A ameaça implícita de desinvestimento coordenado em dívida americana pela Europa provocou turbulência nos mercados e forçou Trump a recuar rapidamente, anunciando um acordo vago com a NATO sobre a maior ilha do mundo
Donald Trump recuou. Depois de dias a admitir a hipótese de uma invasão militar para conquistar o território de um país aliado, insistir na compra da Gronelândia e fazer sucessivas ameaças de novas tarifas, o presidente dos Estados Unidos da América anunciou um "quadro de acordo" com a NATO e suspendeu as sanções. O acordo e os seus detalhes são vagos, mas para os especialistas o resultado é claro: Donald Trump recuou porque a Europa decidiu mudar de estratégia e apontar-lhe uma arma demasiado potente para ignorar - e que poderia impactar diretamente a vida de milhões de americanos.
"Os europeus ameaçaram vender dívida americana e Trump prestou atenção. Este é o verdadeiro instrumento nuclear, mais do que o sistema de anti-coerção. Teria um impacto brutal (...). Vimos o que aconteceu aos mercados só com a ameaça de venda", explica Manuel Serrano, analista de Política Internacional e Assuntos Europeus.
Na terça-feira, um dia antes do encontro de Davos, na Suíça, que juntou alguns dos principais líderes mundiais, os mercados estavam em queda livre, depois de o líder de um fundo de pensões dinamarquês ter sugerido que ia vender a dívida americana, questionando a sua sustentabilidade. O resultado foi imediato e as taxas de juro da dívida americana a 10 e 30 anos atingiram os níveis mais altos desde setembro.
A mensagem era clara. A ideia de que a Europa podia começar a reduzir a exposição no mercado da dívida americana estava a assustar os investidores, que olhavam agora com mais incerteza para a dívida americana. E só esse receio foi suficiente para disparar o preço que os americanos têm de pagar pela dívida. E não é para menos. A União Europeia, como um todo, é de longe o maior credor americano, com oito biliões de dólares de dívida americana. Mais do dobro de todos os outros países do mundo.
Enquanto em Davos o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentava desvalorizar a venda de títulos por um fundo dinamarquês, qualificando-a de "irrelevante", a reação do presidente americano no canal Fox Business contava outra história. Com um tom notoriamente incomodado, Donald Trump prometeu uma "grande retaliação" caso a Europa se começasse a desfazer da dívida americana, alegando ter ao seu dispor "todas as cartas".
Um dano incontrolável
Mas a retórica agressiva esbarrou na matemática. Poucas horas depois da entrevista, Trump aterrava em Davos para anunciar que o conflito estava resolvido. A mudança brusca de postura terá uma explicação simples, o presidente percebeu que, se a Europa levasse a ameaça avante, o dano seria incontrolável.
Uma venda coordenada de dívida por parte dos europeus inundaria o mercado de títulos, forçando uma subida vertiginosa das taxas de juro de referência nos Estados Unidos. Na prática, como os Treasuries servem de base para quase todo o sistema financeiro, isto provocaria um efeito dominó imediato na economia real, com o crédito à habitação a ficar mais caro, os juros dos cartões de crédito a dispararem e o financiamento para a compra de automóveis a tornar-se incomportável para a classe média. Para Trump, que baseia o seu discurso de sucesso na prosperidade económica do país, o choque de juros em ano de eleições poderia trazer consequências políticas para o partido do presidente.
"Se há coisa com que os EUA se importam é com a economia interna. (...) Donald Trump está também preocupado com a sua popularidade no país, que está em queda. Mas não está em queda devido à política externa, é sobretudo por política interna: economia, custo de vida e saúde", aponta Nuno Gouveia, especialista em Relações Internacionais.
Mas os problemas financeiros para a Casa Branca causados pela venda de títulos do tesouro traria um risco ainda maior: o contágio. Se a União Europeia, o maior e mais fiável parceiro dos EUA, começar a tratar a dívida americana como um ativo tóxico ou uma arma política, isso enviaria um perigoso sinal para o mundo.
Katie Koch, CEO da gestora TCW, alertou que isso poderia iniciar um período que apelidou de "quiet quitting" (abandono silencioso) do mercado obrigacionista americano. Outros países, como o Japão ou a China, e investidores globais poderiam seguir o exemplo europeu e começar a diversificar as suas carteiras, retirando o estatuto de "refúgio seguro" ao dólar e à dívida dos EUA. Trump pode ter percebido que, ao esticar a corda com Bruxelas, podia quebrar não só a relação com os países europeus, mas também arrastar consigo a confiança global que sustenta o défice americano.
"Penso que talvez [os líderes europeus] tenham percebido que, com Donald Trump, não podem estar sempre a ceder. (...) Os países europeus perceberam que às vezes é preciso endurecer", sugere Nuno Gouveia.
Este volte-face pode mesmo marcar uma mudança de postura dos líderes europeus no seu contínuo braço de ferro com os Estados Unidos de Donald Trump. Ao longo do primeiro ano de mandato do 47.º presidente americano, a Europa tentou repetidas vezes apaziguar as exigências americanas, como quando aceitaram incondicionalmente as condições impostas pela Casa Branca na cimeira da NATO, em Haia, para aumentar os gastos da defesa para 5% do PIB. Mas o resultado foi contraproducente, e as críticas americanas nunca pararam.
O mesmo aconteceu com a decisão do Parlamento Europeu de suspender a ratificação do acordo comercial com os EUA ou o envio simbólico de forças militares para exercícios conjuntos na Gronelândia que não só não dissuadiram o presidente americano, como parecem ter servido de combustível para a escalada. Para os especialistas, isto acontece porque a Europa apostou no "ataque" em áreas que os Estados Unidos dominam quase por completo. A prova disso foi a sua reação imediata a estas primeiras medidas, ameaçando impor tarifas adicionais de 10% a oito países europeus.
"Militarmente? Não teríamos capacidade. A maior vantagem que temos com eles é económica", defende Nuno Gouveia, que acredita que combater o poderio americano com demonstrações de força no Ártico era uma batalha perdida logo à partida.
Uma saída airosa?
O anúncio de um "quadro de acordo" sobre o Ártico, cujos detalhes permanecem escassos e vagos, é interpretado pelos analistas como a manobra clássica para salvar a face,um fenómeno que Wall Street já apelidou ironicamente de TACO (Trump Always Chickens Out, Trump Acobarda-se Sempre na tradução).
"Já sabemos que o presidente propõe uma lógica inaceitável e depois propõe algo um bocadinho melhor e as pessoas respiram de alívio. Trump pode estar a tentar encontrar uma forma airosa para sair deste conflito com a União Europeia", considera Manuel Serrano.
Ainda assim, mesmo com o arrefecer das tensões imediatas, a relação entre os Estados Unidos e a Europa sai deste episódio irremediavelmente alterada. A Europa pode ter compreendido que a sua segurança já não depende apenas da "proteção" americana, mas da sua capacidade de utilizar as suas próprias armas para se defender de aliados que a tratam "como adversários" .
"Temos de saber o mundo em que vivemos, tratam-nos como adversários e não como aliados. Se as regras não nos protegem, temos de nos proteger a nós próprios", alerta Manuel Serrano.