Uma coisa é ser um gigante económico e anão militar em tempos de paz. Outra, muito diferente, é ser o que somos perante as ameaças de anexação da Gronelândia. E outra, ainda mais ingrata, é estar na pele de María Corina Machado depois do triplo ataque na Venezuela
Nada me produz mais calafrios, nem me deixa mais preocupado e mal disposto, do que ver dignitários de todos os tamanhos e pelames a baixar a cabeça, e fletir os joelhos, perante o novo emperador mundial, Donald Magno, Gengis Trump — ou, como eu prefiro chamá-lo, o Poderoso Chefão. O título do mais famoso romance de Jean-Paul Sartre descreve o que senti ao ler as mensagens do secretário-geral da NATO, o simpático neerlandês Mark Rutte, na cimeira em que Luís Montenegro acedeu, sem pestanejar, a aumentar progressivamente (até 5% do PIB) o contributo anual para a organização (a percentagem gasta em 2024 foi de 1,55%; a Espanha gastou 1,28% e a Itália 1,49%). Isto numa altura em que os portugueses assistem, impotentes, ao auge dos nascimentos nos furgões dos bombeiros e às mortes de cidadãos — com ou sem pulseiras coloridas — à espera de cuidados que não chegam, entre outras misérias do SNS.
A tibieza do Governo da AD na NATO, em Gaza ou na Venezuela contrasta, já agora, com a firmeza e a liderança do vizinho espanhol, liderado pelo sempre polémico e denegrido — mas determinado e eloquente — Pedro Sánchez. Mas não é só Montenegro que fica mal na foto. As palavras nauseabundas de Rutte para Trump na cimeira de Haia, em junho do ano passado, foram estas: "A Europa vai pagar à GRANDE e será uma vitória tua". Nessa mesma cimeira, tinha-o tratado como 'daddy' numa conversa sobre o conflito israelo-iraniano: "O paizinho às vezes tem de usar uma linguagem forte". Mas 'daddy' porquê? Porque Trump tinha acabado de comparar Israel e Irão com crianças que brigam no recreio da escola.
Na penúltima provocação contra o presidente francês, o "paizinho" declarou, na primeira semana de 2026, o seguinte: "O Emmanuel disse-me: 'Donald, tens um acordo. Eu adoraria aumentar os preços dos meus medicamentos em 200% ou o que for. Seria uma grande honra. O que quiseres, Donald, por favor. Não digas nada à população. Por favor, Donald, imploro-te.'". E, mesmo sem declarações sarcásticas ou indecentes pelo meio (mas com muitos sorrisos amarelos e polegares erguidos), Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (supostamente o Executivo comunitário, embora ninguém a veja ou trate como primeira-ministra dos 27), viajou até Turnberry (Escócia) no verão passado para assinar um acordo comercial humilhante num dos campos de golfe do emperador.
A União Europeia, um projeto para a paz
A UE é um projeto eminentemente económico. A lógica inicial consistiu em reforçar os laços comerciais para criar um tecido de relações e interesses tão denso e mutuamente benéfico que tornasse a guerra inimaginável, irrepetível. Sobre este assunto, vale a pena ouvir as palavras do ator Roberto Benigni emitidas por uma televisão italiana pouco antes do natal: "A guerra não é uma coisa 'malvada', porque as coisas malvadas ainda provocam um certo fascínio; a guerra é vulgar, é uma vulgaridade imensa. As pessoas que a fazem são vulgares. (...) O mundo deve repudiar a guerra para sempre. É uma indecência, é uma coisa horrível, é uma vulgaridade".
Em torno dessa primigénia matriz pacifista, foram crescendo uma série de estruturas políticas e judiciais. Surgiram um Parlamento e uma Comissão, um Conselho Europeu, e até um grandiloquente Tribunal de Justiça da UE, que rivaliza na sua ineficácia com o Tribunal Internacional de Justiça da ONU (para julgar Estados) e o Tribunal Penal Internacional (com competência para julgar indivíduos).
Talvez sejam pouco eficazes, mas pelo menos existem. Também temos um Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), ligado ao Conselho da Europa e integrado por 46 estados-membros (a Rússia foi expulsa da organização em 2022); seja como for, o Conselho da Europa, que é a organização intergovernamental mais antiga do continente, não pode criar leis vinculativas. Alguns especialistas em direito internacional consideram o TEDH o tribunal internacional de direitos humanos mais eficaz do mundo. No entanto, alguns dos veredictos não foram implementados pelos estados-membros e, aconteça o que acontecer, não servirá para enfrentar potenciais violações dos direitos humanos na Gronelândia, que faz parte do Conselho da Europa mas não da União Europeia.
A integração militar europeia foi timidamente abordada, e eternamente adiada, por causa do guarda-chuvas da NATO. Agora, perante a dupla ameaça da Rússia (e a sua guerra híbrida) e do Poderoso Chefão (e a sua personalidade alcoólica e belicista), temos de repensar tudo e preparar a União Europeia para a Nova Desordem Mundial. Uma coisa é ser um gigante económico e anão militar em tempos de paz. Outra, muito diferente, é ser o que somos perante as ameaças de anexação da Gronelândia. E outra, ainda mais ingrata, é estar na pele de María Corina Machado depois do triplo ataque na Venezuela: contra o chavismo, que pretende transformar em regime lacaio; contra a população, à qual quer roubar os recursos naturais e as aspirações democráticas; e contra a oposição, liderada corajosamente por Corina Machado.
O percurso de Corina Machado
A prémio Nobel da Paz 2025 lutou contra o chavismo praticamente desde o início do século. Em 2001, cofundou uma organização civil porque estava preocupada com o rumo da Venezuela, presidida por Hugo Chávez desde 1999. Em 2004, amparada pela Constituição (modificada por Chávez meses depois de chegar ao poder), organizou um referendo revocatório para tirar a sua némesis do Palácio de Miraflores. Perdeu. Em 2010, foi eleita deputada. Um ano mais tarde, sofreu um atentado em Caracas. Sobreviveu. Meses antes tinha denunciado, na Assembleia Nacional, o "comunismo à cubana" do regime e a péssima gestão do petróleo — um recurso que, apesar do contexto favorável (120 dólares o barril), não impediu que a dívida pública venezuelana quadruplicasse.
Em 2023, foi eleita representante da oposição com 92,65% dos votos. Mesmo impossibilitada por Nicolás Maduro de ser candidata às presidenciais, ganhou as eleições por interposta pessoa: o diplomata reformado Edmundo González. O resto é conhecido: González ganhou com dois terços dos votos, o regime proclamou-se vencedor apesar das provas em sentido contrário (a oposição mobilizou-se para compilar 81,85% das atas, um trabalho reconhecido pelo Comité Nobel Norueguês), e Machado passou à clandestinidade. González exilou-se em Madrid e Maduro usurpou o poder como se nada fosse.
Depois da extirpação hollywoodiana de Maduro, Machado deixou passar uns dias para digerir o choque de ter sido preterida em favor de Delcy Rodríguez, ex-ministra do Petróleo — a única pasta com verdadeiro interesse para Trump. Na mesma semana, visitou o Papa no Vaticano e, a 15 de janeiro, foi finalmente recebida na Casa Branca, onde deixou a medalha do Nobel nas mãos do anfitrião — e, de passagem, boa parte do prestígio alcançado em Oslo um mês antes, com a concessão do prémio.
Firmeza e persuasão
Eu percebo a revolta do Comité Nobel e de inúmeros simpatizantes da causa venezuelana em todo o mundo, que definiram o gesto como uma "falta de respeito", algo "patético", "insólito" e "ridículo". Também houve quem sublinhasse a generosidade de Machado "por antepor a liberdade do povo [venezuelano] ao ego pessoal".
Não vou elogiar um ato de bajulação ao tirano, mas posso entender o pragmatismo, e a visão a longo prazo, de Machado. Que alternativa tinha? É verdade que o sequestro de Maduro foi uma operação ilegítima e brutal, mas o regime que ela combate há décadas não é menos brutal e ilegítimo — basta pensar nas torturas da prisão caraquenha do Helicoide, a mais temida do país, ou na prisão de Tocorón, em tempos governada por reclusos que chegaram a ter piscina, zoo e campo de beisebol.
Tal como Rutte, Corina Machado parece ter percebido os novos tempos e a melhor forma de lidar com Trump: fazendo-lhe as vontades, ou pelo menos fingindo que as faz, dizendo que gosta dele e oferecendo-lhe prendas e elogios para conseguir, pelo menos, alguns dos objetivos traçados — tendo em conta as circunstâncias e o perfil psicológico do déspota.
Confrontar o Leviatã é perigoso (Maduro que o diga). Rutte, o bajulador-mor, alega que a submissão é uma táctica para abordar o volátil presidente dos EUA, que conhece há anos. "Rutte fala [a língua de] Trump", resume a alta representante para a Política Externa da UE, Kaja Kallas. Por mais triste que seja o espetáculo, pode vir a ser uma estratégia conveniente numa altura em que a NATO está em risco de implosão por causa das ameaças de anexação da Gronelândia.
Sinais de mudança
Também percebo, até certo ponto, a passividade ou paralisia da UE, porque surgiu para construir uma paz duradoura na Europa e não para lidar com a traição ou a deserção de Washington. As palavras de ordem sempre foram coesão, integração, alargamento. Nunca rearmamento.
O envio de tropas de sete parceiros europeus para fazer manobras militares conjuntas com a Dinamarca na maior ilha do mundo manda uma mensagem de firmeza ao Chefão, que reagiu com novas ameaças de tarifas (10% em fevereiro e 25% a partir do segundo semestre do ano) aos países envolvidos. As tarifas anunciadas poriam em causa, precisamente, o acordo assinado em julho em Turnberry, que garantia tarifas "zero" para os EUA na UE — mas que ainda não entrou em vigor e pode ser revogado.
Pela primeira vez, a Europa está a mandar sinais de reação e rebelião contra as ameaças. Ao mesmo tempo, tenta persuadir Trump sugerindo um reforço da presença norte-americana na ilha, seja com mais bases militares (resta apenas uma das 17 que chegou a haver durante a Guerra Fria), seja com contratos de exploração num vasto território desabitado e gelado (cada vez menos) onde abundam os minerais críticos (cada vez mais decisivos) e outras riquezas. E tudo isto no seio da NATO e do acordo militar dos EUA com a Dinamarca, assinado em 1952.
Quem também está a aprender a fazer malabarismos é Delcy Rodríguez, que mantem um discurso esquizofrénico: de portas para dentro, garante que não vai entregar de mão beijada o petróleo e a soberania dos venezuelanos; ao mesmo tempo, negoceia com a Casa Branca para ganhar tempo, enquanto acata mudanças impostas em vários âmbitos, incluindo remodelações no Governo e, claro está, limitações no negócio do crude e outras transações com países na lista negra de Trump: Cuba, Irão, China. Delcy acusa Machado de "ajoelhar-se" perante Trump. Mas não diz se a primeira leva de petróleo que prepara para o captor de Maduro terá 30 ou 50 milhões de barris.