Trump diz que vai ter "acesso total" à Gronelândia, Rutte garante que não falaram de soberania: o que decidiram o presidente dos EUA e o líder da NATO?

22 jan, 22:31
Donald Trump e Mark Rutte em Davos (AP)

Segundo a CNN, que cita fontes próximas das negociações, Trump e Rutte chegaram a um acordo verbal, não tendo sido assinado qualquer documento que formalize um futuro acordo. Os principais interessados - Gronelândia e Dinamarca - não sabem de nada

O presidente dos EUA adiantou esta quinta-feira que o princípio de acordo alcançado com a NATO lhe garante “acesso total” à Gronelândia, embora, segundo o secretário-geral da Aliança Atlântica, a questão da soberania do território não tenha sido sequer abordada na reunião entre ambos, na quarta-feira, em Davos.

Apesar de ambos terem assinalado que as conversações em Davos foram “muito produtivas”, parece que Donald Trump e Mark Rutte saíram da reunião com entendimentos diferentes sobre o futuro da Gronelândia.

Os detalhes sobre o princípio de acordo não são claros - Trump sublinhou que o texto ainda está a ser negociado, confiando no vice-presidente JD Vance, no secretário de Estado Marco Rubio e no seu enviado especial Steve Witkoff para o efeito. Do outro lado, o secretário-geral da NATO garantiu que as negociações sobre o futuro da Gronelândia vão continuar entre os EUA, a Dinamarca e a própria ilha.

A clarificação de Rutte

Na quarta-feira, depois da reunião com Mark Rutte, à margem do Fórum Económico Mundial em Davos, Donald Trump anunciou que os dois chegaram a um entendimento para um “futuro acordo relativo à Gronelândia”. Com base nesse entendimento, Trump decidiu deixar cair a ameaça de novas tarifas sobre produtos importados da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia - países que compõem a “Operação Resistência Ártica”.

“Estão a decorrer discussões adicionais sobre a 'Golden Dome' no que diz respeito à Gronelândia”, acrescentou Trump, sugerindo um envolvimento do território, pertencente ao Reino da Dinamarca, no novo sistema de defesa antimíssil norte-americano, que está a ser desenhado pela Casa Branca.

Segundo a CNN, que cita fontes próximas das negociações, Trump e Rutte chegaram a um acordo verbal, não tendo sido assinado qualquer documento que formalize um futuro acordo. De acordo com a Bloomberg, o pacto depende do cumprimento da promessa de Trump de não avançar com as tarifas mencionadas acima.

Mais tarde, o secretário-geral da NATO garantiu, em entrevista à Fox News, que a questão da posse da Gronelândia por parte dos EUA “não foi abordada” durante a reunião. A discussão, explicou, centrou-se na ameaça da Rússia e da China naquela ilha - e sobre como impedi-la. “Ele [Donald Trump] está muito concentrado no que precisamos de fazer para garantir que essa enorme região do Ártico, onde estão a ocorrer mudanças neste momento, onde os chineses e os russos estão cada vez mais ativos, possa ser protegida”, afirmou Mark Rutte.

"Sentinela do Ártico"

O princípio de acordo abre caminho à NATO para reforçar a segurança na região do Ártico e afastar qualquer ameaça da Rússia e da China.

Mas o presidente dos EUA parece querer ir mais longe. Em entrevista à Fox News, ainda em Davos, o presidente norte-americano sublinhou que o acordo que está a ser negociado vai conferir aos EUA “acesso total” à Gronelândia. “Teremos tudo o que queremos, estamos a conseguir tudo o que queremos, sem nenhum custo”, frisou.

Na mesma entrevista, Trump concretizou que “uma parte” da Golden Dome vai ficar naquela ilha, descrevendo-a como “uma parte muito importante” do seu escudo de defesa antimíssil, “porque tudo passa pela Gronelândia”. “Se os inimigos começarem a disparar, passa pela Gronelândia”, observa, sublinhando que a ideia já vem da administração de Ronald Reagan, mas que, na altura, os EUA não tinham tecnologia para a materializar.

Questionado sobre o que implica este acordo, designadamente sobre se está prevista uma aquisição da Gronelândia, Trump respondeu que “os detalhes ainda estão a ser negociados, mas essencialmente é acesso total”. “Não há fim. Não há limite de tempo”, disse, resoluto.

Entretanto, a imprensa norte-americana vai divulgando alguns pormenores não oficiais sobre o que está a ser negociado. Na verdade, segundo o New York Times, as propostas em cima da mesa já estão a ser discutidas há, pelo menos, um ano, de forma a tentar amenizar as crescentes ameaças do presidente norte-americano.

De acordo com a Bloomberg, que cita um responsável europeu próximo das negociações, que não quis ser identificado, o princípio de acordo prevê o estacionamento de mísseis norte-americanos na Gronelândia, confere aos EUA direitos nas reservas minerais da ilha e reforça a presença da NATO no território. A ideia, segundo o New York Times, é criar uma nova missão da NATO no Ártico, com várias fontes a designarem-na por "Sentinela do Ártico", numa alusão às missões da Aliança Atlântica no Mar Báltico (Sentinela Báltica) e na Europa de Leste (Sentinela de Leste).

Outros três responsáveis, que falaram com o New York Times sob a condição de anonimato, revelam que uma das ideias que esteve em discussão implica a cedência da soberania da Dinamarca sobre pequenas áreas da Gronelândia, onde os EUA viriam a construir bases militares - um pouco à semelhança do estatuto de duas bases militares em Chipre, Akrotiri e Dhekelia, que são controladas pelo Reino Unido. Ainda assim, estas fontes citadas, que estiveram presentes na reunião, não sabem se esta ideia está incluída no princípio de acordo anunciado por Trump.

Ainda de acordo com o New York Times, Trump e Rutte ponderam impedir que os países que não pertencem à NATO, particularmente a Rússia e a China, obtenham direitos de exploração dos minerais de terras raras da Gronelândia.

Fontes próximas das negociações também adiantaram à CNN que está a ser equacionada uma atualização do acordo de defesa sobre a Gronelândia, assinado em 1951 entre os EUA e a Dinamarca.

A primeira reação da NATO

Confrontada com as declarações de Donald Trump aos jornalistas, a porta-voz da NATO, Allison Hart, garantiu que Mark Rutte “não propôs qualquer compromisso em relação à soberania” da Dinamarca na Gronelândia durante a reunião em Davos. “As negociações entre a Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos irão avançar com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca ganhem uma posição estratégica — económica ou militar — na Gronelândia”, reforçou, em comunicado.

Em entrevista à Reuters nesta quinta-feira, Mark Rutte negou que os direitos minerais tenham sido discutidos durante a reunião com Trump e insistiu que as discussões em curso visam impedir a ameaça russa e chinesa naquela que é a maior ilha do mundo no Ártico.

Para isso, os aliados da NATO vão ter de reforçar a segurança no Ártico, acrescentou Rutte, apontando que cabe agora aos comandantes da Aliança Atlântica trabalhar nos detalhes dos novos requisitos de segurança no território.

“Vamos reunir-nos na NATO com os nossos comandantes seniores para decidir o que é necessário”, declarou, estimando que o reforço da segurança no Ártico pode ter resultados já nos próximos meses: “Não tenho dúvidas de que podemos fazer isto muito rapidamente. Espero que seja em 2026, e até mesmo no início de 2026.”

Chefes militares da NATO admitem crescente ameaça russa e chinesa

Apesar do prazo estabelecido pelo secretário-geral da NATO, o comando militar da Aliança Atlântica ainda não recebeu nenhuma diretiva sobre o reforço da segurança no Ártico, adiantou esta quinta-feira o almirante Giuseppe Cavo Dragone, que aguarda orientações nesse sentido.

Em conferência de imprensa esta quinta-feira, o comandante supremo aliado da NATO na Europa, Alexus Grynkewich, admitiu que se tem verificado um aumento da cooperação entre a China e a Rússia na região, o que tem gerado preocupação.

“Vimos que, nos últimos anos, isso tem ocorrido tanto no domínio marítimo, com o aumento das patrulhas conjuntas, como no domínio aéreo, com patrulhas conjuntas de bombardeiros de longo alcance. Estamos constantemente a tentar melhorar a nossa postura e a pensar em formas de as nações poderem melhorar a nossa postura no Ártico”, sustentou Alexus Grynkewich.

Dinamarca e Gronelândia traçam "linha vermelha"

 O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, em conferência de imprensa a 13 de janeiro (AP)

A Dinamarca e a Gronelândia manifestaram desconforto com o facto de não terem sido convocadas para esta reunião. “A NATO está plenamente ciente da posição do Reino da Dinamarca. Podemos negociar tudo a nível político - segurança, investimentos, economia. Mas não podemos negociar a nossa soberania”, declarou a primeira-ministra dinamarquesa, esta quinta-feira.

“Fui informada de que não foi esse o caso. E, claro, apenas a Dinamarca e a Gronelândia podem tomar decisões sobre assuntos que dizem respeito à Dinamarca e à Gronelândia”, frisou, acrescentando que o Reino da Dinamarca continua disponível para estabelecer “um diálogo construtivo com os aliados” sobre o reforço da segurança no Ártico, “incluindo a 'Golden Dome' dos Estados Unidos” - “desde que isso aconteça no respeito pela nossa integridade territorial”, sublinhou.

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, por sua vez, disse estar “pronto para negociar” com os EUA, traçando também uma linha vermelha em relação à soberania da ilha.

“Estamos prontos para discutir muitas coisas e estamos prontos para negociar uma parceria melhor, entre outras coisas. Mas a soberania é uma linha vermelha”, respondeu, quando questionado sobre se a Gronelândia consideraria a possibilidade de os EUA reivindicarem a soberania de pequenas áreas do seu território.

“A nossa integridade, as nossas fronteiras e o direito internacional são definitivamente uma linha vermelha que não queremos que ninguém ultrapasse”, reforçou, acrescentando que ainda não conhece os detalhes sobre o princípio de acordo alcançado entre Donald Trump e Mark Rutte.

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