Andrew Harnik/Getty Images

Como a guerra de Trump com o Irão está a beneficiar o presidente russo

Se os 25 anos de governação expansionista de Vladimir Putin ensinaram alguma coisa ao Ocidente, foi que não se deve acreditar na palavra do presidente russo.

Ainda assim, altos responsáveis norte-americanos continuam frequentemente a acreditar nas declarações do líder russo. O maior equívoco do presidente Donald Trump é pensar que Putin quer a paz na Ucrânia, apesar de provas esmagadoras em sentido contrário.

Agora, a equipa de Trump corre o risco de voltar a cair na própria credulidade.

De acordo com uma reportagem da CNN, enquanto Moscovo ajuda a identificar drones que ameaçam tropas norte-americanas na guerra com o Irão, a administração poderá aliviar ainda mais as sanções destinadas a enfraquecer a máquina de guerra russa na Ucrânia. O objetivo seria aliviar a pressão política que Trump enfrenta devido à subida dos preços do petróleo.

Seria uma reviravolta extraordinária se Putin surgisse como o primeiro grande vencedor da crise crescente no Médio Oriente, depois de Trump ter abalado os mercados energéticos globais ao lançar a sua própria guerra.

Putin vangloriou-se do choque petrolífero numa reunião no Kremlin há dois dias, segundo o especialista em petróleo Daniel Yergin, vencedor do Prémio Pulitzer.

“Vladimir Putin ganhou aqui a lotaria. É o maior vencedor até agora, porque o preço do petróleo disparou e isso financia a sua guerra. E as sanções estão a ser levantadas”, disse Yergin, vice-presidente da S&P Global, à CNN, numa entrevista conduzida por Erin Burnett na quarta-feira.

Responsável russo reúne-se com equipa de Trump na Florida

No mais recente capítulo do drama diplomático entre Estados Unidos e Rússia durante a era Trump, um alto responsável russo reuniu-se com membros da equipa presidencial na Florida na quarta-feira.

O enviado especial Kirill Dmitriev encontrou-se com o também enviado especial Steve Witkoff, com Jared Kushner, genro de Trump, e com Josh Gruenbaum, conselheiro sénior da Casa Branca.

“As equipas discutiram vários temas e concordaram em manter contacto”, afirmou Witkoff num comunicado, que não mencionou diretamente nenhuma das questões urgentes nas relações entre Washington e Moscovo.

Antes do encontro, porém, Witkoff desvalorizou notícias de que a Rússia estaria a fornecer ao Irão informações sobre os movimentos de tropas, navios e aeronaves norte-americanas.

Disse à CNBC, na terça-feira, que Moscovo tinha negado tal comportamento durante uma chamada telefónica entre Trump e Putin no dia anterior.

“Podemos aceitar a palavra deles. Foi o que disseram”, afirmou.

No programa “60 Minutes”, da CBS, no domingo, o secretário da Defesa Pete Hegseth também minimizou os riscos para as tropas norte-americanas decorrentes de atividades russas, insistindo: “Ninguém nos está a colocar em perigo.”

Mas o cenário tornou-se mais complexo na quarta-feira, quando Nick Paton Walsh, da CNN, revelou em exclusivo que a Rússia está a ajudar o Irão com táticas de drones aprendidas na guerra na Ucrânia para atingir alvos norte-americanos e do Golfo.

Um responsável da inteligência ocidental disse tratar-se da cooperação mais direta e preocupante até agora entre aliados do chamado eixo anti-EUA.

Também na quarta-feira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky — que enviou especialistas em drones para ajudar as forças norte-americanas a combater drones iranianos Shahed — afirmou que os russos estão a ajudar a República Islâmica não apenas com veículos aéreos não tripulados, mas também com mísseis e sistemas de defesa aérea.

A oferta de Zelensky é mais um sinal de como os intensos duelos de drones entre Ucrânia e Rússia transformaram a natureza da guerra moderna. Essa dinâmica está agora a surgir num novo teatro de operações, onde armas relativamente baratas ameaçam o exército mais sofisticado do mundo.

Funcionários descarregam combustível de um camião-cisterna num posto de abastecimento em Mathura, na Índia, na terça-feira. (Ritesh Shukla/Getty Images)

O jogo estratégico de Putin

As revelações sobre o papel da Rússia na identificação de alvos para drones também evidenciam o complexo jogo estratégico de Putin para explorar crises globais, ao mesmo tempo que cultiva a relação com Trump para avançar os seus objetivos na Ucrânia.

Trump espera que a guerra com o Irão termine em breve, mas a ofensiva maciça dos Estados Unidos e de Israel contra a República Islâmica está a ser complicada pela crise no Estreito de Ormuz, um corredor vital para o transporte de petróleo.

A subida consequente dos preços do petróleo ameaça a posição política já frágil de Trump e levou a sua administração a procurar formas de responder.

Washington tinha conseguido pressionar a Índia a reduzir a dependência do petróleo russo para forçar Moscovo a terminar a guerra na Ucrânia. No entanto, na semana passada concedeu uma isenção de 30 dias que permite às refinarias indianas comprar petróleo da chamada “frota fantasma” russa.

O secretário do Tesouro Scott Bessent disse na sexta-feira à Fox Business: “Podemos vir a levantar ainda mais sanções sobre o petróleo russo.”

A declaração levou os democratas da Comissão Bancária do Senado a pedir uma investigação e a audição de Bessent, segundo o site Punchbowl News.

Um inesperado boom petrolífero é apenas uma das formas pelas quais Putin pode beneficiar da guerra com o Irão.

Os Estados Unidos e os seus aliados europeus podem desviar recursos e armamento que estavam destinados a apoiar Kiev. Ao mesmo tempo, enquanto a equipa de Trump se reunia com o emissário de Putin, os aliados europeus ainda tentavam lidar com a irritação do presidente norte-americano perante a relutância deles em participar no ataque ao Irão.

Tudo isto alimenta a estratégia de longo prazo de Putin de dividir a coesão entre os países da NATO.

Essas vantagens podem compensar parcialmente eventuais perdas na política externa russa caso o regime iraniano seja enfraquecido ou venha mesmo a cair.

A Rússia perdeu este ano outro aliado quando uma operação de forças especiais dos EUA levou à queda do líder venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro.

Putin tem várias razões para ajudar o Irão:

  • Permite-lhe vingar-se do apoio de inteligência que os EUA deram à Ucrânia na guerra contra a Rússia.

  • Se ajudar o Irão a prolongar o conflito, Washington terá menos margem para pressioná-lo nas negociações de paz sobre a Ucrânia.

  • Uma perturbação prolongada nas rotas petrolíferas do Golfo pode manter os preços do petróleo elevados, financiando o esforço de guerra russo.

  • Se as forças dos EUA e dos aliados ficarem sobrecarregadas no Médio Oriente, poderão surgir novas oportunidades estratégicas para Moscovo noutros pontos do globo.

Para Teerão, a ajuda russa também tem valor muito além do efeito propagandístico de mostrar que não enfrenta sozinho a pressão dos EUA e de Israel.

Os ataques devastadores da Rússia contra Kiev e outras cidades permitiram aos seus especialistas aperfeiçoar formações e táticas, muitas vezes utilizando dezenas de drones em simultâneo. Esse conhecimento pode ajudar o Irão a enfrentar as defesas aéreas dos EUA e dos países do Golfo.

Moscovo também dispõe de satélites capazes de fornecer dados de ataque com grande precisão.

O presidente russo Vladimir Putin felicita militares e veteranos das Forças de Operações Especiais da Rússia numa mensagem em vídeo a partir do Kremlin, em Moscovo, a 27 de fevereiro. (Sputnik/Pool/AP)

O equilíbrio delicado de Putin

Apesar disso, Putin tem de manter um equilíbrio delicado.

O seu objetivo central continua a ser vencer a guerra na Ucrânia, em parte prolongando negociações de paz para permitir que as suas forças terrestres continuem a conquistar território.

Por isso, não pode arriscar um confronto direto com os Estados Unidos por causa do Irão.

O Kremlin não comentou as últimas notícias que indicam que Moscovo estará a ajudar diretamente Teerão no seu programa de drones — revelações que representam mais um embaraço para a administração Trump.

A empatia de Trump com o líder russo tem marcado as duas presidências do republicano.

O presidente chegou a dizer que ele e Putin foram vítimas de uma “caça às bruxas” relacionada com avaliações dos serviços de informação dos EUA que concluíram que Moscovo interferiu nas eleições de 2016.

Witkoff, o rosto das tentativas da administração de negociar a paz na Ucrânia — até agora sem sucesso — seguiu a mesma linha. Muitas vezes sai das reuniões com Putin ecoando os argumentos do líder russo.

“Não considero Putin uma má pessoa”, disse no ano passado sobre o homem que lançou uma invasão que já matou milhares de ucranianos.

Também veio a público uma transcrição de uma chamada telefónica analisada pela Bloomberg no ano passado, na qual Witkoff aconselhava um alto responsável russo sobre a melhor forma de falar com Trump.

Um plano de paz com 28 pontos, elaborado por Witkoff no ano passado, poderia ter sido escrito em Moscovo e levou semanas de ajustes pelo secretário de Estado Marco Rubio antes de servir de base às negociações.

Os republicanos têm frequentemente de equilibrar-se politicamente quando falam da relação de Trump com Putin.

O senador do Kansas Roger Marshall disse à CNN, na quarta-feira, que a situação energética global no contexto da guerra com o Irão é “muito delicada”.

“Penso que levantar as sanções sobre o petróleo russo comprado pela Índia está a fazer algo de positivo para os Estados Unidos neste momento”, afirmou, acrescentando: “Claro que também não tenho qualquer simpatia pela Rússia… Acho que, tão rapidamente como retirámos essas sanções, podemos voltar a aplicá-las.”

Isso pode demorar, sobretudo tendo em conta as expectativas de que a turbulência nos mercados energéticos poderá durar semanas, mesmo que o Estreito de Ormuz reabra em breve.

Imagens impressionantes divulgadas na quarta-feira de dois petroleiros em chamas no Golfo, após suspeitos ataques iranianos, levantam entretanto a possibilidade de uma crise ainda mais profunda.

A menos que Trump consiga retirar rapidamente os Estados Unidos do conflito, poderá acabar por partilhar algo mais com Putin: ter iniciado uma guerra que subestimou a capacidade do adversário de responder e que se prolonga mais do que esperava.

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