Sempre que vejo Kim McAdams, ela não traz sapatos. Todos os anos, verifica as emissões do meu carro no seu posto de trabalho num parque de estacionamento em Roswell, na Geórgia. Nos quatro anos em que a conheço, faça chuva ou faça sol, está sempre descalça.
Já tinha ouvido falar de pessoas que tiram os sapatos para se conectarem com a Terra, e parecia sempre algo tão relaxante. Mas num parque de estacionamento cheio de sabe-se lá o quê no chão?
Este ano, a curiosidade falou mais alto. "Por acaso, acredita na prática de grounding?", perguntei. Ela respondeu com um sorriso: "O que o leva a pensar isso?".
McAdams contou que nunca gostou de sapatos e que, a certa altura, durante o liceu no Ohio, simplesmente deixou de os usar. "Tínhamos umas Levi's à boca de sino enormes", explicou. "Não importava se tinha sapatos ou não, não se viam os pés".
Nos anos 1970, referiu, ninguém falava de grounding, também conhecido como earthing. "Durante muito tempo, não sabia que era um conceito", continuou. "Sinto o chão debaixo de mim, sinto-me melhor, sinto-me mais saudável".
Ao que parece, vídeos virais no TikTok têm popularizado, nos últimos anos, a prática desta senhora dos pés descalços de fazer contacto direto com a Terra.
As pessoas procuram melhorar a saúde e entrar em contacto com a natureza, disse-me. "Todos querem estar 'ligados à terra'. Acho que é porque acontece tanta coisa má e há tantas substâncias na nossa comida, os químicos que andam por aí".
Embora a abordagem de McAdams possa parecer extrema, passei a maior parte da minha carreira profissional a trabalhar em Londres e Atlanta, e aprendi a valorizar os benefícios reparadores de estar ao ar livre na natureza. E, indo mais longe, talvez a imersão total ao tirar os sapatos ao ar livre, de vez em quando, não seja uma ideia assim tão descabida.
Pôr os pés na terra
Quando comecei a fazer jardinagem, há cerca de dez anos, levava sempre uma coluna para ouvir as minhas músicas favoritas. Numa tarde de outono, questionei-me se precisava mesmo de ouvir o álbum "Piece of Mind", dos Iron Maiden. Por muito que goste das linhas de baixo galopantes de Steve Harris, tive a epifania de que a minha paz de espírito seria mais bem servida se sintonizasse o canto dos pássaros e o som das folhas na brisa.
Agora, tiro os sapatos sempre que ando no jardim e acho estranhamente reconfortante a sensação de arrastar os pés na relva.
Eu estava no caminho certo. Milhares de médicos canadianos estão agora a prescrever natureza aos seus pacientes, incluindo Melissa Lem, cofundadora do PaRX, o programa nacional de prescrição de natureza do Canadá.
"Existe um vasto corpo de investigação, com milhares de estudos, que define os benefícios da natureza para a saúde", disse à CNN a professora clínica assistente de medicina familiar na Universidade de British Columbia. "Qualquer coisa que nos leve para a rua, atentos e mais ligados à natureza, irá provavelmente melhorar a saúde".
Então, perguntei-me: que diferença faz tirar os sapatos e conectarmo-nos diretamente com a Terra?
O documentário de 2019 "The Earthing Movie" sugere que o corpo humano é um organismo tanto biológico como elétrico, tornando-o recetivo às cargas que irradiam constantemente do solo sob os nossos pés.
A prova científica sobre o grounding ainda está a surgir, referiu Lem. Mas, para ajudar a compreender a teoria subjacente, explicou: "Acumulamos cargas positivas no corpo, radicais livres. A superfície da Terra tem uma carga negativa e, por isso, inundar o corpo com esses iões e cargas negativas ajuda a reduzir os radicais livres globais e a inflamação".
Os radicais livres são moléculas no corpo com eletrões desemparelhados. Na procura de um par, roubam eletrões a outras células, causando danos celulares que podem provocar inflamação e contribuir para doenças crónicas. O grounding, segundo os seus defensores, pode apoiar o corpo fornecendo-lhe eletrões estabilizadores.
O realizador Josh Tickell, que co-realizou "The Earthing Movie", confessou que estava cético quando a ideia do filme lhe foi apresentada. "Pensei que era, sabem, uma coisa da Califórnia, ecológica, alternativa", disse à CNN. "Pensei: 'Oh meu Deus, mais uma ideia para um mau filme'".
Mas o seu filme encontrou um público de pelo menos oito milhões de pessoas no YouTube, dispostas a ouvir a mensagem ou que já acreditam nela. Entre os mais de dez mil comentários, encontram-se centenas de relatos pessoais que atestam os benefícios reparadores do contacto direto com a natureza.
O movimento moderno de 'earthing'
Clint Ober, de 81 anos, é considerado por alguns como o "padrinho" do movimento earthing. Acredita que o advento do calçado moderno nos isolou daquilo que considera serem os benefícios da Terra para a saúde.
"Antes de eu nascer, em 1944, não se conseguia sair da terra", contou à CNN. "Não podíamos deixar de estar ligados à terra, mesmo que quiséssemos. Saímos da natureza há 65 anos e, desde então, toda a gente começou a desenvolver estas perturbações de saúde relacionadas com a inflamação".
Fundador da Earthing, uma empresa que fabrica tapetes, capas de colchão e almofadas de grounding, Ober tornou-se mais conhecido depois de aparecer no documentário "The Earthing Movie". Nele, relatou a história de um amigo de infância da tribo Cheyenne, no Montana, que tinha sido tratado de uma doença grave ao ser colocado numa cova na terra durante dias.
Ober disse que passou quase um mês no hospital em 1995, depois de um abcesso ter comprometido 80% da sua função hepática, e, quando saiu, jurou viver um estilo de vida mais saudável e natural.
A investigação financiada pela empresa de Ober mostra alguns benefícios, mas, até agora, a investigação independente sobre o grounding tem sido limitada. Nenhum estudo forneceu certezas que sustentem o movimento e as provas parecem ser ainda anedóticas.
"Não sou dono da ciência", disse Tickell. "Mas quando filmamos pessoas suficientes a ter mudanças de vida suficientes, pensamos: 'há aqui qualquer coisa'".
Ken Crenshaw, de 57 anos, é diretor de medicina desportiva e performance da equipa de basebol Arizona Diamondbacks. Diz que tratou jogadores com tapetes de grounding. Também dorme num em casa e tem até um em contacto com as mãos quando escreve no computador no escritório, o que significa que pratica grounding durante grande parte do dia, mesmo trabalhando num espaço interior.
Crenshaw disse à CNN que alguns jogadores se mostraram céticos porque não sentem nada a acontecer quando estão em contacto com os tapetes. "Mas se eu estiver a trabalhar convosco de um ponto de vista manual dos tecidos, sinto que altera a rapidez com que o tecido responde", afirmou. "É uma avaliação subjetiva? Sim, mas sinto que faz diferença".
Experimentar o grounding na primeira pessoa
Pouco depois de ter visto "The Earthing Movie" pela primeira vez, há alguns anos, lembro-me de passar por um homem mais novo num trilho na floresta. Estava descalço, aparentemente sem preocupações. Para fins de investigação, tirei também os sapatos.
O início não foi tão relaxante como esperava. Nunca tinha reparado na gravilha esmagada debaixo dos meus ténis no Parque Memorial Leita Thompson, em Roswell, mas fiquei surpreendido com a rapidez com que consegui navegar o terreno espinhoso assim que me habituei.
"Descalço! Uau!", exclamou uma senhora que parou de repente. Assegurei-lhe a ela e a outra mulher que não era maluco e que teria cuidado com os tocos de árvores e vidros partidos.
As palavras que realmente me marcaram vieram de um casal atrás de mim no trilho. "Aquele homem não traz sapatos", observou ele secamente. "Está a fazer grounding", respondeu ela, com total autoridade.
Nesse momento, senti que tinha entrado noutro mundo, um mundo em que contactar com a Terra não era uma atividade marginal, mas sim algo normal e totalmente compreendido.
Sinceramente, não esperava que acontecesse nada em resultado da minha caminhada descalça.
Mas notei uma mudança significativa e imediata. Normalmente acordo pelo menos uma ou duas vezes por noite, mas durante a semana seguinte dormi até de manhã sem qualquer interrupção. Foi o grounding ou outra coisa qualquer? Talvez caminhar na gravilha tenha acionado os pontos de pressão nos pés e me tenha dado uma espécie de tratamento de reflexologia natural. Não posso dizer com certeza, mas o meu sono melhorou definitivamente na semana seguinte.
Mat White tem algumas reflexões sobre a alteração na qualidade do meu sono. É psicólogo de saúde e ambiente na Universidade de Viena e dirige um projeto de investigação de 6,3 milhões de euros sobre resiliência biofísica para a União Europeia.
"Encontramos alguns dos efeitos que as pessoas do grounding relatam", explicou à CNN. "Mas não afirmamos que tenha algo a ver com correntes elétricas no solo".
"Existem muitas provas de boa qualidade que mostram que, quanto mais tocarmos fisicamente no ambiente natural, mais apanhamos um microbioma complexo", explicou. "Sabemos que um melhor microbioma é melhor para o intestino e para os mecanismos cerebrais que podem reduzir a inflamação e aumentar a função imunitária".
Como fazer grounding
É importante notar que, se tiver uma doença inflamatória crónica, deve consultar um médico antes de fazer grounding. O ar livre não é uma cura para tudo. Mas, independentemente do que pense sobre os seus méritos, os benefícios de simplesmente comungar com a natureza estão bem documentados.
A investigação de White estima que apenas duas horas ao ar livre por semana podem aumentar o bem-estar em 2%. Se isso não parecer muito, o investigador diz que a estimativa é uma média, o que significa que, para algumas pessoas, os benefícios podem ser muito superiores.
Se vai investir em equipamento de grounding como tapetes e lençóis, a única desvantagem parece ser o facto de ter gasto dinheiro em algo que pode não funcionar. Mas se for para a rua, com ou sem sapatos, o que tem a perder?
"Ninguém vai ter uma overdose de relva", brincou Tickell.
Fazer grounding, ou ligar-se à terra, não significa que tenha de rejeitar usar sapatos o tempo todo, como faz McAdams.
Pode ser tão simples como descalçá-los e dar um passeio na relva ou na terra. Pode brincar na areia da praia ou dar um mergulho no mar, num rio ou num lago. Até fazer jardinagem com as mãos nuas conta — só precisa de fazer contacto direto com a Mãe Natureza.