Afinal, de quem é o míssil que caiu na Polónia? (E o que é que Zelensky tem a perder)

16 nov, 22:06

O Ocidente e a Ucrânia não se entendem quanto à origem do míssil que atingiu a Polónia - mas há antecedentes e provas que deitam algumas teorias por terra

Um míssil cruzou a fronteira da Ucrânia e caiu em território polaco, matando duas pessoas. A Polónia e os Estados Unidos afirmam que tudo indica que se trata de um míssil ucraniano, já Zelensky garante que não é seu e culpa a Rússia pelo incidente. Afinal, de quem é? E como se prova?

As investigações do exército polaco - os únicos a terem tido acesso ao local até ao momento - revelam que em causa estará um míssil S-300, utilizado pelas defesas antiaéreas da Ucrânia. Mas não são perentórios. É que o mesmo modelo é utilizado pelo invasor.

À CNN Portugal, o major-general Isidro de Morais Pereira explica que este é um míssil terra-ar soviético, portanto tanto a Ucrânia como a Rússia têm stocks deste projétil. "Existe a tese de ter sido a Ucrânia a intercetar um míssil russo, mas parece ser menos verosímil até porque nas imagens vemos uma cratera", detalha, apontando que "tudo indica que o míssil tenha explodido no terreno" (e não no ar, durante uma possível interceção).

Destruição provocada pela queda do míssil numa quinta na Polónia (NEXTA)

"Se foi um S-300, a tendência é apontar para a Ucrânia, porque as forças ucranianas é que têm os sistemas de defesa antiaéreos S-300. Agora, no meio dos ataques russos pode ter havido um S-300", sugere o general, que não coloca completamente de parte a hipótese de a Rússia ter utilizado este tipo de projétil para atingir infraestrutura, apesar de terem sido construídos para atingir alvos aéreos.

Paralelamente, há antecedentes que ligam a Rússia a um incidente deste género. Aliás, indica Isidro de Morais Pereira, "há registo do uso destes S-300 por parte das forças russas em ataques terrestres na Ucrânia".

"Mas, mesmo sendo a Rússia, também não podemos dizer que foi propositado", adverte. Até porque estão em causa mísseis "já do tempo da União Soviética, com pelo menos 30 anos" e que ao fim de certos anos perdem estabilidade e precisão, podendo em causa estar um “míssil com defeito”, exemplifica, frisando que, a seu ver, “não há dúvida alguma” de que “não houve intencionalidade de atingir a Polónia, seja por parte da Ucrânia para proteger o seu espaço aéreo, quer seja um míssil russo”.

Qualquer que seja a hipótese, estes mísseis são todos numerados e, se for possível identificar o número de série, é possível perceber realmente de quem é, garante o major-general.

E pode ser mesmo essa a solução para o mistério do míssil - e a principal razão por detrás da insistência de Zelensky para que os seus militares acedam ao local. "Também pode tirar partido disto. Se diz que quer ter acesso ao local, e tendo sido apontado como causador, tem todo o direito a ver as provas. É um dos interessados em esclarecer tudo isto", diz.

"Não escalar o conflito é colocar as culpas na Ucrânia"

Sendo a Ucrânia acusada, "é um acidente que pode ocorrer numa guerra - e aliás já ocorreram vários incidentes", afirma o major-general. Mas e se não for? Ora, para Isidro de Morais Pereira, ao dizer-se que os mísseis são russos, Zelenksy à partida ficaria em vantagem - uma vez que a NATO se juntaria ao conflito. Só que há um grande senão - "é que o Artigo 5.º também exclui incidentes, como poderá ser este caso". 

"Se a Polónia e os Estados Unidos dizem que o míssil é ucraniano, aí temos de admitir uma coisa: não escalar o conflito é colocar as culpas na Ucrânia. Se admitirmos que a Rússia de facto atacou território da NATO, os membros da Aliança tinham de ser consequentes e exercer represálias sobre a Rússia", defende o especialista em assuntos militares.

Por sua vez, o embaixador Seixas da Costa considera que “a Ucrânia não ganha muito em prolongar esta situação”, referindo-se à postura firme de Volodymyr Zelensky na hora de negar que a explosão na Polónia foi causada por um míssil ucraniano. Para o comentador da CNN Portugal, Kiev tem, porém, “todo o direito” de manter a sua versão dos factos se “considerar que não se tratou de um míssil ucraniano”. Mas destaca que a postura poderá não favorecer o país.

“Não sei se tem grandes vantagens. Perante a opinião pública internacional, depois da posição tomada pelos EUA, pelo secretário-geral da NATO e da mudança de atitude muito significativa por parte da Polónia, não sei se a insistência desta versão é vantajosa”, frisa.

Também Tiago André Lopes, especialista em Assuntos Internacionais, afirma à CNN que o facto de a crise em torno da explosão na Polónia se estar a "esvaziar" é um "problema para o presidente Zelensky", que queria aproveitar esta ocasião para "avançar em assuntos" que tem elencado nos últimos meses.

"Do ponto de vista estratégico, esta tensão política permitiria ao presidente Zelensky avançar com coisas que tem pedido nos últimos nove meses, como o encerramento do espaço aéreo ou a questão de armas de longo alcance, e que a NATO tem recusado", relembra o especialista. "O que temos agora é um espetáculo pouco feliz, de ver um líder isolado dos seus aliados, porque, na verdade, Zelensky está a por-se numa posição de entrar em contradição com o garante da sua defesa." Prova disso é o facto de não se saber o que saiu do conselho de segurança da Hungria, o que leva Tiago André Lopes a questionar se "o governo húngaro muito provavelmente falou com o governo polaco, recebeu informação e percebeu que isto era menos simples e menos linear".

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