Trump ameaçou os aliados: ou NATO, Japão e Coreia do Sul ajudam no Irão como ele quer ou então "será muito mau" o futuro destas alianças. O major-general Agostinho Costa compara a estratégia política do presidente dos EUA a um zugzwang no xadrez
Quando Donald Trump deixa no ar que uma resposta negativa dos aliados aos seus apelos para que reforcem a operação no Estreito de Ormuz poderá ser "muito má para o futuro da NATO", a frase levanta imediatamente uma questão central para a segurança europeia: que instrumentos reais tem um presidente norte-americano para pressionar ou retaliar contra os parceiros da aliança?
Para Miguel Baumgartner, a resposta mais concreta pode estar longe das declarações públicas e muito mais próxima do conflito que hoje define grande parte do equilíbrio estratégico europeu: a guerra na Ucrânia. "Ele vai vingar-se na guerra da Ucrânia. Vai, de alguma forma, pressionar mais o país."
Na prática, essa pressão poderia assumir várias formas. Uma delas, diz, passa pelo papel crucial que os Estados Unidos desempenham no apoio militar e estratégico a Kiev. Washington não fornece apenas equipamento ou financiamento, controla também recursos essenciais para a condução da guerra. E entre esses recursos está a partilha de informação, sendo que os dados recolhidos por satélites, sistemas de vigilância e serviços de informação norte-americanos têm sido determinantes para a capacidade ucraniana de antecipar movimentos russos e planear operações militares.
O especialista em Relações Internacionais lembra que essa ferramenta já foi usada como instrumento de pressão política no passado. "Pode desligar a chamada 'intelligence' à Ucrânia. E, dessa forma, deixar também a Europa desprotegida daquela que é a sua ameaça mais real, que é a Rússia", explica.
A terceira opção, segundo Miguel Baumgartner, é Trump distanciar os Estados Unidos do papel tradicional de garante da segurança europeia. "Até o podemos ter a dizer que não se responsabiliza mais pela proteção da Europa".
Já para o major-general Agostinho Costa, as declarações de Trump devem ser interpretadas sobretudo como expressão da sua visão política e do seu estilo de liderança. "É um estado de espírito", afirma. Na sua leitura, as ameaças públicas dirigidas à NATO fazem parte de uma postura que Trump já demonstrava no primeiro mandato e que reflete uma desconfiança profunda em relação às instituições multilaterais.
Segundo o especialista militar, o presidente norte-americano tem mostrado repetidamente que desvaloriza estruturas internacionais que foram centrais para o sistema político global nas últimas décadas. "Isto acima de tudo denota o estado psicológico ou a visão com que Trump vê a NATO, que já no primeiro mandato a desvalorizou e a desconsiderou", afirma.
Atitude que, diz, não se limita à aliança militar. Na perspetiva do major-general, o mesmo padrão pode ser observado em relação a outras organizações internacionais. "Ele desconsidera e desvaloriza tudo o que são instituições multilaterais. Vemos o mesmo em relação às Nações Unidas."
Na prática, isso significa que o problema pode ser mais profundo do que uma ameaça isolada. O que está em causa é a própria visão de Trump sobre o sistema internacional e sobre o papel das regras e instituições que regulam as relações entre Estados. "Tudo aquilo que é o ordenamento jurídico internacional, do direito internacional, da ordem internacional, tudo isto cai. Para Trump, o direito internacional é só o moral", afirma.
Ainda assim, o major-general não acredita que estas declarações representem necessariamente uma rutura imediata com a NATO: o efeito principal é sobretudo simbólico, mas nem por isso irrelevante. "Isso é mais um prego no caixão da NATO. É mais uma desvalorização de uma aliança na qual os norte-americanos são o principal pilar", explica.
Ao mesmo tempo, considera que a estratégia de Trump pode acabar por ter consequências negativas para os próprios Estados Unidos. Na análise do especialista militar, o presidente norte-americano encontra-se numa posição estratégica complicada. "Trump sabe que está como aquilo a que se chama um zugzwang no xadrez: qualquer que seja o movimento que ele fizer agora, fica pior. Está num beco sem saída."
E por isso, diz, se Washington recuar demasiado nos seus compromissos internacionais, sofrerá perdas reputacionais significativas. Mas se insistir numa postura de confronto com os aliados, também poderá agravar o desgaste da liderança norte-americana. "Aliás, a principal baixa aqui é a reputação dos Estados Unidos", afirma.
Para além da dimensão estratégica e militar, o major-general chama ainda a atenção para outro fator que considera cada vez mais decisivo nas crises internacionais: a dimensão mediática. Na sua leitura, a gestão da atenção pública tornou-se uma ferramenta política relevante. Quando surge uma nova crise internacional, a anterior tende a desaparecer rapidamente do debate.
"Cada vez que há uma crise e surge outra, a anterior nós esquecemos". Neste caso, "retira os holofotes do estreito de Ormuz e empurra essa questão para o desinteresse. É substituir um problema por outro".