Há uma matéria-prima ainda mais vital do que o petróleo e o gás no Médio Oriente - e está em risco à medida que a guerra se intensifica

CNN , Laura Paddison
11 mar, 11:46
arabia

(IMAGEM DE CAPA: Mohamed Ali al-Qahtani (à esquerda), diretor-geral da central de dessalinização de Ras al-Khair, propriedade da Saline Water Conversion Corporation, empresa do governo saudita, a falar com um trabalhador nas instalações em Ras al-Khair, na costa do Golfo, no leste da Arábia Saudita, em 30 de março de 2023. Foto FAYEZ NURELDINE/AFP via Getty Images)

Nalgumas noites particularmente difíceis, sem conseguir dormir, Sofia dá por si a preocupar-se com a possibilidade de a água deixar de correr das torneiras. “Estamos, no fim de contas, no meio de um deserto”, diz a residente dos Emirados Árabes Unidos. O petróleo e o gás podem estar no centro da economia, mas a água é “a base da nossa sobrevivência”.

À medida que a guerra com o Irão se intensifica, também aumentam os seus receios. “Se me pusesse no lugar do inimigo, por falta de melhor termo… seria isto que atacaria, os nossos recursos mais valiosos. Nunca pensei que pudesse estar em risco de ficar sem água potável”, afirma Sofia, que pediu para não ser identificada pelo seu verdadeiro nome.

Não é a única. Em toda a região cresce a preocupação de que um dos seus maiores trunfos possa tornar-se um alvo de guerra.

Os países áridos do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos, dependem de forma excecional da dessalinização, o processo que transforma água do mar em água potável. É por isso que esta região, marcada por uma escassez extrema de água, tem campos de golfe verdejantes, enormes parques aquáticos e até pistas de esqui — mas também é por isso que enfrenta uma vulnerabilidade cada vez mais alarmante.

Autoridades do Bahrein disseram no domingo que um drone iraniano tinha danificado uma central de dessalinização, embora o abastecimento de água não tenha sido afetado. O ataque ocorreu depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Aragchi, acusar os Estados Unidos de terem atingido uma instalação de dessalinização na ilha iraniana de Qeshm, afetando 30 aldeias — algo que classificou como um “ato perigoso”. Os EUA negaram envolvimento.

Esta aparente troca de acusações evidencia o perigo potencial para as centenas de centrais de dessalinização no Golfo que fornecem água potável a cerca de 100 milhões de pessoas. Enquanto o Irão ainda obtém grande parte da sua água de rios e aquíferos subterrâneos, os países do Golfo têm poucos recursos naturais de água doce. Alguns — como Kuwait, Omã e Bahrein — dependem da dessalinização para quase toda a água que bebem.

Um ataque coordenado a esta infraestrutura seria uma escalada quase “impensável”, garante Michael Christopher Low, diretor do Middle East Center da Universidade de Utah, à CNN.

Mas especialistas dizem que as normas da guerra estão a mudar.

Se ataques a centrais de dessalinização forem “o início de uma política militar e não apenas erros ou danos colaterais, isso é simultaneamente ilegal — um crime de guerra — e um desenvolvimento muito preocupante, porque os países do Golfo têm apenas algumas semanas de reservas de água”, indica Laurent Lambert, professor associado de políticas públicas no Doha Institute for Graduate Studies, no Catar.

"Reinos de água salgada"

O petróleo e o gás transformaram o Golfo, em poucas décadas, de uma região com estados pouco povoados em países ricos, com cidades modernas e movimentadas.

Mohamed Ali al-Qahtani, diretor-geral da central de dessalinização de Ras al-Khair, propriedade da Saline Water Conversion Corporation, empresa do governo saudita, a inspecionar água potável dessalinizada a sair de uma torneira nas instalações, no leste da Arábia Saudita, em 30 de março de 2023. (FAYEZ NURELDINE/AFP via Getty Images)

Mas o que muitas vezes passa despercebido nessa história é o impacto da dessalinização — alimentada pela mesma energia proveniente do petróleo e do gás — que permitiu que a população crescesse rapidamente em países desérticos com praticamente nenhuns rios.

A dessalinização transforma água do mar em água potável removendo sal, minerais e impurezas, seja através do aquecimento da água ou forçando-a a passar por membranas sob elevada pressão. Trata-se de um processo caro e que consome muita energia.

Os países do Golfo tornaram-se verdadeiros “reinos de água salgada”, observa Low, que está a escrever um livro com esse mesmo título. “São superpotências globais na produção de água artificial a partir do mar, alimentada por combustíveis fósseis.”

A dependência aumentou drasticamente. No Kuwait e em Omã ronda os 90%, no Bahrein cerca de 85% e na Arábia Saudita aproximadamente 70%. Grandes cidades do Golfo, como Abu Dhabi, Dubai, Doha, Kuwait City e Jeddah, dependem hoje quase totalmente de água dessalinizada.

A dessalinização é simultaneamente um milagre e uma vulnerabilidade para a região. “As suas economias — e até a sobrevivência a curto prazo das populações — dependem fortemente da segurança destas centrais de dessalinização”, aponta Nader Habibi, professor de economia do Médio Oriente na Universidade de Brandeis.

Água como alvo e arma de guerra

Atacar infraestruturas civis essenciais viola o direito internacional. Um ataque coordenado contra centrais de dessalinização seria “uma escalada provocadora”, explica David Michel, investigador sénior especializado em segurança hídrica no Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Mas há precedentes. Em 1991, durante a Guerra do Golfo, o Iraque libertou deliberadamente centenas de milhões de barris de petróleo no Golfo Pérsico, poluindo a água utilizada pelas centrais de dessalinização da região. O Kuwait teve então de pedir ajuda à Turquia, à Arábia Saudita e a outros países para fornecer centenas de camiões-cisterna e água engarrafada.

Petróleo na costa perto da fronteira entre o Kuwait e a Arábia Saudita, com uma central de dessalinização saudita encerrada ao fundo, a 29 de janeiro de 1991. (Chris Lefkow/AFP/Getty Images)

Na última década, em particular, tem-se registado “uma erosão significativa das normas” relativamente a ataques a infraestruturas de água, afirma Michel. A Rússia lançou mais de 100 ataques contra infraestruturas hídricas na Ucrânia durante a invasão do país e Israel destruiu instalações de água e saneamento em Gaza.

“Isto tornou-se infelizmente uma tendência”, diz Marwa Daoudy, professora associada de Relações Internacionais na Universidade de Georgetown. “A água passou a integrar a longa lista de alvos e armas de guerra.”

O Irão ainda não lançou um ataque coordenado contra instalações de dessalinização no Golfo, mas especialistas receiam que uma escalada de ataques recíprocos a infraestruturas possa empurrar Teerão nessa direção. Como não tem o mesmo poder militar que os Estados Unidos ou Israel, o país pode ver ataques a infraestruturas como uma forma de provocar pressão no Golfo e levar os governos da região a pressionar pelo fim da guerra.

“Este regime iraniano já demonstrou que, se a sua sobrevivência estiver em risco, não hesitará em escalar para ataques a infraestruturas — sobretudo se Israel e os Estados Unidos decidirem atingir infraestruturas muito críticas do Irão”, analisa Habibi.

As vulnerabilidades

Os ataques diretos são uma grande preocupação, mas há também o risco de danos indiretos. As centrais de dessalinização estão muitas vezes agrupadas com outras infraestruturas — como centrais elétricas ou portos — por razões de eficiência.

No início deste mês surgiram relatos de danos na central de dessalinização Fujairah F1, nos Emirados Árabes Unidos, e na instalação Doha West, no Kuwait, aparentemente como resultado indireto de ataques contra infraestruturas próximas.

Outro receio são os ciberataques. Em 2023, o governo dos Estados Unidos afirmou que o Irão lançou ataques informáticos contra infraestruturas de água em vários estados norte-americanos, deixando uma imagem com a mensagem: “Foste hackeado. Morte a Israel”.

Desligar as centrais de dessalinização não significaria necessariamente um desastre imediato. Os países do Golfo têm reservas estratégicas e recursos financeiros consideráveis para lidar com uma emergência.

Fogo e fumo elevam-se de um drone iraniano abatido, cujos destroços atingiram uma instalação petrolífera em Fujairah, Emirados Árabes Unidos, a 3 de março. (Altaf Qadri/AP)

Mas ataques às enormes centrais que abastecem grandes cidades como Riade, Abu Dhabi ou Dubai poderiam ter impactos significativos. “A sua perda pode tornar-se muito rapidamente uma ameaça existencial”, defende Zane Swanson, diretor-adjunto do programa Global Food and Water Security do CSIS. As centrais de dessalinização são instalações altamente tecnológicas e complexas e poderiam demorar várias semanas a voltar a funcionar se fossem danificadas.

Alguns países têm relativamente pouca capacidade de reserva para interrupções prolongadas, acrescenta Habibi. O Bahrein e o Kuwait são particularmente vulneráveis, por serem Estados mais pequenos, com menos recursos para lidar com a situação e dependentes quase a 100% da dessalinização.

As consequências poderiam ir desde restrições ao uso de piscinas e parques aquáticos até ao encerramento temporário de atividades económicas que consomem muita água — incluindo, potencialmente, parte da agricultura — além de pedidos à população para reduzir o consumo, explica Lambert.

Como recorrer a uma arma nuclear

Não é a primeira vez que a vulnerabilidade da água preocupa os países do Golfo. Num relatório de 2010, a CIA concluiu que uma interrupção da dessalinização na região “poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou recurso”.

E, embora a guerra seja a preocupação atual, Low acredita que a maior ameaça futura são as alterações climáticas. Além de estarem a provocar tempestades mais frequentes e severas e outros fenómenos extremos que podem danificar estas centrais, o uso de combustíveis fósseis para produzir água contribui para o aquecimento global e agrava a escassez de água. A dessalinização é “uma vitória do século XX que levanta grandes questões climáticas no século XXI”, observa.

O Golfo aproxima-se agora da altura mais quente do ano. A primavera já chegou e o verão está a caminho. “Os recursos hídricos só ficarão mais pressionados quanto mais tempo durar o conflito e quanto maior for a exposição desta infraestrutura”, antecipa Swanson.

Sofia chegou a ponderar fazer reservas de água em casa, mas o marido convenceu-a a não o fazer. Como muitos residentes do Golfo, preferem confiar que os governos garantirão que as necessidades básicas da população serão satisfeitas.

O que o Irão decidir fazer permanece incerto. Mas os especialistas dizem que um ataque coordenado a centrais de dessalinização ultrapassaria claramente uma linha vermelha. Seria como recorrer a uma arma nuclear, considera Low. “Seria uma estratégia verdadeiramente extrema. As cicatrizes políticas e psicológicas teriam uma dimensão que é difícil sequer imaginar.”

*Tala Alrajjal e Tim Lister contribuíram para este artigo

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