Trump diz que vai enviar navio-hospital para a Gronelândia. Ilha responde "não, obrigado" e lembra que a saúde não se paga

CNN , Riane Lumer e Aleena Fayaz
23 fev, 11:56
Donald Trump (Alex Brandon/AP)

Trump diz que vai enviar navio-hospital para a Gronelândia. Ilha responde

A publicação de Trump surge depois de o Comando Conjunto do Ártico da Dinamarca ter anunciado, no sábado, que evacuou de um submarino norte-americano em águas da Gronelândia um tripulante que necessitava de tratamento médico urgente

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no sábado que vai enviar um navio-hospital para a Gronelândia, território dinamarquês que tem manifestado interesse em adquirir, apesar de a ilha do Ártico ter dito que não quer essa ajuda.

“A trabalhar com o fantástico governador do Luisiana, Jeff Landry, vamos enviar um grande navio-hospital para a Gronelândia para cuidar das muitas pessoas que estão doentes e não estão a ser tratadas lá. Está a caminho!!!”, escreveu o presidente na sua rede social, juntamente com uma imagem ilustrativa do navio-hospital da Marinha norte-americana USNS Mercy.

Não é claro a que se referia Trump na publicação, uma vez que a Gronelândia e a Dinamarca têm sistemas de saúde públicos e universais.

A CNN contactou a Casa Branca e o gabinete de Landry para obter mais detalhes. O Pentágono encaminhou as questões para o Comando Norte dos EUA, que por sua vez as remeteu para a Marinha norte-americana. A Marinha não respondeu ao pedido de comentário.

Landry, que Trump nomeou em dezembro como enviado especial para a Gronelândia, afirmou nas redes sociais estar “orgulhoso de trabalhar” com o presidente “nesta questão importante”.

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, respondeu com um “não, obrigado” num comunicado divulgado após o anúncio de Trump.

“A ideia do presidente Trump de enviar um navio-hospital americano aqui para a Gronelândia foi registada. Mas temos um sistema de saúde público em que o tratamento é gratuito para os cidadãos”, afirmou Nielsen. “É uma escolha deliberada — e uma parte fundamental da nossa sociedade. Não é assim que funciona nos EUA, onde é preciso pagar para consultar um médico.”

O governante sublinhou que a Gronelândia está “aberta ao diálogo e à cooperação”, mas fez um pedido: “Por favor, falem connosco em vez de fazerem declarações mais ou menos aleatórias nas redes sociais. O diálogo e a cooperação exigem respeito pelo facto de que as decisões sobre o nosso país são tomadas aqui, em casa.”

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, defendeu no domingo o sistema de saúde do país, escrevendo no Facebook que estava “feliz por viver num país onde há acesso gratuito e igualitário à saúde para todos, onde não são os seguros e a riqueza que determinam se se recebe tratamento adequado”, segundo a Associated Press.

A publicação de Trump surge depois de o Comando Conjunto do Ártico da Dinamarca ter anunciado, no sábado, que evacuou de um submarino norte-americano em águas da Gronelândia um tripulante que necessitava de tratamento médico urgente. O tripulante foi entregue às autoridades de saúde da ilha e transferido para um hospital em Nuuk.

A Marinha dos EUA dispõe de dois navios-hospital móveis, o USNS Mercy e o USNS Comfort, que apoiam tropas durante destacamentos e prestam serviços em operações de ajuda humanitária e resposta a desastres. No auge da pandemia de covid-19, em 2020, a Marinha destacou o USNS Comfort para Nova Iorque, então epicentro do surto nos Estados Unidos.

O USNS Mercy encontra-se atracado em Mobile, no estado do Alabama, segundo o site de rastreamento marítimo Marinetraffic.com. Não é claro onde está o USNS Comfort, embora o mesmo site indicasse que também se encontrava em Mobile no início deste mês.

Nenhum dos dois navios aparenta estar pronto para uma mobilização imediata.

Estrategicamente localizada, a Gronelândia é o território menos densamente povoado do mundo e, devido à limitada rede rodoviária, os seus 56.000 habitantes deslocam-se entre as localidades da ilha de barco, helicóptero e avião. Os Estados Unidos têm uma base militar na Gronelândia, a Pituffik Space Base, situada na costa oeste da ilha.

A publicação de Trump surge um mês depois de a sua intensificação dos esforços para adquirir a Gronelândia ter abalado aliados europeus, ao afirmar que os EUA não aceitariam nada menos do que o controlo total do território.

No final de janeiro, Trump anunciou “o enquadramento de um futuro acordo” sobre a Gronelândia com o secretário-geral da NATO, mas o interesse contínuo na ilha do Ártico levanta questões sobre a soberania da Gronelândia.

A ideia de liderança norte-americana tem inquietado muitos groenlandeses, incluindo o engenheiro municipal Ludvig Petersen.

Em declarações anteriores à CNN, Petersen explicou que a sua principal objeção a um eventual controlo americano prende-se com a questão da saúde privada.

“Não gosto da ideia de nos tornarmos parte da América”, afirmou. “A minha principal preocupação é toda esta privatização da saúde e da educação. Não é algo a que estejamos habituados.”

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