Um dia na "Faixa da Morte": como um símbolo da paranoia comunista se transformou num paraíso selvagem

CNN , Marcel Krueger
31 jan, 22:00
alemanha

 

 

É a história de como os cidadãos da RDA conseguiram derrubar esta fronteira com uma revolução pacífica, sem disparar um único tiro

(Foto acima: outrora um dos lugares mais perigosos da Europa, o Cheiner Torfmoor é agora um refúgio para a vida selvagem. Helmac/Ute Machel/BUND Sachsen-Anhalt)
 

A paisagem mais serena da Alemanha deve a sua existência a uma das suas paranoias mais acérrimas.

Grünes Band — o Cinturão Verde que se estende por 1.380 quilómetros ao longo da antiga fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental comunista — é hoje uma vasta área de orquídeas, zonas húmidas e charnecas ricas em aves.

Começou por ser uma terra de ninguém fortificada, repleta de minas terrestes, e patrulhada dia e noite para impedir que os cidadãos do Leste escapassem.

Quem hoje percorre este lugar sente a Guerra Fria como algo quase impossível. Ouve-se o canto dos pássaros e o coaxar das rãs, enquanto um passadiço de madeira atravessa o pântano de Cheiner Torfmoor, onde orquídeas florescem.

Mas esta tranquilidade só existe porque, outrora, as pessoas eram obrigadas a manter-se afastadas.

Hoje, nas regiões do norte da Baixa Saxónia e da Saxónia-Anhalt, aproximadamente entre Hamburgo e Berlim, o Cheiner Torfmoor, ou pântano de Chein, é uma das zonas húmidas mais famosas do país.

Na primavera e no verão, transforma-se num mosaico de charnecas, zonas húmidas e florestas pantanosas, repleto de aves e rãs. Em março e abril, a charneca enche-se de cor com a floração de cerca de 6.000 orquídeas, incluindo a rara orquídea-violeta. Um passadiço permite aos visitantes explorar o local sem danificar as flores nem o solo fértil que se encontra por baixo.

As origens desta biosfera intocada remontam à Guerra Fria. Entre 1949 e 1989, integrava a chamada Innerdeutsche Grenze, ou fronteira interna alemã — a linha que separava a Alemanha Ocidental da República Democrática Alemã (RDA), comunista, a leste.

Do lado da RDA, era um local cercado por arame farpado, campos minados, torres de vigilância e dispositivos de disparo automático — não para afastar invasores, mas para impedir a fuga de cidadãos. Com cerca de cinco quilómetros, a zona de restrição militarizada da RDA, conhecida como Sperrzone, estendia-se ao longo da Innerdeutsche Grenze e era patrulhada 24 horas por dia.

A antiga fronteira constitui agora um refúgio de vida selvagem com quase 1.400 quilómetros de comprimento (Image BROKER.com/Alamy Stock Photo)
A antiga fronteira constitui agora um refúgio de vida selvagem com quase 1.400 quilómetros de comprimento (Image BROKER.com/Alamy Stock Photo)

O regime chamava-lhe Antifaschistischer Schutzwall (Barreira de Proteção Antifascista), mas o seu verdadeiro objetivo era claro: impedir que os cidadãos da RDA abandonassem o país.

Para além da faixa central, os acessos exteriores da Sperrzone estavam desabitados e sem atividade civil, criando uma terra de ninguém que, de forma não intencional, se tornou numa reserva natural.

Aproximar-se da fronteira com binóculos era proibido. Ainda assim, apesar dos riscos, a área depressa atraiu a atenção de observadores de aves de ambos os lados da fronteira.

“Descobrimos que mais de 90% das aves raras ou em sério risco de extinção na Baviera — como o cartaxo-nortenho, o trigueirão e o noitibó-da-europa — podiam ser encontradas no Cinturão Verde”, afirma Kai Frobel, nascido em 1959 em Hassenberg, a cerca de 320 km a sul do Cheiner Torfmoor. “Este espaço tornou-se o refúgio final para muitas espécies e mantém-se assim até hoje.”

Frobel é, atualmente, professor de Ecologia Ambiental, mas, ao crescer junto à fronteira, foi um observador de aves ávido durante os anos em que a Sperrzone ainda existia.

Do ponto de vista da conservação da natureza, a Cortina de Ferro foi uma bênção: um santuário acidental de vida selvagem durante 40 anos. Por isso, não foi surpresa quando, em dezembro de 1989, um mês após a queda do Muro de Berlim, Frobel tenha organizado uma reunião em Hof, outra cidade fronteiriça a sul do Cheiner Torfmoor, para discutir o futuro desta reserva natural acidental.

Quatrocentos conservacionistas de ambos os lados da fronteira marcaram presença. Foi ali que nasceu o nome e o conceito de Cinturão Verde. Os participantes aprovaram por unanimidade uma resolução para o proteger sob a égide da Federação Alemã para o Ambiente e Conservação da Natureza, também conhecida como BUND. (Mais tarde, Frobel viria a tornar-se porta-voz do projeto do Cinturão Verde na filial da Baviera.)

De "faixa da morte" a reserva natural

A antiga terra de ninguém, hoje conhecida como Cinturão Verde, é agora um espaço protegido, mas continua a enfrentar ameaças (Helmac/Ute Machel/BUND Sachsen-Anhalt)
A antiga terra de ninguém, hoje conhecida como Cinturão Verde, é agora um espaço protegido, mas continua a enfrentar ameaças (Helmac/Ute Machel/BUND Sachsen-Anhalt)

O primeiro passo para a preservação foi determinar o que havia para proteger. Foi rapidamente iniciado um estudo formal dos ecossistemas e das espécies ao longo do Cinturão Verde, conduzido por ornitólogos, botânicos e entomologistas em nome da BUND. Em 2001, a Agência Federal Alemã para a Conservação da Natureza solicitou a criação de reservas naturais formais em tantas áreas quanto possível, com o objetivo de estabelecer um sistema de interligação ecológica a nível nacional. No entanto, o governo recém-reunificado optou por devolver as terras aos antigos proprietários.

A resistência terminou em 2002, quando, nem mais nem menos do que Mikhail Gorbachev, o último presidente da URSS, apoiou a iniciativa ao tornar-se a primeira pessoa a comprar uma “ação do Cinturão Verde”, uma iniciativa promocional criada pela BUND. O seu apoio gerou maior respaldo público.

Em 2005, a chanceler alemã Angela Merkel designou o Cinturão Verde como parte do Património Natural Nacional da Alemanha. Esta decisão garantiu que as terras ainda pertencentes ao governo alemão ao longo do Cinturão Verde fossem transferidas gratuitamente para os diversos estados regionais como reservas naturais, concretizando a visão que Frobel e os seus colegas tinham aprovado 16 anos antes. Em 2017, Frobel e o então presidente da União para a Conservação da Natureza, Hubert Weiger, receberam o Prémio Alemão do Ambiente, o mais prestigiado galardão ambiental da Europa, em reconhecimento pelo seu ativismo.

Atualmente, o Cinturão Verde abrange toda a antiga zona fronteiriça e atravessa seis estados alemães. Liga zonas húmidas, florestas, pastagens e várzeas fluviais, e alberga mais de 1.200 espécies raras ou em perigo de extinção — a rede de biótopos mais extensa da Alemanha. Em 2024, foi submetida à consideração da UNESCO para inclusão na lista do Património Mundial.

“Devemos contar por que razão já não existe uma fronteira ali”, sublinha Olaf Zimmermann, diretor executivo do Conselho Cultural Alemão, que desempenhou um papel decisivo na sua inclusão na lista alemã de sítios propostos à UNESCO. É a história de como os cidadãos da RDA conseguiram derrubar esta fronteira com uma revolução pacífica, sem disparar um único tiro.

Da Alemanha e mais além

As zonas naturais poderiam funcionar como uma linha de defesa, como acontece na fronteira da Polónia e da Lituânia com o enclave russo de Kaliningrado (Sergei Gapon/AFP/Getty Images)
As zonas naturais podem funcionar como uma linha de defesa, como acontece na fronteira da Polónia e da Lituânia com o enclave russo de Kaliningrado (Sergei Gapon/AFP/Getty Images)

Infelizmente esta história fascinante não significa que o Cinturão Verde estará seguro para sempre. Apesar de grande parte da área estar protegida, os políticos ainda podem redefinir a sua utilização — como aconteceu no estado de Hesse, em 2024, quando o governo local reduziu a área destinada à reserva natural, na sequência de protestos de comunidades locais e de associações de caça e agricultura.

Durante mais de uma década, a BUND tem colaborado com ambientalistas e grupos voluntários por toda a Europa para expandir o Cinturão Verde além da Alemanha, criando um Cinturão Verde Europeu — uma rede de biosferas que se estende por quase 12.800 quilómetros, do Mar de Barents ao Adriático e ao Mar Negro, seguindo as antigas fronteiras de 24 Estados durante a Guerra Fria.

Outras antigas fronteiras mostram a relevância desta ideia. Mais de 100 espécies raras, incluindo o veado-almiscareiro e o urso-negro-asiático, encontraram refúgio na zona desmilitarizada entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. O raro muflão-de-chipre e o alcaravão prosperam na zona tampão de 180 quilómetros estabelecida pela ONU, que divide a ilha de Chipre.

Existe outra razão cada vez mais convincente para transformar as zonas fronteiriças em reservas naturais: a defesa.

Em resposta à invasão russa da Ucrânia, os países da União Europeia que fazem fronteira com a Rússia e a Bielorrússia ergueram cercas e fortificações fronteiriças, enquanto os Estados bálticos começaram a planear uma “Linha de Defesa do Báltico”, com bunkers e valas antitanque, aproveitando as defesas naturais, como charcos e rios. Muitos especialistas bálticos defendem ainda a restauração de turfeiras.

A renaturalização não oferece apenas uma vantagem defensiva; a restauração de zonas húmidas pode revitalizar a biodiversidade, fornecer abrigo a animais em perigo, absorver águas de cheias e capturar CO₂. Por outro lado, os pântanos drenados libertam carbono e contribuem para o aquecimento global.

“A biodiversidade permite que a natureza produza mais adaptações às condições em mudança”, aponta Katrin Evers, gestora de projetos de biodiversidade da BUND. “Florestas ou charnecas intactas retêm água na região e podem, assim, proteger tanto contra inundações como contra secas. Além disso, também filtram a água e fornecem sombra, garantindo um certo grau de resiliência climática.“

De volta a Cheiner Torfmoor, uma antiga torre de vigia da RDA, tapada e coberta de grafítis, ainda se ergue entre as orquídeas — um sinal de que o Cinturão Verde continua a ser um memorial vivo da dolorosa divisão e da pacífica reunificação da Alemanha. O Cinturão Verde é, ao mesmo tempo, uma paisagem de memória e uma rede extraordinária de ecossistemas. É um ambiente que liga diretamente a natureza à história — e onde uma fronteira erguida pelo medo pode, ainda assim, servir de modelo de resiliência.

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