Unificar politicamente uma sociedade continental, territorialmente dispersa e culturalmente heterogénea é um desafio tremendo. Talvez por isso a América precise tanto de lugares-comuns, gramáticas identitárias e guerras culturais. Uma das gramáticas mais persistentes da política americana é a do “perigo vermelho”, alimentada durante a Guerra Fria pelo aparelho político, pelos meios de comunicação e pela cultura popular, incluindo Hollywood, simultaneamente veículo e alvo da repressão anticomunista. Embora tenha atravessado um período de retração, nunca desapareceu do espaço público e político, o que ajuda a perceber a facilidade com que setores da direita americana classificam políticas sociais e redistributivas como “comunistas”.
Assim, classificar alguém como “comunista” funciona como um rótulo acusatório que “resolve” a complexidade do mundo. Donald Trump e a ala ultrarradical do seu partido percebem isso muito bem. No dia 27 de julho, durante um discurso de campanha no Michigan, Donald Trump foi interrompido por gritos de “protetor de pedófilo”, numa alusão a Jeffrey Epstein. A sua resposta foi apontar o dedo ao manifestante e classificá-lo como “comunista”. O episódio condensou, em poucos segundos, uma operação discursiva recorrente: uma acusação concreta é neutralizada através da identificação do acusador como um inimigo ideológico absoluto.
O caso não é isolado. Nas duas semanas seguintes às primárias democratas de 23 de junho, Trump invocou o comunismo 81 vezes, classificando vários candidatos progressistas como comunistas. Na gramática trumpista, “comunismo”, “socialismo”, “marxismo” e “marxismo cultural” não funcionam como categorias doutrinárias distintas, mas como rótulos funcionais que permitem representar os adversários políticos como uma ameaça existencial à América.
Paralelamente, o presidente dos Estados Unidos assinou uma nova ordem executiva que visa aquilo que a Casa Branca apresenta como a eliminação dos “vestígios de ideologia marxista” nas dezenas de museus, bibliotecas e coleções educativas que compõem a Smithsonian Institution. Apoia esta decisão num relatório do Domestic Policy Council, órgão interno da Casa Branca. Embora a ordem tenha um alcance jurídico mais específico, a documentação política que a acompanha acusa a direção do Smithsonian de promover um ativismo extremo “enraizado no marxismo”.
O combate ao comunismo e ao marxismo cultural ganha, assim, um lugar decisivo na retórica trumpista para as eleições intercalares. Numa altura em que a taxa de aprovação do presidente se encontra abaixo dos 40% em vários inquéritos, a estratégia passa pela polarização afetiva da sociedade americana a partir de um dos seus medos políticos mais persistentes. Permite ainda deslocar o debate sobre a inflação e o custo de vida para uma batalha moral entre a “verdadeira América” e os seus alegados inimigos internos.
Para compreender estes episódios na sua plenitude, é preciso traçar o seu roteiro histórico. Em rigor, o medo do que hoje se designa por “marxismo cultural” tem um dos seus principais antecedentes nas décadas de 1920 e 1930, na Alemanha, num quadro conservador e nacionalista e, posteriormente, nazi, em torno de Kulturbolschewismus, isto é, um “bolchevismo cultural”, categoria acusatória usada para classificar a arte moderna, o secularismo, a reforma sexual e outras transformações culturais como parte de uma ofensiva comunista contra a sociedade alemã. Na propaganda nazi, estas acusações eram frequentemente associadas à ideia antissemita de uma conspiração judaico-bolchevique destinada a corromper a civilização ocidental.
Este período desempenhou um papel central na formação de cosmologias políticas do século XX que reaparecem, hoje, recicladas, exprimindo uma persistente tensão entre progressismo cultural e conservadorismo moral.
Como mostra a literatura e bem ilustra a produção televisiva Babylon Berlin, naquele período a capital alemã era um efervescente caldeirão de progressismo moral: os “loucos anos 20” das drogas e do foxtrot, mas também da corrupção política, das disputas entre grupos criminosos organizados e da batalha pela identidade das ruas e da alma alemã entre o nacional-socialismo nazi, que glorificava os mitos germanos e a nação, e o comunismo, que exaltava a identidade de classe como transnacional e escatológica.
Nesse período de disputa pelos rumos civilizacionais, surge o Instituto de Investigação Social, em 1923, que reuniu autores como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Erich Fromm, notáveis intelectuais influenciados pelo marxismo teórico. Conhecido como “Escola de Frankfurt”, o instituto dedicou-se ao estudo do capitalismo, do autoritarismo, da cultura de massas, da psicologia social e do fascismo. Embora os seus membros não constituíssem um bloco doutrinário homogéneo e vários tenham sido críticos do comunismo soviético e das formas fechadas ou ortodoxas de marxismo, a verdade é que o seu pensamento influenciou a formação da Nova Esquerda e contribuiu também para a sua posterior demonização por setores conservadores mais radicais.
O facto de estes intelectuais terem fugido para os Estados Unidos, num período de fortes disputas ideológicas e de persistência de correntes racistas e autoritárias, contribuiu para o enriquecimento e a reconfiguração do debate académico americano. A sua presença viria, porém, a ser retrospetivamente utilizada para alimentar uma teoria conspiratória hoje revitalizada: a de um suposto plano centralizado de conquista das universidades, dos meios de comunicação, da família e da moralidade, posteriormente associado, de forma simplificadora, às ideias de Antonio Gramsci sobre a hegemonia cultural.
Tais paranoias políticas permaneceram ativas nos Estados Unidos durante a Guerra Fria, mas consolidaram-se como narrativa política na década de 1990. É em 1999 que o estratega conservador Paul Weyrich equipara o “politicamente correto” ao “marxismo cultural”, afirmando que as universidades, a indústria do entretenimento e outras instituições tinham sido deliberadamente capturadas por uma ideologia hostil à cultura judaico-cristã ocidental. Uma afirmação que faria escola tanto nos EUA como no continente americano, com grande destaque para o Brasil.
Em 2000, William S. Lind sistematizou essa interpretação no discurso The Origins of Political Correctness, afirmando que o marxismo teria abandonado a luta estritamente económica e transferido o conflito para a cultura, substituindo proletários e burgueses por grupos definidos segundo raça, sexo e sexualidade. Esta formulação tornou-se parte do ADN da reação cultural conservadora.
Com a primeira candidatura de Donald Trump e o surgimento do movimento MAGA, assistiu-se a uma recuperação desta gramática, pois, como ajuda a compreender Jason Stanley, em Como funciona o fascismo, Trump sustenta o seu ideário de uma “grande América” num passado mítico que combina a industrialização, o “drill, baby, drill”, o conservadorismo moral e o fervor evangélico, apagando simultaneamente o racismo estrutural e a memória das leis Jim Crow.
Ora, os episódios que dão o mote a este texto mostram uma transformação importante: no universo MAGA, o “marxismo cultural” deixou de funcionar apenas como explicação conspirativa das mudanças sociais e passou a servir como categoria legitimadora da intervenção governamental sobre universidades, museus, arquivos e instituições culturais.
O relatório da Casa Branca procura amplificar o discurso contra o progressismo recorrendo a outras categorias discursivas, razão pela qual o Smithsonian surge, ali, como manifestação institucional de uma “teoria crítica interseccional” supostamente “enraizada no marxismo”. Sob esta categoria são agrupadas exposições sobre escravatura, raça, migrações, género, desigualdade salarial, povos indígenas, direitos LGBT e justiça social. Neste sentido, “marxismo” aparece como significante agregador que permite representar uma pluralidade de correntes intelectuais e reivindicações sociais como expressões de um único projeto político que visa dominar a América e destruir os valores nacionais e a família tradicional.
Ao adotar este discurso simplificador, esta direita radical trumpista procura dividir a sociedade numa batalha moral ao estilo das décadas de 1920 e 1930, em torno do perigo vermelho e da defesa de um bastião cristão. Há, todavia, uma ironia intelectual importante. Enquanto denuncia uma alegada “longa marcha marxista pelas instituições”, a direita radical adota uma estratégia que pode ser descrita como gramsciana: reconhece que o poder político depende da disputa pela hegemonia cultural. A literatura recente mostra que setores da direita transnacional se apropriaram conscientemente de conceitos como hegemonia, contra-hegemonia, bloco histórico e “guerra de posição”, procurando recuperar o controlo moral da sociedade, ao mesmo tempo que essa agenda expõe o que tem sido descrito como um “wokismo” da direita radical.
Portanto, ao acusar o Partido Democrata de ser marxista e ao falar da necessidade de combater o perigo comunista que a esquerda representa, Trump está simultaneamente a arregimentar o seu eleitorado, a consolidar a sua base de apoio e a alimentar um discurso divisionista que vai além da clássica divisão populista entre “elites corruptas” e “povo bom”. Trata-se de uma verdadeira guerra de posição, ao estilo gramsciano, pela alma da América. Embora não exista evidência de um plano marxista centralizado, a narrativa cumpre o seu papel: aumentar a polarização e fomentar a paranoia política.
A operação discursiva é simples. Primeiro, declara-se que as instituições foram capturadas. Depois, transforma-se toda a interpretação crítica da história em prova dessa captura. Finalmente, apresenta-se a intervenção governamental não como politização da cultura, mas como restauração da sua neutralidade.
