"Já chega", diz a Gronelândia. "Falamos dentro de 20 dias", responde Trump. E, de repente, o governo da Dinamarca está em "modo de crise total". “As ameaças de Trump de agir de forma semelhante noutros lugares devem ser levadas a sério. Mesmo que parte disso seja apenas bravata, o caso da Venezuela já demonstrou que a retórica pode traduzir-se em ação"
Foram semanas de especulação, ameaças e avisos até os Estados Unidos da América (EUA) bombardearem a Venezuela às primeiras horas da manhã de 3 de janeiro. Pouco depois, Donald Trump anunciou a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da sua mulher, sob acusações de narcoterrorismo. Transportados de Caracas para Nova Iorque, foram formalmente acusados na segunda-feira, enfrentando várias penas de prisão perpétua nos EUA, horas antes de o Conselho de Segurança da ONU se reunir de emergência na mesma cidade para debater as mais recentes movimentações regionais de Trump.
As ações da administração norte-americana, dizem vários especialistas e diz também a oposição democrata, foram ilegais, quer do ponto de vista da lei norte-americana, que dita que um presidente precisa do aval do Congresso para atacar outro país, quer do ponto de vista do direito internacional, que proíbe a anexação de nações e territórios soberanos e o rapto dos seus líderes. E a elas seguiram-se novos avisos e ameaças de Trump a outros países, como a Colômbia, Cuba, o México, o Irão e a Gronelândia – a região autónoma do reino da Dinamarca que alberga a importante base espacial norte-americana de Pituffik e que, como o presidente dos EUA tem repetido desde que regressou à Casa Branca há um ano, é “fulcral para a segurança nacional” dos norte-americanos.
“Vamos falar sobre a Venezuela, a Rússia, a Ucrânia – e preocupar-nos com a Gronelândia daqui a uns dois meses. Vamos falar sobre a Gronelândia daqui a 20 dias”, disse Trump aos jornalistas no domingo à noite, quando questionado se a seguir à Venezuela vai avançar com os planos para controlar o território estratégico do Ártico, após o seu vice, JD Vance, ter repetido que a Dinamarca "não está a fazer um bom trabalho" de proteção. “Já chega”, reagiu Jens-Frederik Nielsen, o primeiro-ministro da Gronelândia, numa notória mudança de tom. “Chega de pressão. Chega de indiretas. Chega de fantasias sobre anexação.”
Após semanas a tentar minimizar as tensões com os EUA, o líder da região condenou sem pudores a retórica “completa e absolutamente inaceitável” da liderança norte-americana, sublinhando que, “quando o presidente dos EUA diz ‘precisamos da Gronelândia’ e nos associa à Venezuela e à intervenção militar, isso não é apenas errado – é uma enorme falta de respeito”. A par de Nielsen, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, repetiu os apelos ao parceiro da NATO para que mude de atitude. “Exorto veementemente os Estados Unidos a cessarem as ameaças contra um aliado histórico e contra outro país e outro povo que já deixaram muito claro que não estão à venda.”
SOON pic.twitter.com/XU6VmZxph3
— Katie Miller (@KatieMiller) January 3, 2026
Os avisos surgiram depois de a mulher de Stephen Miller, um dos principais conselheiros do presidente Trump, ter feito uma publicação sinistra e premonitória na rede social X – um mapa da Gronelândia coberto com a bandeira dos EUA, com uma só palavra na legenda: ‘SOON’, brevemente. Estará para breve a anexação do território? E como vão os europeus posicionar-se se isso acontecer?
“As ameaças de Trump de agir de forma semelhante noutros lugares devem ser levadas a sério, especialmente no que diz respeito à Colômbia”, destaca Boris Vormann, diretor do departamento de Ciência Política do Bard College em Berlim, na Alemanha. “Mesmo que parte disso seja apenas bravata, o caso da Venezuela já demonstrou que a retórica pode traduzir-se em ação. A Gronelândia, no entanto, seria um caso muito diferente. Passar da intervenção na América Latina para algo que se assemelhe à anexação [do território dinamarquês] significaria entrar em conflito direto com um aliado da NATO, e isso representaria uma escalada qualitativa.”
"É agora a maior fonte de risco"
Questionado sobre esta possibilidade, o Reino Unido escusou-se a assumir uma posição clara. “Quero deixar bem claro que os aliados são importantes e é por isso que estas conversas diplomáticas cuidadosas nos bastidores estão em andamento com os EUA, com os nossos aliados europeus e parceiros dos Cinco Olhos, e não vamos passar o tempo a comentar o assunto”, respondeu Mike Tapp, ministro britânico do Interior, numa entrevista com a Sky News.
“Ambos [EUA e Dinamarca] são membros da NATO e tenho muito orgulho que a NATO tenha sempre priorizado o diálogo ao invés da divisão”, adiantou Tapp quando pressionado por mais clareza. “A questão venezuelana é obviamente diferente da questão da Gronelândia, mas cabe-lhes a eles discutir isso, cabe à NATO ter essa base sólida para garantir que não há divisões, não me cabe a mim ficar aqui a discutir hipóteses indefinidamente.”
Países geograficamente mais próximos da Gronelândia têm tentado não abordar esse assunto-tabu – caso da Noruega, cujo chefe da diplomacia, Espen Barth Eide, se limitou a condenar as ações dos EUA na Venezuela por não estarem “em conformidade com o direito internacional”, que é “universal e vinculativo para todos os Estados”. Outros países europeus, como a Alemanha, não fizeram sequer referência à ilegalidade da intervenção em Caracas. E o presidente da Turquia, Estado-membro da NATO, continuava em silêncio até ontem.
“O que me impressiona é a hesitação dos líderes europeus em classificar claramente a intervenção de Trump como uma violação do direito internacional”, destaca Boris Vormann, para quem a Europa, “ao evitar uma avaliação jurídica clara, está implicitamente a enfraquecer a credibilidade do próprio direito internacional” – e o resultado disso pode rapidamente respingar para o continente. “Essa relutância é compreensível do ponto de vista estratégico, ninguém na Europa quer provocar uma administração americana já imprevisível ou acelerar uma deterioração das relações transatlânticas”, adianta o analista – “mas ignorar o problema pode ser contraproducente”.
Por menos contundentes que os líderes da UE e aliados possam arriscar-se a ser, há quem não duvide de que, mais do que uma possibilidade, a anexação da Gronelândia é agora uma probabilidade. No final de 2025, num balanço do último ano e antevisão deste, o historiador alemão Kiran Klaus Patel já tinha destacado a questão da Gronelândia como uma das mais preocupantes da geopolítica no arranque de 2026, ao apontar o território como um dos potenciais palcos do expansionismo que Trump rejeitava liminarmente há poucos anos.
“A ideia de Trump ser menos intervencionista do que os seus antecessores está a provar-se errada, porque por um lado ele quer retirar as tropas americanas de alguns lugares, enquanto por outro tem planos muito agressivos, neoimperalistas, seja na Venezuela, seja na Gronelândia”, defendeu Patel, antes de Trump invadir o país latino-americano. “Isto coloca o direito internacional sob extrema pressão – e se a principal potência ocidental não respeita mais essas regras internacionais, então estamos realmente a voltar para a selva.”
Numa análise publicada no domingo, o diretor do programa Europa na empresa de consultoria de risco político Eurasia Group destaca que o governo dinamarquês está em “modo de crise total” face aos últimos comentários de Trump – sem esquecer que, uma semana antes das ações contra a Venezuela, o presidente norte-americano nomeou um enviado especial para a Gronelândia, depois de ter passado o último ano sem excluir a possibilidade de usar a força para concretizar o seu objetivo.
“Como tenho vindo a argumentar há muito tempo, o risco da Gronelândia está subvalorizado”, escreveu Mujtaba Rahman no domingo. “Uma possível intervenção dos EUA na Gronelândia é agora a maior fonte de risco para a aliança transatlântica e para a coesão intra-NATO e intra-UE, possivelmente muito maior do que os riscos representados pela invasão da Ucrânia pela Rússia.”
Questionado sobre o assunto pelo Politico, o mesmo analista dobrou a aposta, destacando que as possíveis diferenças estarão mais na forma do que no conteúdo do plano. “Os métodos provavelmente seriam diferentes daqueles empregados na Venezuela – em vez de uma operação militar, Washington poderia recorrer a uma campanha de influência política para alterar o equilíbrio atual”.
No limite, e mesmo que Trump não faça nada por ora quanto à Gronelândia, Vormann destaca um ponto “particularmente perigoso” para a Europa nas recentes movimentações dos EUA no seu continente. “O silêncio europeu reforça uma forma de pensar em termos de esferas de influência, onde as grandes potências reivindicam direitos especiais nas ‘suas’ regiões”, ressalta o especialista. “De uma perspetiva europeia, isso é particularmente perigoso, porque fortalece indiretamente a posição da Rússia e os seus próprios argumentos sobre o domínio da vizinhança imediata.”