ENTREVISTA || Continua tudo em aberto: perante o "desacordo fundamental" entre EUA, Dinamarca e Gronelândia, os europeus parecem prontos para defender a maior ilha do mundo com tudo o que têm - mas também "é difícil imaginar Trump a recuar nesta fase", ressalta à CNN Klaus Dodds, especialista em geopolítica e coautor de um importante livro sobre "a luta pelo futuro do Ártico"
Quando contactamos Klaus Dodds, o professor universitário está a chegar a Copenhaga para um encontro dedicado à Gronelândia, um dos temas quentes da geopolítica desde o início do ano e o fio condutor desta entrevista.
No regresso a Londres, o reitor interino da Universidade de Middlesex e coautor do livro Unfrozen: The Fight for the Future of the Arctic (2025) diz à CNN que "os dinamarqueses e os gronelandeses estão chocados e ninguém espera que este assunto seja resolvido em breve".
"Isto causou realmente um grande impacto no reino", adianta o especialista em geopolítica. "A Dinamarca foi um dos primeiros países a expressar o seu apoio aos EUA após o 11 de Setembro [quando o país invocou o artigo 5.º da NATO] e há uma sensação palpável de traição da mais alta ordem."
Há muitos argumentos para tentar explicar o interesse de Trump em controlar a Gronelândia – nomeadamente por questões de "segurança nacional". Contudo, a alegação de Trump sobre as forças militares da Rússia e da China estarem à espreita ao redor da ilha já foi desmentida pelos especialistas. O que pensa sobre isto?
A China e a Rússia são uma preocupação muito maior do outro lado do Ártico, ao redor do Alasca, por causa das suas patrulhas marítimas e aéreas conjuntas. Trump está preocupado que eles possam começar a reunir-se em maior número e frequência no lado da Gronelândia e do Canadá. Ele acredita que tanto o Canadá quanto a Gronelândia são incapazes de defender o Ártico norte-americano.
A Gronelândia e a busca por ela são impulsionadas por uma série de fatores, mas acredito que esse desejo de domínio do hemisfério ocidental é poderoso, juntamente com o desejo de Trump de ajudar a tornar a América grande novamente, expandindo-a [territorialmente].
Outro argumento invocado muitas vezes para explicar o seu interesse na ilha prende-se com os minerais críticos que o degelo está a deixar a descoberto – mas também aqui vários especialistas ressaltam que a extração desses recursos seria extremamente difícil e dispendiosa…
Os minerais são um jogo de longo prazo e as perspetivas para a Gronelândia são modestas — os EUA têm desenvolvimentos minerais muito mais promissores [noutras regiões].
Num dos seus artigos recentes, aponta quatro possíveis conclusões para a atual situação perante as ameaças de Trump, desde o presidente norte-americano abandonar estas aspirações até à prometida anexação "à força". Qual dos cenários diria que é mais provável de se concretizar?
O meu receio é que os EUA percam a paciência e simplesmente ameacem tomar posse, a menos que a Gronelândia entre num acordo de associação livre como nação independente. A outra possibilidade é um novo acordo que arrende a Gronelândia aos EUA para que os EUA desfrutem de direitos militares e dos recursos.
Dito isto, é difícil imaginar Trump a recuar nesta fase.
Diz que "a dura realidade é que isto parece integrar um novo mundo de monarquismo autoritário expansionista, em vez de um mundo baseado em acordos, quadros, normas, regras e tratados". Neste contexto, o que poderá isto significar para outros países e regiões, desde os Estados do Ártico, em particular Svalbard, até à Ucrânia?
Acho que a Ucrânia vai conseguir um “acordo de paz” que dará à Rússia os territórios do leste e os EUA vão cobrar um preço alto por pôr fim ao conflito por enquanto. Trump quer ser um pacificador e ganhar o Prémio Nobel da Paz.
Penso que, se Trump ficar com a Gronelândia, há o risco de Putin avançar sobre Svalbard numa era pós-acordo com a Ucrânia. Trata-se de um território norueguês e Trump não se importará com isso se ficar com a Gronelândia. Putin quer Svalbard para a defesa do bastião.
Sobre a chamada "Doutrina Donroe": se Trump está decidido a dominar o hemisfério ocidental, diria que também poderá considerar a possibilidade de conquistar os Açores? Isso está em consonância com a atual Estratégia de Segurança Nacional (ESN) dos EUA?
O desafio é mesmo esse: onde começa e onde termina o domínio do hemisfério ocidental? Nas Bermudas, nos Açores, nas Ilhas Canárias e assim por diante? A ESN não define o que corresponde ao hemisfério ocidental... há uma ambiguidade criativa.
Alguns geógrafos, no entanto, definem o hemisfério ocidental como sendo a metade da Terra que fica a oeste do meridiano de Greenwich (meridiano principal, 0° de longitude) continuando até ao meridiano 180.
A NATO pode ainda não estar oficialmente morta, mas parece estar, no mínimo, num coma profundo. Vê alguma hipótese este dilema da Gronelândia servir como uma oportunidade para o resto dos Estados-membros repensarem a aliança e encontrarem formas de a reforçar sem os EUA, a par das suas próprias parcerias bilaterais?
É realmente difícil imaginar que a NATO volte a ser a mesma. A Gronelândia revelou uma profunda rutura e os aliados europeus mostraram claramente que farão o que puderem para proteger a Dinamarca – até porque, se não o fizerem, quem será o próximo? Além disso, penso que há esperança de que, se forem vistos a fazer trabalho de segurança, Trump possa sentir que conseguiu provar o seu ponto de vista sobre o aproveitamento indevido da segurança.
Mas a real questão é esta: como é que os aliados europeus poderão alguma vez voltar a confiar verdadeiramente nos Estados Unidos?