A descoberta, 107 anos depois, devolve um local de memória às famílias das 131 vítimas e encerra um dos maiores mistérios da história da Guarda Costeira norte-americana
O capitão do submarino alemão viu a silhueta do seu alvo contra o céu ao entardecer, ao largo da costa do sul de Inglaterra, e deu a ordem para disparar um único torpedo.
Foi a última vez que alguém viu o navio da Guarda Costeira dos Estados Unidos Tampa e os seus 131 tripulantes durante mais de 107 anos.
Três minutos depois de o torpedo alemão atingir o navio a meio, o Tampa afundou-se no fundo do Atlântico com toda a tripulação perdida, naquela que foi a maior perda naval das forças norte-americanas durante a Primeira Guerra Mundial.
Na quarta-feira, a Guarda Costeira anunciou que uma equipa de mergulhadores britânicos localizou os destroços do Tampa no fim de semana passado, a uma profundidade de 300 pés (91 metros), a cerca 80 quilómetros da costa da Cornualha.
Os destroços foram encontrados pela equipa britânica Gasperados Dive Team, um grupo voluntário de mergulho técnico que trabalha com historiadores e investigadores para encontrar destroços de embarcações em redor do Reino Unido, de acordo com a sua página no Facebook. A equipa procurava o Tampa desde 2023.
“Esta descoberta é o resultado de três anos de investigação e exploração. O TAMPA tem enorme importância para os Estados Unidos e para os familiares de todos os que morreram naquele dia. O seu local de descanso final é finalmente conhecido”, disse o líder da equipa de mergulho, Steve Mortimer, numa publicação no Facebook.
“Encontrar o TAMPA não aconteceu apenas no fim de semana passado. Esta foi a décima viagem para mergulhar em possíveis alvos e todos — quer capitão, tripulação, investigador, ligação ou mergulhador — tiveram um papel. Ainda estamos em êxtase. Conseguimos!”, referia outra publicação no Facebook.
A Guarda Costeira afirmou ter fornecido ao grupo registos e dados para confirmar que os destroços pertenciam ao Tampa.
“Isto incluiu imagens de arquivo dos acessórios do convés, do leme do navio, do sino, do armamento e outras imagens de arquivo do Tampa”, sublinhou William Thiesen, historiador da área atlântica da Guarda Costeira, no comunicado.
Um histórico da Guarda Costeira sobre o Tampa dá detalhes da sua última viagem.
A 17 de setembro de 1918, o navio iniciou serviço de escolta de comboios navais nas águas do Atlântico. Mas a 26 de setembro, o capitão do Tampa pediu autorização para abandonar o comboio que escoltava, uma vez que o navio estava perigosamente com pouco carvão para alimentar as caldeiras e precisava de reabastecer.
Os comandantes concederam o pedido do capitão e o navio seguiu em direção a um porto no País de Gales em velocidade máxima, por volta das 16:00.
Pelas 20:15, foi avistado pelo submarino alemão UB-41, que disparou um único torpedo. A explosão do torpedo foi seguida de uma segunda explosão, provocada pela ignição de pó de carvão ou pela detonação das cargas de profundidade a bordo do Tampa, segundo o histórico da Guarda Costeira.
Um avião enviado para procurar o navio, depois de este não ter chegado ao destino, encontrou pedaços dos destroços no dia seguinte.
A bordo seguiam 111 membros da Guarda Costeira, quatro marinheiros da Marinha dos EUA e 16 britânicos, incluindo pessoal da Marinha Real e civis.
Os membros da Guarda Costeira vinham de diferentes origens e regiões dos Estados Unidos e incluíam imigrantes da Rússia e da Noruega. Onze dos tripulantes mortos eram negros, segundo um histórico da Guarda Costeira sobre o navio. Foram os primeiros membros de minorias da Guarda Costeira a morrer em combate.
“Quando o Tampa se perdeu com toda a tripulação em 1918, deixou uma dor duradoura no nosso serviço”, afirmou o comandante da Guarda Costeira, almirante Kevin Lunday, em comunicado. “Localizar os destroços liga-nos ao seu sacrifício e recorda-nos que a devoção ao dever perdura.”
A Guarda Costeira disse que está a desenvolver planos para explorar mais profundamente os destroços utilizando sistemas autónomos e robótica.
