Uma ofensiva militar dos EUA na Gronelândia abriria portas a uma "nova desordem mundial". Mas os especialistas militares ouvidos pela CNN Portugal lembram que até uma superpotência "precisa de aliados"
As ameaças de Donald Trump têm obrigado a comunidade internacional a um estado de alerta quase permanente, especialmente depois de o presidente norte-americano ter cumprido a promessa de intervir militarmente na Venezuela. De olhos postos no próximo alvo dos EUA - a Gronelândia -, várias potências europeias já começaram a mobilizar tropas para a ilha dinamarquesa naquilo que os especialistas descrevem como uma “manobra para esvaziar o argumento americano”.
A Europa está a tentar “contrariar a alegação da administração americana de que a Gronelândia está em perigo e de que a China ou a Rússia vão tomá-la rapidamente”, explica à CNN Portugal o tenente-general Rafael Martins. Para retirar legitimidade ao argumento de uma eventual invasão russa ou chinesa, as forças europeias estão a utilizar um “instrumento militar”, que reforça a segurança do território, mas serve “essencialmente para aplicar pressão política”, ao mesmo tempo que tentam “dissuadir a administração americana de adotar a via da força”, realça o especialista militar.
A “grande dúvida”, alerta o tenente-general Marco Serronha, é se o dispositivo militar europeu “é suficiente para obrigar os Estados Unidos a uma solução negociada que cubra em parte os interesses norte-americanos e que não resulte na alteração da soberania, neste caso, da Dinamarca e no futuro da própria Gronelândia”.
Por esta altura, já se encontram em território gronelandês contingentes militares dinamarqueses, franceses e alemães, aos quais se vão juntar militares da Suécia, da Noruega e dos Países Baixos. Ainda assim, o reforço dos aliados não parece demover Donald Trump dos seus objetivos. Em declarações aos jornalistas, na quinta-feira, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, sublinhou que “o presidente tornou clara a sua prioridade: quer que os Estados Unidos adquiram a Gronelândia" em nome da "segurança nacional".
E enquanto as forças europeias se preparam para realizar exercícios conjuntos com a Dinamarca, a probabilidade de os EUA avançarem para um confronto físico é, no entender de Rafael Martins, “muitíssimo baixa”. Para o também comentador da CNN Portugal Marco Serronha, mais do que uma probabilidade, é uma “certeza”: “Isso não vai acontecer.”
“Tenho sérias dúvidas de que [um conflito armado] vá acontecer, até porque Donald Trump não é partidário de confrontações militares e, se por acaso esse combate existisse, teria sérias baixas para os dois lados, inclusive para os Estados Unidos, porque nós temos forças armadas europeias que também estão bem equipadas”, reforça o tenente-general Marco Serronha.
“Não seria sensato”, resume Rafael Martins, que reconhece uma estratégia expansionista da superpotência americana, mas não acredita que esta “esteja disposta a prescindir da NATO”.
“Acho que a NATO ainda é significativamente importante para a segurança mundial, inclusivamente dos EUA, e para alguma estabilidade, em função daquilo que é a estabilidade mundial”, sublinha.
O também especialista militar da CNN Portugal, major-general Jorge Saramago, admite que “existe sempre” a possibilidade de, no limite, se uma parte não vir satisfeitas as suas ambições depois da negociação diplomática, procurar impô-las ao outro pela via da força, mas “é pouco provável” que isso aconteça, até porque os EUA vão querer avaliar os custos e benefícios de uma tal operação, defende.
“Desde logo há o risco de perderem efetivamente os seus aliados europeus - e mesmo uma superpotência precisa de aliados”, acrescenta, garantindo que, uma vez empregada a força, a retaliação por parte dos países que têm tropas estacionadas na Gronelândia é certa. “Isso também não é do interesse dos EUA, por isso é que estou convencido de que não vai haver guerra nenhuma.”
Na análise de Jorge Saramago, as ameaças do chefe de Estado norte-americano não passam de um “gesticular político” para pressionar a Dinamarca e os Estados Europeus. De acordo com o comentador, não se chegará a um confronto militar “porque isso não é necessário” tendo em conta os objetivos de Trump.
“Os Estados Unidos conseguem garantir o acesso aos recursos através de acordos bilaterais com a Dinamarca, através de uma negociação política e mesmo através da Aliança Atlântica, de que são o maior motor”, reforça.
A falta de um reforço militar por parte dos EUA pode mesmo ser incriminatória, explica o especialista militar. “Ninguém vê essa ameaça de que os EUA falam, nem eles próprios, porque senão já teriam reforçado a atual missão militar que têm na Groenlândia com mais tropas, por isso aquilo que está em causa é outra coisa diferente.”
Vitória dos EUA é "inquestionável" se decidirem avançar
Segundo os especialistas da CNN Portugal, é tão certo que não haverá um conflito armado como é certo que, se o houvesse, os EUA seriam os grandes vencedores.
O tenente-general Rafael Martins reconhece que na Europa existem países com forças “muito significativas”, mas comparativamente àquilo que é a força militar americana, os EUA “teriam uma superioridade”.
“A força militar americana está muito melhor integrada. As europeias não têm a mesma frescura, vitalidade nem o mesmo grau de integração, a nível aeronaval, da marinha e terrestre. Portanto, é um grau de operacionalidade elevado, uma superioridade tecnológica e na capacidade de fogo”, reforça.
Os destacamentos militares norte-americanos têm aumentado em função das intervenções de Donald Trump no estrangeiro. É exemplo disso o bloqueio naval feito ao largo da Venezuela nas Caraíbas e o estacionamento de aeronaves nas bases dos EUA espalhadas por todo o Médio Oriente. Ainda perto dessa região estava destacado no Mar do Sul da China um grupo de ataque de porta-aviões - o USS Abraham Lincoln -, que recebeu na quinta-feira uma ordem de retirada por parte do Pentágono. De acordo com o South China Morning Post, o seu novo destino é o Médio Oriente, onde até à data não se encontrava nenhum porta-aviões americano.
“Têm forças em todas as regiões do globo, por isso é que são uma superpotência”, e se fosse necessário estender a capacidade operacional à Gronelândia, afirma Jorge Saramago, “não seria uma dificuldade para os EUA”.
“Isso é inquestionável”, continua, reconhecendo que apesar de estarem em todo o lado “não estão em combate no terreno em nenhuma das regiões”.
Para o major-general é tudo uma questão de gestão dos tempos. “Os Estados Unidos não estão a atacar o Irão, nem estão a atacar a Venezuela. Têm de ter presença militar para manter a pressão, mas têm capacidade de reforçar o seu dispositivo na Gronelândia”, volta a sublinhar.
Ainda assim, reconhece, os meios “não são infinitos” e a manutenção do dispositivo que têm nas Caraíbas “terá reflexos na eventual necessidade de movimentar meios militares para o Médio Oriente”, no caso de os EUA quererem conduzir uma operação no Irão: “Terão de equacionar se é mais vantajoso mudar o porta-aviões que está nas Caraíbas por causa da Venezuela e levá-lo para o Golfo Pérsico ou se o melhor é desviar um porta-aviões do Mar do Sul da China para ir para a região”, o que acabou por acontecer.
Já Marco Serronha acredita que uma das maiores vantagens dos EUA face aos europeus é a sua capacidade de projeção estratégica. “Eles têm capacidade de projetar as unidades mais qualificadas em largo volume e em pouco tempo, coisa que os europeus não têm. A Europa para pôr lá 100 mil homens precisa de toda a gente a participar e com muita gente a querer participar”, sublinha.
“Aos EUA basta-lhes ter um porta-aviões”, remata Rafael Martins. “Eles projetam pelo meio aéreo milhares de forças e posicionam-nas tanto junto à costa como por via aérea, num espaço de dias”, avisa o especialista militar, que considera esta uma força suficientemente dissuasora para que a Europa tivesse de se configurar a um nível “muito superior àquilo que neste momento se antevê”. Quanto à possibilidade de os EUA efetivamente lançarem uma operação armada, o especialista garante que estaríamos perante o princípio de uma “nova desordem mundial”.
Numa eventual intervenção a nível militar, Marco Serronha aponta a falta de preparação dos EUA para operar em ambientes nórdicos como uma das poucas fragilidades.
“Os EUA têm capacidade militar suficiente para um confronto desta natureza, mas é um território muito complexo. É gelo e não sei até que ponto os Estados Unidos têm unidades preparadas para operações naquele tipo de ambiente, sendo um ambiente onde outros países, especialmente os países nórdicos da NATO, estão muito treinados.” Seria essa a vantagem de países como a Suécia, a Noruega e a Finlândia, formatados para o combate nestes ambientes, destaca o especialista.
"A popularidade de Trump já teve melhores dias"
Os especialistas voltam a estar de acordo no que toca às desvantagens que uma anexação pela via da força traria a Donald Trump. O tenente-general Marco Serronha chama a atenção para o facto de existirem “muitos americanos, mesmo congressistas republicanos e senadores, que não são partidários desta opção”, sendo provável que se crie uma tensão interna nos Estados Unidos “que não interessa a Trump, num ano em que vai ter eleições intercalares”.
Marco Serronha recorda ainda que o líder norte-americano terá ganho as eleições com várias promessas, mas entre elas estava a de acabar com todas as intervenções externas dos EUA. “Disse que mandava regressar uns e que fechava as bases no Médio Oriente e isso não está a acontecer, com base numa argumentação de segurança”, reflete o comentador, acrescentando que Donald Trump está a participar em assuntos estrangeiros e a projetar mais soldados para o exterior do que os anteriores presidentes.
“A popularidade de Trump também já teve melhores dias”, corrobora o major-general Jorge Saramago, referindo-se à percentagem de republicanos que já se terá associado aos democratas com o objetivo de “proibir o uso dos fundos federais para facilitar a invasão ou a anexação da Gronelândia”. Até agora, Donald Trump beneficia de uma maioria no Congresso e no Senado, mas se perder nas eleições que se avizinham, lembra, “não terá oportunidade de continuar a esticar indefinidamente, como tem feito, o instrumento militar para alterar as relações de forças em vários países do mundo”.
O processo de negociação que Trump e as potências europeias anteveem “não será fácil”, alerta o tenente-general Marco Serronha, uma vez que o envio das tropas europeias “não está a ser feito contra os Estados Unidos, mas sim para garantir a segurança da Gronelândia”. Se esse argumento cair por terra, diz o especialista, o presidente norte-americano “vai ter de mudar de discurso”, alegando que os seus interesses se concentram nos recursos naturais e não na segurança da ilha - “e isso é sempre uma vulnerabilidade para ele”.