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Pausa de cinco dias anunciada por Trump no Irão "não foi porque o seu coração tivesse aquecido". "É um pequeno intervalo para comprarem pipocas"

24 mar, 08:00
Donald Trump
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Os Estados Unidos dizem que há negociações para pôr fim à guerra. O Irão garante que não existem. Pelo meio, há mensagens transmitidas por países terceiros, aliados informados e um prazo de cinco dias que pode decidir entre a diplomacia e uma nova escalada militar

O anúncio partiu de Donald Trump, que falou em "conversações muito boas e produtivas" com Teerão e revelou ter ordenado o adiamento de ataques a infraestruturas energéticas iranianas por cinco dias. A decisão, escreveu na Truth Social, fica dependente "do sucesso das reuniões e discussões". A mensagem sugere uma abertura diplomática num momento de elevada tensão - mas rapidamente colide com a versão iraniana. 

Teerão nega qualquer contacto direto com Washington e acusa a Casa Branca de manipulação. Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, as alegações norte-americanas fazem parte de uma estratégia para influenciar mercados energéticos e ganhar margem operacional no terreno. A mesma linha foi reforçada pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, que classificou as notícias sobre negociações como "falsas" e ao serviço de interesses políticos e militares.

Ainda assim, há indícios de que algum tipo de comunicação poderá estar a acontecer, mesmo que de forma indireta. Fontes diplomáticas de países como Turquia, Egito e Paquistão admitem estar a passar mensagens entre as duas partes, enquanto o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, confirmou no parlamento que Londres estava a par dessas movimentações.

O cenário não é inédito. Em tempo de guerra, negociações discretas e mediadas são regra. O problema, na opinião dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, é outro. Mais do que a existência ou não de contactos, o que está em causa, para José Tomaz Castello Branco, é a credibilidade das versões. Para o especialista em Relações Internacionais, o atual momento expõe a dificuldade em confiar na palavra de uma potência como os Estados Unidos.

"Estando em guerra é normal que não haja conversações diretas. Por isso terá sempre que ser por interposta pessoa. Em tempo de guerra, seria estranho ter duas delegações oficialmente reunidas. É uma questão muito delicada e por isso é normal que seja tratada com muito cuidado. Mas a forma como isto está a ser feito é que também é muito estranha", sublinha.

José Tomaz Castello Branco considera "preocupante" e "perigoso" o facto de o presidente norte-americano ser desmentido de forma tão direta e alerta que se a palavra de Washington deixar de ser vista como fiável, o impacto ultrapassa este conflito e atinge o próprio funcionamento das relações internacionais.

"Um dos pontos que me parece cada vez mais preocupante é a questão da credibilidade dos Estados Unidos. Não é normal estarmos a ver o presidente dos Estados Unidos a ser desmentido desta forma. Não estamos habituados a este tipo de realidade", afirma.

Num cenário desses, diz, o risco é que a credibilidade deixe de assentar em compromissos políticos e passe a depender exclusivamente da força militar: "Podemos chegar a um ponto em que só acreditamos na palavra do presidente dos Estados Unidos quando ouvirmos bombas."

Do lado iraniano, a recusa em admitir negociações pode ser mais do que uma questão de narrativa: pode refletir uma desconfiança estrutural. Segundo José Azeredo Lopes, Teerão tem razões para acreditar que qualquer processo negocial pode servir apenas para ganhar tempo antes de novas ações militares. 

"O regime iraniano percebeu que, qualquer coisa que aceitasse, ia sempre ser atacado. Acho que tinha toda a razão em sentir-se traído num processo negocial que, na prática, nunca existiu", considera. "Depois de verem a forma como foram executados todos os seus principais líderes, depois de verem a forma nunca antes vista de bombardeamento sobre o seu território, percebem que ou vão até ao fim ou não têm qualquer hipótese nas formas tradicionais de resolução dos diferendos."

Portugal juntou-se esta segunda-feira ao grupo de 30 países dispostos a ajudar na reabertura do Estreito de Ormuz. (Getty Images)

Nesse contexto, reconhecer negociações pode ser visto internamente como sinal de fraqueza e externamente como uma concessão sem garantias. A alternativa, para o regime iraniano, passa por manter uma postura de firmeza pública, mesmo que existam canais discretos de comunicação. "O Irão neste momento já não acredita em nada. Está convencido de que qualquer coisa que faça, será apenas para dar tempo e oportunidade aos Estados Unidos para os atacar ainda com mais força", argumenta.

Já a insistência de Donald Trump na possibilidade de um acordo revela a pressão do momento. O impacto económico do conflito já se faz sentir, com o aumento dos preços da energia e riscos de inflação global, num contexto de instabilidade no Golfo.

"De cada vez que o próprio Donald Trump lançou pistas sobre uma hipotética vontade para pôr termo ao conflito, não foi porque o seu coração tivesse aquecido, mas porque lhe parecia que, cada vez mais, a continuação deste conflito ia funcionar em sentido contrário ao dos seus interesses", argumenta. 

Mas, mais do que isso, há aqui uma dimensão política interna, na opinião de José Azeredo Lopes. Donald Trump tem um histórico de "evitar conflitos prolongados", preferindo demonstrações rápidas de força que produzam resultados imediatos, ou seka, "Trump gosta de exercícios brutais de poder que imediatamente subjugam o adversário". Um impasse prolongado - ou pior, uma perceção de derrota - pode tornar-se difícil de gerir no plano interno, o que ajuda a explicar a alternância entre retórica agressiva e sinais de abertura negocial.

O problema é que essa oscilação fragiliza qualquer processo diplomático. Quando declarações contraditórias se sucedem em curtos espaços de tempo, a confiança entre as partes deteriora-se rapidamente. E sem confiança, mesmo negociações indiretas tornam-se frágeis, instáveis e potencialmente irrelevantes.

“Aquilo que era mentira ontem, passou a ser verdade hoje, e vice-versa. Desde o início desta guerra que o conjunto das declarações de Donald Trump podem ser uma coisa, e é uma coisa totalmente oposta um dia depois, ou horas depois. Se me perguntasse se acredito mais no que diz Trump ou no que diz o Irão? Eu teria de dizer: não sei."

A questão, por isso, já não é apenas saber se há negociações. É perceber se há condições para que resultem. 

"Não sei se isto não é mais um pequeno intervalo como nos cinemas antigos para se comprarem pipocas ou se se trata realmente de uma oportunidade para, de uma vez por todas, pôr fim a isto que é, claramente, uma guerra de agressão, iniciada pelos Estados Unidos e por Israel", conclui o especialista.

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