Há um velho princípio da política internacional que raramente falha: quando um líder começa a dizer que uma guerra é de todos, é porque deixou de conseguir provar que ela é necessária. O argumento universalista surge quase sempre como último recurso quando a legitimidade estratégica começa a falhar. Foi assim na Guerra do Vietname, quando Washington tentou apresentar o conflito como parte de uma cruzada global contra o comunismo. Foi assim no Iraque, quando a invasão de 2003 foi enquadrada como uma batalha civilizacional contra um suposto eixo do mal. E é assim hoje com Donald Trump e Israel e a sua tentativa de transformar a guerra contra o Irão numa responsabilidade coletiva da NATO.
O problema é que esta guerra não começou como uma guerra da Aliança Atlântica. Não nasceu de uma decisão estratégica coletiva nem de um processo diplomático partilhado entre aliados. Nasceu de um conflito histórico entre Israel e o Irão, na qual os Estados Unidos decidiram entrar diretamente. Não podemos nunca esquecer a natureza do regime nem a sua ligação e financiamento a grupos terroristas nem o facto de terem um regime interno contra as mulheres, os diretos liberdades e garantias. Mas a sociedade iraniana é uma antítese do mundo acidental.
O conflito tem, portanto, uma origem clara, uma lógica regional e uma autoria política identificável. A tentativa de a transformar, a meio do caminho, numa guerra do Ocidente é menos uma leitura estratégica do que um movimento político defensivo.
Trump percebeu rapidamente que o conflito entrou numa zona cinzenta. Os objetivos militares continuam por cumprir, os riscos económicos aumentam e a opinião pública americana começa a mostrar sinais de fadiga. Nessas circunstâncias, a melhor forma de reduzir o custo político de uma guerra é simples: partilhá-lo. Ou, mais precisamente, diluí-lo.
É aqui que surge a pressão sobre a NATO. O presidente americano tem insistido, com uma linguagem cada vez mais agressiva, que os aliados europeus, o Canadá e a Turquia devem participar mais diretamente no conflito. O argumento formal é conhecido. O Irão representa uma ameaça à estabilidade internacional, ao comércio global e à segurança energética. Logo, a resposta deve ser coletiva. O que este argumento omite é um detalhe essencial: a NATO nunca decidiu entrar numa guerra contra o Irão.
Essa diferença é mais importante do que parece. A Aliança Atlântica foi concebida como um pacto de defesa coletiva contra agressões diretas a um dos seus membros. O artigo quinto não é um cheque em branco para operações militares globais definidas unilateralmente por Washington. Transformar a NATO numa força expedicionária para resolver crises criadas por decisões americanas seria alterar profundamente a natureza política da organização.
Trump, contudo, parece disposto a testar esse limite. Nos últimos dias, multiplicaram-se as mensagens públicas e privadas dirigidas aos aliados. Algumas assumem a forma de pressão diplomática clássica. Outras aproximam-se mais de um estilo que o próprio presidente domina bem: o da intimidação política. A mensagem implícita é simples. Se os parceiros europeus querem continuar a beneficiar da proteção estratégica americana, então devem mostrar solidariedade quando Washington entra em guerra.
Esta lógica tem um nome pouco elegante, mas bastante preciso: bullying estratégico.
Não é a primeira vez que uma administração americana tenta pressionar aliados europeus. O que distingue o momento atual é a forma como essa pressão se liga diretamente a um conflito em curso. Trump não está apenas a pedir mais investimento em defesa ou maior partilha de encargos. Está a pedir envolvimento militar numa guerra cuja decisão não foi coletiva.
Para os governos europeus, esta situação coloca um dilema delicado. Por um lado, ninguém em Bruxelas, Berlim ou Paris deseja um confronto aberto com Washington. A segurança europeia continua profundamente dependente da arquitetura estratégica americana. Por outro lado, entrar numa guerra contra o Irão significaria assumir riscos políticos, militares e económicos que os próprios Estados Unidos ainda não conseguem medir com clareza.
Sendo que a prioridade europeia em matéria de defesa é a Ucrânia e o seu inimigo mais premente é a Rússia.
Existe ainda uma dimensão económica que torna esta pressão particularmente sensível. O conflito no Golfo já começou a provocar instabilidade nos mercados energéticos e nas rotas comerciais. O Estreito de Ormuz continua a ser uma das artérias vitais da economia global. Uma escalada militar mais ampla poderia provocar um choque petrolífero com consequências profundas para economias europeias já fragilizadas por anos de inflação e crescimento lento.
Neste contexto, a prudência europeia não é sinal de fraqueza. É sinal de memória histórica. O continente aprendeu, ao longo de décadas, que as guerras no Médio Oriente raramente permanecem limitadas. Começam como operações cirúrgicas e acabam por transformar-se em conflitos prolongados, imprevisíveis e politicamente corrosivos. Quem já esqueceu a Síria?
Trump parece ignorar essa lição. O presidente acredita profundamente na lógica da demonstração de força. Na sua visão do mundo, a credibilidade internacional constrói-se através da pressão constante sobre adversários e aliados. É uma visão da política externa próxima da negociação imobiliária: quem hesita perde terreno.
Mas a política internacional não funciona como um contrato comercial. Estados soberanos não respondem sempre bem a ultimatos públicos, sobretudo quando esses ultimatos implicam entrar numa guerra. A pressão excessiva pode produzir precisamente o efeito contrário ao desejado: resistência silenciosa, atraso diplomático e distanciamento político.
É exatamente isso que parece estar a acontecer na NATO. Vários governos europeus têm evitado confrontar Trump diretamente, mas também têm evitado compromissos militares claros. A estratégia dominante é ganhar tempo, limitar o envolvimento a missões de vigilância marítima e insistir que qualquer decisão operacional deve passar por consenso dentro da Aliança.
Por trás desta prudência existe também uma leitura política mais profunda. Muitos líderes europeus suspeitam que Trump procura, acima de tudo, reescrever a narrativa do conflito. Se os aliados entrarem na guerra, ela deixará de ser uma decisão americana ou israelita. Passará a ser uma guerra do Ocidente. E, nesse momento, a responsabilidade histórica diluir-se-á inevitavelmente.
Essa transformação narrativa é central para a estratégia política de Trump. Ao apresentar o conflito como um confronto entre o bem e o mal, o presidente procura enquadrar a guerra numa lógica quase moral. O Irão torna-se o símbolo de uma ameaça global, e qualquer hesitação dos aliados pode ser interpretada como fraqueza ou falta de solidariedade.
O problema é que este tipo de retórica tende a simplificar realidades estratégicas complexas. O Médio Oriente não é um tabuleiro de xadrez moral onde basta escolher entre dois campos absolutos. É uma região de equilíbrios delicados, rivalidades históricas, religiosas e conflitos que se alimentam mutuamente há décadas.
Transformar essa complexidade numa narrativa binária pode ser politicamente eficaz a curto prazo, mas raramente produz soluções duradouras. Pelo contrário, tende a prolongar guerras que já são difíceis de controlar.
Talvez o sinal mais preocupante desta fase seja a sensação crescente de improvisação estratégica em Washington. A administração americana parece oscilar entre demonstrações de força, tentativas de negociação e pedidos de apoio internacional. Cada nova declaração presidencial parece ajustar-se ao problema do dia, sem que exista uma visão clara sobre o fim do conflito.
Quando isso acontece, a pressão sobre os aliados torna-se inevitável. Se a estratégia não está definida, então a responsabilidade deve ser partilhada. E se a responsabilidade for partilhada, os custos políticos tornam-se mais suportáveis.
Mas a história das alianças mostra que esse tipo de lógica tem limites. Parceiros estratégicos podem aceitar riscos comuns quando participam na decisão inicial. Aceitam muito menos quando são convidados a entrar numa guerra já em andamento.
É por isso que a tentativa de Trump de transformar esta guerra numa cruzada da NATO enfrenta resistência crescente. Não porque os aliados ignorem os riscos representados pelo Irão, mas porque compreendem algo que Washington parece ter esquecido: uma guerra pode começar por decisão de um líder, mas só termina quando todos os envolvidos encontram uma saída.
E, neste momento, ninguém parece saber onde está a saída deste conflito. Talvez nem o próprio Donald Trump.