Face à ausência de resposta institucional, o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional que decidiu criar uma linha de apoio psicológico dedicada aos guardas
A época do Natal é, para muitos, sinónimo de família e descanso. No entanto, para os guardas prisionais, é frequentemente o período mais difícil do ano. As queixas aumentam, os pedidos de ajuda disparam e o desgaste emocional torna-se mais visível dentro de um corpo profissional que trabalha sob pressão constante, com turnos prolongados e cada vez menos recursos humanos.
"É sempre nesta altura que a procura da nossa linha de apoio dispara. Na segunda tínhamos 123 pedidos de ajuda", afirma Frederico Morais, presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional, em declarações à CNN Portugal.
Segundo o dirigente sindical, o padrão repete-se ano após ano: à medida que se aproxima o Natal, o número de contactos para a linha de apoio psicológico criada pelo sindicato cresce de forma acentuada, revelando fragilidades emocionais que, noutras alturas do ano, permanecem muitas vezes escondidas.
Frederico Morais aponta uma combinação de fatores para explicar o agravamento da situação nesta época. Por um lado, o estado emocional tende a estar mais frágil. Por outro, a realidade profissional dos guardas prisionais tem-se tornado progressivamente mais exigente.
"Trabalhamos turnos atrás de turnos, cada vez com menos pessoas. Temos de fazer mais horas e isso vai desgastando", explica.
Num corpo com cerca de quatro mil profissionais, o sindicato acompanha, em média, entre 15 a 20 guardas por ano através da linha de apoio psicológico. No entanto, é no período natalício que os números sobem de forma significativa.
"Quando chega esta altura, os números disparam para valores muito preocupantes. É uma altura muito crítica. A família pesa muito e o estado emocional fica mais débil", reconhece Frederico Morais.
O contraste entre o ambiente festivo no exterior e a realidade dura do trabalho em contexto prisional acentua sentimentos de isolamento, frustração e cansaço acumulado ao longo do ano.
Uma linha criada pelo sindicato, sem apoio do Estado
Face à ausência de resposta institucional, foi o próprio Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional que, há quatro anos, decidiu criar uma linha de apoio psicológico dedicada aos guardas. "Esta linha é toda nossa. Não há um cêntimo do Governo aqui", garante Frederico Morais.
A estrutura inclui psicólogos e profissionais com formação em prevenção do suicídio. Desde a instalação da linha telefónica até ao acompanhamento dos guardas, todo o projeto é financiado pelo sindicato. "Foi criado de raiz por nós. Tudo é suportado pelo sindicato, desde o primeiro dia."
Para Frederico Morais, o aumento das queixas e dos pedidos de ajuda nesta altura do ano não pode ser visto como um fenómeno isolado ou circunstancial. É, antes, um reflexo de problemas estruturais que se acumulam no sistema prisional português.
"O Natal acaba por ser o momento em que tudo vem ao de cima", afirma.
