ENTREVISTA || O diagnóstico na base da guerra tarifária que o Presidente dos EUA lançou e agora pausou parcial e temporariamente até pode ser racional, mas a racionalidade acaba aí. É o que defende António Costa Silva, ex-ministro da Economia e especialista em economia e gestão. Em entrevista à CNN Portugal, acusa Peter Navarro, o ideólogo das tarifas de Trump, de "vender ao presidente esta grande teoria da conspiração de que o mundo inteiro se uniu para tramar os EUA", diz que a pausa de 90 dias não vai reverter os danos causados à economia mundial e aponta saídas para a UE e para Portugal. Até porque, sublinha, "é uma ilusão pensar que as coisas com Trump vão ser diferentes"
CNN - Há a tentação de olhar para esta guerra tarifária como irracional e caótica, mas a administração de Donald Trump apoia-se, pelo menos em parte, nalguns argumentos racionais, nomeadamente na questão do défice comercial – nesta ideia de que os EUA têm sido os grandes perdedores da globalização, por oposição à China enquanto grande vencedora. Peter Navarro, ideólogo das tarifas, também diz que os americanos têm sido muito prejudicados pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e fala na correção de uma “injustiça”... Vê racionalidade nesta decisão americana?
António Costa e Silva - É preciso distinguir dois planos de análise. No plano das causas e da situação, há claramente racionalidade, basta ler a ordem presidencial que consubstancia a decisão das tarifas. A questão fulcral é essa preocupação com o défice comercial, porque os Estados Unidos têm gerido a economia ao longo do tempo com acumulação de défices. Trump depois liga isso a questões importantes como a desindustrialização, a perda de capacidade em algumas áreas-chave, o declínio da indústria – a manufatura representa apenas 11% do PIB americano, mas é responsável por mais de 50% da inovação e por 60% das exportações. Há este apelo à reindustrialização do país, e depois também liga as tarifas recíprocas a questões de segurança nacional, quando diz que os EUA perderam competências para fabricar navios, automóveis, cadeias de valor, materiais críticos... Este é um diagnóstico que me parece racional.
CNN - Onde começa então a irracionalidade?
ACS - A irracionalidade começa no método de combate ao problema, em tudo o que deriva a partir daí. A questão central aqui é que há uma falácia quando o presidente Trump diz que os países se juntaram todos para roubar os EUA. Não é isso que acontece. Na verdade, os EUA são o principal beneficiário da ordem económica internacional. A queixa dele é relativamente ao comércio de bens, mas não tem uma palavra a dizer sobre o comércio de serviços, que é absolutamente dominante nos EUA – representam quase 70% do mercado mundial de serviços, quando a Europa representa apenas 6%.
Na questão dos défices ataca, de um ponto de vista da culpa alheia, mas os EUA são consumistas e Trump não tem uma palavra a dizer quanto ao declínio do consumo. Mohamed El-Erian, que previu a crise de 2008, faz uma análise boa no seu livro "When Markets Collide", ele identificou isto há muito tempo, este perigo de continuar nesta onda de acumulação de défices, que contamina a economia mundial. E diz que, para resolver isso, os EUA têm de negociar com os parceiros, reduzir o consumo, reverter défices, e que a Europa e o Japão têm de se comprometer com o aumento da produtividade e a China tem de estimular a procura interna. Diz que é preciso uma espécie de novo Acordo Plaza, um novo acordo com parceiros. Mas o método de Trump é o do combate e as ações são contraproducentes.
CNN - Isso já se tinha verificado no seu primeiro mandato, quando eliminou a Parceria Transpacífica (TPP), que tinha precisamente esse objetivo…
ACS - Exatamente. Falando nesse acordo internacional, no verão passado, no Clube de Manhattan, tive a oportunidade de ouvir uma comunicação de Scott Bessent, o secretário do Tesouro, que parece um dos homens mais razoáveis desta administração, em que dizia que todos estes problemas têm de ser resolvidos com um novo acordo, tem de haver conversações. Quando se chega a este estado, isto é altamente lesivo. O comércio é uma das bases do desenvolvimento mundial, aliado aos avanços tecnológicos, e quando se põe em causa o comércio mundial, quando se põe em causa os mercados, isso é altamente lesivo.
CNN - Falámos da racionalidade ou falta dela na decisão de aplicar tarifas. Mas qual é o racional por trás desta pausa de 90 dias? De certa forma, os objetivos declarados de Trump ficam em risco: se as tarifas forem reduzidas ou anuladas, a deslocalização da indústria para os EUA que ele pretende nunca acontecerá, mas se os aliados comerciais suspeitarem que continua empenhado no protecionismo, irão questionar porque deverão fazer concessões aos EUA…
ACS - O presidente está a usar as tarifas para reverter o défice comercial – algo que não vai funcionar – mas também como método de negociação. Só que numa negociação tem de haver confiança, a pior coisa é não haver confiança, e o que ele está a fazer – como, aliás, os grandes investidores americanos e os grandes fundos e as grandes empresas financeiras estão a dizer – é a destruir a confiança, inclusivamente dos parceiros comerciais. E sem isso não será possível reverter a situação. Veja o que está a acontecer, está a haver uma paralisação do investimento. Se olharmos para o índice Standard & Poor’s, para o Nasdaq, para o Dow Jones, já tiveram um crash, agora estão a recuperar, amanhã Trump diz outra coisa e voltam a baixar – e tudo isto tem de ser analisado também sob o índice Vix, o índice do medo, da volatilidade, que está ao máximo neste momento. Trump tem este talento especial para a imprevisibilidade. Quer a relocalização das empresas, mas o que as empresas estão a fazer é parar para ver. Num ambiente destes ninguém vai decidir fazer grandes investimentos, não até haver o mínimo de estabilidade.
CNN - Assumindo que Trump até consegue esse reshoring, essa deslocalização das empresas para os EUA, é algo que demorará muito tempo, da mesma forma que a perda de indústria foi acontecendo ao longo de décadas. Como é que se reindustrializa um país?
ACS - Repare, a desindustrialização foi fruto de escolhas dos responsáveis políticos americanos e das empresas americanas, que preferiram deslocalizar para a Ásia, que tem custos de trabalho mais baratos, mais competitivos, e foi tudo feito num ciclo de globalização com o qual os EUA lucraram muito. Passaram a ter produtos mais baratos e competitivos [fabricados no estrangeiro] e apostaram em áreas onde se gera maior valor acrescentado, áreas como a do software, das tecnologias de informação e comunicação, que geram mais valor. E depois houve uma aposta nos serviços, um processo de servitização da economia americana, com polos fundamentais que criam valor e riqueza, e os EUA são dominantes nessa área. É evidente que, se quiserem um novo ciclo de reindustrialização… Ele está muito preocupado, fala muito da construção de navios, de produtos metálicos, de equipamentos, do fabrico de armamento, de coisas importantes para a segurança nacional, é uma questão séria. Mas isso os EUA também adquirem noutros lados do mundo. E a parte nuclear e militar, essas indústrias os EUA conservaram.
CNN - No fundo, Trump tem um discurso muito seletivo quanto ao que a América tem a ganhar ou a perder em relação ao resto do mundo…
ACS - Precisamente. É impressionante como, face à realidade, se escolhe duas ou três coisas que podem servir uma ideia. Trump está refém da teoria do comércio de Peter Navarro, um promotor de teorias da conspiração, que vendeu ao presidente esta grande teoria da conspiração de que o mundo inteiro se uniu para tramar os EUA. Mesmo aquela tabela de cálculo das tarifas não tem nexo, é um método completamente errado e aleatório, não se baseia no custo que os EUA pagam pelos bens importados, mas no défice comercial que tem com os países em percentagem de exportações. É totalmente aleatório, e os números da Organização Mundial do Comércio mostram isso. A minha opinião é que é um pretexto para desencadear uma guerra que não vai surtir muitos efeitos e os que surte, como estamos a ver, são nocivos.
CNN - Mesmo com esta pausa temporária, muitos analistas consideram que o mal já está feito e que os danos à economia mundial são profundos e difíceis de reverter, incluindo tendo em conta a guerra ainda em marcha com a China, uma guerra entre as duas maiores economias do mundo, sem fim à vista. Concorda? É possível reverter os danos causados?
ACS - Podem ser revertidos nalgumas condições, mas não na totalidade. Os danos já estão feitos. Repare, a JP Morgan tinha uma previsão de 60% de probabilidade de recessão e manteve essa previsão mesmo depois deste recuo de Trump, até porque ele já fez isto com o México e com o Canadá e depois amanhã volta a ter uma decisão diferente. É aquilo a que, em diplomacia, se chama o paradigma do homem louco, em que se negoceia para inspirar medo do outro lado. Só que quando se aplica isto na economia é um desastre, a economia precisa de certeza, de confiança, de previsibilidade. E agora a administração Trump é o principal fator de desestabilização da economia mundial. Veja, ele declarou guerra a 185 países. Mesmo nos EUA, estão a debater-se muitas analogias com 1930, quando os EUA aprovaram uma lei tarifária para debelar a Grande Depressão que tinha começado em 1929 – passaram a aplicar tarifas de entre 5 e 6% a 25 países. E o que aconteceu então? Funcionou tudo ao contrário: as exportações americanas colapsaram, a economia também, e a Grande Depressão aprofundou-se ainda mais. E agora temos tarifas muito mais elevadas contra 185 países. Esta é uma receita que já se provou que não resulta.
CNN - Perante tudo isto, há quem já fale no início do fim da globalização, mas também há quem defenda que a globalização nunca vai ter fim e que isto é apenas um percalço no caminho, como já houve outros no passado. Qual é a sua opinião?
ACS - Diria que temos de fazer uma análise ao que os EUA representam em termos do comércio mundial. Os EUA, como sabemos, são uma superpotência económica, militar, tecnológica e agora até energética, são o maior produtor de petróleo e gás – mas não são uma superpotência comercial. As grandes potências comerciais são a China e a Europa e é por isso que defendo uma reaproximação comercial da Europa à China, a par de uma grande plataforma de trocas com democracias como a Índia, o Japão, a Coreia do Sul. A China já começou a fazê-lo, está a aproximar-se desses países, a Europa deve fazer o mesmo, e explorar os mercados do Mercosul, explorar possibilidades – e Portugal deve fazer o mesmo. Nós, através de Macau, temos uma plataforma para chegar à Grande Baía, que representa 12% do PIB da China. Mas tudo isto tem de ser articulado.
CNN - Falta articulação neste mercado de 450 milhões de consumidores que é a Europa?
ACS - Falta, este é um trabalho que a União Europeia não tem feito e continua sem fazer, o trabalho de promover o potencial do seu mercado único. Houve um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e há uns tempos Mario Draghi também suscitou esta questão num artigo no Financial Times, sobre as barreiras que ainda existem hoje dentro da UE.
CNN - Refere-se a barreiras entre Estados-membros?
ACS - Sim, as barreiras entre os Estados-membros são um grande obstáculo. O estudo teve esta conclusão extraordinária: é que essas barreiras representam uma tarifa de 45% sobre bens e de 110% sobre os serviços. A Europa ainda não conseguiu libertar este imenso potencial. No dia em que o fizer pode compensar muito estas feridas que foram abertas. Neste momento, não estamos ligados em termos de energia, nem de capitais, nem temos um mercado europeu de serviços, há muitas barreiras à circulação… Temos de trabalhar estes vários pontos.
CNN - Desvinculando-nos, ao mesmo tempo, da América de Trump?
ACS - Não, é preciso dar importância aos EUA e ao que nos dão. Mas, neste momento, é uma ilusão pensar que as coisas [com os americanos] vão ser diferentes. A Europa é um dos grandes ódios do presidente Trump e dali não virá mais nada, a não ser que seja mesmo muito pressionado.