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Trump diz que ganhou a guerra com o Irão — mas pede ajuda internacional para reabrir o Estreito de Ormuz

CNN , Análise de Stephen Collinson
16 mar, 10:32
Uma vista de satélite do Estreito de Ormuz, uma via marítima estratégica entre o Irão e Omã que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2025/Getty Images

O presidente dos Estados Unidos quase não preparou o país para esta guerra e continua a aumentar a confusão com declarações contraditórias. Insiste de forma veemente que a guerra já está ganha. Mas diz também que só terminará quando ele "sentir" que é o momento

Há uma semana, Donald Trump disse ao Reino Unido para não se preocupar em enviar navios para o Médio Oriente porque já tinha vencido a guerra contra o Irão.

Agora, o presidente norte-americano pede ao aliado da “relação especial”, aos restantes países da NATO e até à China que enviem embarcações para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz. Trump sugeriu que, se a ajuda não chegar, o guarda-chuva de defesa norte-americano sobre a Europa e até a cimeira que planeia realizar este mês com o líder chinês Xi Jinping poderão ficar em risco.

O aviso de Trump, numa entrevista ao Financial Times, é mais um sinal de que, apesar das várias declarações de vitória sobre o Irão, a guerra está longe de terminar.

Não seria a primeira operação militar dos Estados Unidos neste século a prolongar-se mais do que Washington esperava. Isso pode explicar as novas tentativas de responsáveis da administração para convencer a opinião pública e os mercados globais de que o conflito poderá terminar em breve.

O embaixador norte-americano nas Nações Unidas, Mike Waltz, recusou dizer no domingo, no programa “State of the Union” da CNN, quando as forças dos EUA vão regressar a casa — embora tenha elogiado o que descreveu como uma “vitória dominante”, como não se via na história militar americana moderna.

O secretário da Energia, Chris Wright, mostrou-se mais otimista. “Acredito que este conflito irá certamente terminar nas próximas semanas, talvez até antes”, afirmou no programa “This Week”, da ABC News.

Entretanto, Israel disse à CNN que os intensos bombardeamentos contra alvos militares e de inteligência iranianos poderão durar pelo menos mais três semanas. O Estado judaico está mais habituado a operações militares prolongadas do que eleitores e líderes norte-americanos.

As guerras não se definem nas primeiras semanas

Ainda é demasiado cedo para avaliar o impacto global da guerra. É possível — até provável — que os ataques combinados dos Estados Unidos e de Israel tenham causado danos significativos à máquina militar iraniana e à sua capacidade de ameaçar o exterior. Se tal se confirmar, Trump poderá argumentar com alguma credibilidade que contribuiu para tornar o mundo mais seguro.

Além disso, a guerra tem apenas duas semanas. Em qualquer padrão histórico, não é muito tempo. Qualquer frustração dos chefes militares com a curta atenção mediática e analítica dedicada ao conflito pode ser compreensível.

Mas a história moderna mostra que uma guerra raramente é definida nas primeiras semanas, quando a superioridade militar dos Estados Unidos é mais evidente.

Por isso, a Casa Branca enfrenta várias razões para o ceticismo sobre a possibilidade de retirar rapidamente os EUA do conflito.

O presidente Donald Trump fala com jornalistas antes de embarcar no Air Force One ao deixar a base de Andrews, no sábado. (Saul Loeb/AFP/Getty Images)

Trump quase não preparou o país para esta guerra e continua a aumentar a confusão com declarações contraditórias. Insiste de forma veemente que a guerra já está ganha. Mas diz também que só terminará quando ele “sentir” que é o momento.

Se a vitória já foi alcançada, é legítimo perguntar porque continuam soldados norte-americanos em risco depois de já terem morrido 13 militares em serviço.

A administração também opera sob uma sombra histórica pesada. Esta guerra ainda não é diretamente comparável às chamadas “guerras eternas” no Iraque e no Afeganistão. Mas, em ambos os casos, os triunfos iniciais dos EUA foram minados pelo impacto político da ofensiva inicial e por uma compreensão insuficiente dos países envolvidos. Existem sinais suficientes no Irão para justificar preocupações públicas sobre um possível atoleiro militar.

Ao mesmo tempo, Trump enfrenta vários dilemas que enfraquecem qualquer declaração prematura de vitória — problemas que podem demorar mais do que “semanas” a resolver.

► O Irão fechou, na prática, o Estreito de Ormuz — provocando uma crise energética global e uma forte subida dos preços do petróleo que ameaça fragilizar Trump no plano interno. Neutralizar baterias de mísseis iranianas, drones marítimos e operações de minagem poderá ser um processo prolongado. Poderá até exigir o envio de tropas terrestres, num alargamento arriscado das operações militares norte-americanas.

Trump exige agora que as forças armadas estrangeiras ajudem a reabrir esta passagem estratégica estreita. Até agora, a resposta ao seu pedido tem sido pouco comprometida.

O presidente disse ao Financial Times que Europa e China dependem mais do petróleo do Golfo do que os Estados Unidos — embora os consumidores norte-americanos também tenham sido afetados pela subida global dos preços.

No estrangeiro, as suas palavras poderão ser vistas como uma exigência de ajuda para resolver um problema que ele próprio criou ao iniciar a guerra contra o Irão.

Trump apontou ainda para um ponto sensível dos aliados europeus que dependem da defesa dos Estados Unidos.

“Se não houver resposta ou se for negativa, acho que será muito mau para o futuro da NATO”, afirmou.

► A República Islâmica continua a possuir reservas de urânio altamente enriquecido que poderão permitir desafiar a promessa de Trump de que o Irão nunca terá uma arma nuclear — apesar de o presidente afirmar que “destruiu” o programa nuclear iraniano no ano passado.

Os Estados Unidos têm unidades de forças especiais treinadas para recuperar material radioativo. No entanto, uma missão deste tipo nas instalações nucleares iranianas poderia exigir centenas de soldados e desencadear combates perigosos em território hostil.

► Uma forma de quebrar a capacidade de pressão do governo iraniano seria a tomada da ilha de Kharg pelas forças norte-americanas. Este território é o principal centro das exportações de petróleo iranianas que financiam o regime. A ilha foi alvo de ataques aéreos norte-americanos durante o fim de semana.

A destruição do principal motor económico do país poderia alterar os cálculos dentro do regime. Waltz disse à CNN que “é natural pensar que Trump manterá essa opção em aberto se quiser atingir a infraestrutura energética do Irão”.

Mas um ataque anfíbio à ilha de Kharg também implicaria risco significativo de baixas norte-americanas. Poderia ainda provocar danos ambientais e um colapso nos mercados caso o Irão decidisse sabotar as próprias instalações petrolíferas para evitar que caíssem nas mãos dos EUA.

Donald Trump fala com jornalistas a bordo do Air Force One enquanto o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o enviado especial Steve Witkoff observam. (Saul Loeb/AFP/Getty Images)

Muitos americanos podem não confiar no calendário da administração

Os fatores políticos dentro do Irão também dificultam prever quando a guerra poderá terminar.

O ritmo dos ataques de drones iranianos contra países do Golfo aliados dos EUA diminuiu — possivelmente sinal de que os bombardeamentos norte-americanos e israelitas estão a degradar a capacidade ofensiva de Teerão. Ainda assim, projéteis atingiram no domingo o aeroporto de Bagdade e também Israel.

Também não há sinais de uma saída diplomática. Não existe qualquer “acordo” à vista, e as exigências de rendição incondicional feitas por Trump foram ignoradas. A nomeação de um novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, indica que o regime pretende continuar a resistência de décadas contra Washington.

Não há igualmente sinais públicos de que o controlo do regime esteja a enfraquecer. Trump iniciou a guerra dizendo aos iranianos que tinham uma oportunidade única para derrubar a repressão. No entanto, não ocorreu qualquer revolta num país onde milhares de manifestantes foram recentemente mortos pelas autoridades.

A queda do governo representaria uma enorme vitória para o povo iraniano e daria a Trump um legado político significativo. No entanto, muitos analistas receiam que o colapso da autoridade central desencadeie conflitos sectários ou uma guerra civil, levando ao colapso do Estado iraniano.

Nesse cenário, as forças norte-americanas poderiam ficar presas na região durante anos — ou deixar aliados confrontados com graves problemas de segurança. A guerra entre os governos dos EUA, de Israel e do Irão poderia terminar formalmente, mas a crise internacional que desencadeou poderia agravar-se.

Ceticismo dentro dos Estados Unidos

No plano interno, é provável que exista ceticismo fora da base mais fiel de Trump em relação às previsões de que a guerra terminará em poucas semanas. Várias sondagens já indicavam uma confiança reduzida na liderança do presidente em tempos de guerra quando o conflito começou.

Os republicanos mantiveram-se unidos contra as tentativas dos democratas no Congresso de limitar os poderes de guerra de Trump. Mas as garantias de que os combates durarão apenas “semanas” refletem também o receio dentro do Partido Republicano de que um conflito prolongado no Irão prejudique as suas hipóteses nas eleições intercalares de novembro.

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, fala numa conferência de imprensa no Pentágono. (Pool)

Na semana passada, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, tentou afastar comparações com as guerras no Iraque e no Afeganistão que marcaram as presidências de George W. Bush e Barack Obama.

“Isto não é construção de nações sem fim nem um daqueles atoleiros. Nem sequer se aproxima”, afirmou Hegseth, veterano do Exército que serviu em ambos os conflitos.

No entanto, a recusa da administração em consultar o Congresso sobre a guerra, o objetivo final pouco claro e a aparente ausência de uma estratégia de saída já deram argumentos aos democratas.

“O que me preocupa não são os soldados nem as pessoas que estão a servir. O que me preocupa é a liderança política deles, pessoas como Pete Hegseth e Donald Trump”, disse Pete Buttigieg, antigo candidato presidencial democrata e potencial candidato futuro, também no programa “State of the Union”.

“Nós já vivemos uma guerra que nos foi vendida com falsos pretextos quando eu era mais novo”, afirmou Buttigieg, veterano da Marinha norte-americana que foi mobilizado para o Afeganistão em 2014. “Esta guerra nem sequer foi apresentada com um pretexto. O presidente simplesmente decidiu avançar.”

Durante o fim de semana, Trump usou a sua rede social para atacar órgãos de comunicação social que pedem mais clareza sobre os seus planos para a guerra e sobre quando pretende terminá-la.

Essas perguntas são legítimas num conflito em que as ações do Irão — incluindo os ataques contra países do Golfo e o quase bloqueio do Estreito de Ormuz — parecem ter surpreendido repetidamente a administração.

Mas são ainda mais relevantes por causa da dor que continua a ser sentida por inúmeras famílias norte-americanas que perderam entes queridos nas aventuras militares do século XXI — conflitos que Trump prometeu não repetir.

Essa história recente dolorosa estabelece um padrão exigente para justificar novas guerras com objetivos finais incertos.

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