Há interesses estratégicos, económicos e simbólicos a pesar na equação gronelandesa, e não há garantias de que a administração Trump não siga o guião Venezuela no território dinamarquês, mesmo que os métodos possam vir a ser outros - e que uma anexação corresponda efetivamente ao fim da NATO
Tardou mas chegou. Na terça-feira, quatro dias depois da intervenção dos EUA na Venezuela e das renovadas ameaças de Donald Trump sobre a “necessidade” de anexar a Gronelândia, a Europa posicionou-se claramente em defesa da “soberania” da região semiautónoma da Dinamarca.
“A Gronelândia pertence ao seu povo e cabe à Dinamarca e à Gronelândia decidir sobre assuntos que envolvem a Dinamarca e a Gronelândia”, disseram os governos de França, Alemanha, Itália, Espanha, Polónia, Dinamarca e Reino Unido. “A NATO já deixou claro que o Ártico é uma prioridade, e os aliados europeus estão a reforçar a sua presença e investimentos lá”, adiantaram os líderes, em resposta às insinuações da administração Trump sobre a região de importância estratégica estar desprotegida.
A declaração conjunta chegou após o que analistas como Boris Vormann já tinham referido como a “hesitação” dos líderes europeus em condenar as ações de Trump na Venezuela, ilegais sob a lei internacional, apenas compreensível à luz do acordo que pretendem alcançar com os EUA para preservar pelo menos parte dos interesses da Ucrânia, ao final de quase quatro anos de invasão russa em larga escala.
Esse foi o tema que dominou o mais recente encontro da coligação dos dispostos, que estava a decorrer em Paris à hora em que os líderes europeus finalmente saíram em defesa da Gronelândia. Antes disso, vários diplomatas tinham adiantado ao Politico que a regra tácita do encontro era precisamente essa: “Não se fala da Gronelândia.”
Apesar de todas as diferenças que podem ser traçadas entre o caso venezuelano e a região dinamarquesa, se as ações de sábado em Caracas provam alguma coisa é que as ameaças de Trump depressa podem passar de retórica a ação. E no caso da Gronelândia, tudo indica que a dita anexação pode mesmo vir a acontecer, o que constituiria um ataque inédito de um aliado da NATO a outro.
A comprovar isso mesmo, surgiu Stephen Miller, um dos principais conselheiros de Trump, a declarar à CNN que “ninguém vai lutar militarmente com os Estados Unidos pelo futuro da Gronelândia” e que a decisão de tomar o território à força continua a constar do cardápio do presidente americano. “Vivemos num mundo governado pela força e pelo poder”, adiantou Miller. “Estas são as leis de ferro do mundo desde o início dos tempos.”
Por condenáveis que as afirmações de Miller possam ser, a maioria dos especialistas não discorda da ideia. Como refere ao Deutsche Welle Jacob Funk Kirkegaard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, “se Trump decidisse anexar a Gronelândia à força, pouco se poderia fazer a curto prazo – e isso é válido para a Gronelândia, para a Dinamarca e para a União Europeia”.
Por ora, a diplomacia continua a ser a principal – senão a única – ferramenta à disposição da UE para o travar. Embora não haja negociações formais programadas entre Bruxelas e Washington para já, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, deu a entender que planeia discutir o assunto com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, “num futuro próximo”. Foi o que disse numa entrevista à rádio Deutschlandfunk, na qual reconheceu que há uma coisa sobre a qual o presidente americano está certo. “Trump apontou corretamente que há um crescente interesse chinês e russo nesta região, o que afeta nossos interesses de segurança. Certamente estamos preparados para discutir essas questões com os EUA."
A “obsessão” de Trump
Trump até pode ter razão quanto aos interesses dos arquirrivais na região, estrategicamente posicionada no caminho de um eventual ataque com mísseis nucleares pela Rússia ou pela China, já que a rota transpolar é a mais curta entre os rivais. Contudo, o argumento de que os EUA “têm” de assumir o controlo da Gronelândia porque esta está “cercada por navios russos e chineses” não corresponde à realidade – tal como não é verdade que não haja investimento para proteger e defender o território.
No último ano, a Dinamarca aumentou a sua presença militar ao redor da ilha e os EUA poderiam fazer o mesmo sob os acordos já existentes sem terem de avançar com uma anexação ilegal. “Se Trump quisesse ter mais tropas americanas na ilha, trazê-las não seria um problema”, refere Kirkegaard ao DW. “Existe um tratado de defesa conjunta entre os EUA e a Dinamarca.” Não só isso como quer a Dinamarca quer a Gronelândia estão abertas a um maior envolvimento americano na região – há apenas um ano, um ministro gronelandês escreveu no Washington Post que, sem mais investimentos dos EUA, a região “teria cada vez mais de recorrer a outros investidores, até mesmo à China”.
Para Kirkegaard, a decisão será sempre mais simbólica do que racional. “A realidade é que [Trump] parece ter concluído que quer tornar os EUA maiores no mapa, não se trata de uma coisa racional – e é algo que apenas o Congresso ou o Supremo Tribunal podem bloquear”. Mas a julgar pelo que aconteceu na Venezuela, não é líquido que qualquer desses órgãos consiga travar o presidente se a ideia de anexação for posta em prática.
Também não é totalmente certo falar numa potencial decisão estritamente simbólica no contexto da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, sob a qual se recupera a doutrina de Monroe do século XIX em que os norte-americanos são os reis e senhores do hemisfério Norte e do seu “quintal” latino-americano – por maior que possa ser a “obsessão” (palavra da Bloomberg) com a Gronelândia.
Tal como as reservas de petróleo da Venezuela, as maiores de todo o mundo, parecem ter norteado a recente intervenção de Trump no país, também a região dinamarquesa possui vastos recursos naturais por explorar, incluindo petróleo e minerais raros essenciais para a indústria de tecnologia moderna, usados na montagem de baterias, chips e outros componentes e hoje controlados principalmente pela China. Graças ao aquecimento global negado por Trump, e o consequente degelo das calotas polares, estes recursos vão ficando mais acessíveis à extração – e esse poderá ser o verdadeiro motor do desejo de Trump.
O “dilema” da Europa
No rescaldo das recentes sugestões da administração Trump sobre a Gronelândia – incluindo uma publicação da mulher de Stephen Miller, em que o mapa da região surge coberto pela bandeira dos EUA com a palavra ‘brevemente’ na legenda – um eurodeputado francês sugeria no início da semana que os europeus devem apressar-se a instalar uma base militar na região como uma “demonstração de força” aos Estados Unidos. “A Europa deve tomar uma iniciativa forte rapidamente”, escreveu na X Raphaël Glucksmann. “Uma base militar europeia permanente enviaria um sinal de firmeza a Trump e permitiria refutar o argumento americano sobre a nossa incapacidade de garantir a segurança da Gronelândia. Não basta baixar a cabeça.”
Essa base juntar-se-ia à base militar espacial de Pituffik, que os EUA mantêm no território desde a Guerra Fria para controlar os satélites que alertam para ataques contra a América do Norte. Mas é improvável, senão impossível, que uma Europa a braços com duras negociações para salvaguardar os interesses da Ucrânia contra a Rússia e ainda sem saber como garantir a sua autossuficiência em defesa consiga consensualizar um passo desses.
Assim se afigura o dilema da Gronelândia, um território que ganhou autonomia da Dinamarca em 1979 e que, seis anos depois, decidiu abandonar as Comunidades Europeias – mas cujos 57.751 cidadãos são cidadãos da UE, já que a Dinamarca faz parte do bloco. E é um dilema sem fim nem solução à vista, sete anos depois de Trump ter invocado um “grande negócio imobiliário” à espera de acontecer, que na ótica do presidente também ajudaria a aliviar as finanças públicas dinamarquesas.
Esta não é a primeira vez na História que um líder norte-americano busca o controlo da Gronelândia – já em 1867, o então secretário de Estado William H. Seward, último até à chegada de Trump a sugerir abertamente que os EUA deviam anexar o Canadá, propôs comprar a ilha dinamarquesa e a Islândia, então também parte do reino da Dinamarca.
Em 1910, o assunto voltou a debate nos EUA, até os nazis terem tomado Copenhaga em 1940, um ano antes de os norte-americanos entrarem oficialmente na II Guerra Mundial e terem invadido a Gronelândia para contraria a presença alemã. Um ano depois do fim do conflito, em 1946, os EUA tentaram comprar a ilha por um valor hoje equivalente a 1,6 mil milhões de dólares – sem sucesso.
Negócios à força
Foi essa a sugestão feita por Trump no seu primeiro mandato, quando se propôs comprar a Gronelândia em 2019, altura em que Rasmus Leander Nielsen, da Universidade da Gronelândia, lembrou aos media locais que a Dinamarca não pode vender a região porque a sua lei de autonomia de 2009 “afirma claramente que os gronelandeses são um povo independente”.
A melhor esperança de adquirir a Gronelândia sem recorrer à força militar seria o território ganhar independência de Copenhaga e, posteriormente, chegar a algum tipo de acordo com os EUA para se tornar parte do seu território – uma possibilidade ainda mais distante depois das eleições regionais de há um ano, nas quais três em cada quatro eleitores gronelandeses votaram em partidos que apoiam apenas uma transição lenta para a independência.
Uma sondagem divulgada há poucos dias mostra que cerca de 56% dos habitantes da Gronelândia deseja ser independente da Dinamarca. Mas o mesmo inquérito de opinião também mostra que quase ninguém – apenas 6% da população do território – é a favor da adesão aos EUA. Ultimamente, ainda antes das novas declarações de Trump sobre a importância da região para a segurança nacional do seu país, as autoridades americanas debateram a hipótese de propor às autoridades regionais um chamado Pacto de Associação Livre (COFA), à semelhança do que tem sido feito com pequenas ilhas do Pacífico.
Sob os COFAs, as forças armadas americanas podem operar livremente nos países signatários, com o incentivo de o comércio ficar isento de impostos. Mas essa ideia já foi rejeitada pela Dinamarca, sob o argumento de que a Gronelândia já alberga uma base militar americana, dando à administração Trump amplo raio de ação na região e sem impor limites explícitos ao número de tropas que os EUA podem enviar para a ilha – ainda que qualquer aumento exponencial ou mudança significativa exija, em teoria, o consentimento de Copenhaga.
Em declarações à agência Lusa no início da semana, o consultor da NATO Manuel Poêjo Torres dizia-se descrente na hipótese de Trump avançar mesmo com a anexação do território. "Posso ter de comer estas palavras, mas não acredito que Donald Trump faça uma anexação unilateral da Gronelândia, porque no dia em que isso acontecer, acabou o mundo que nós conhecemos", referia o especialista. O facto, contudo, é que o impensável deixou de ser sinónimo de impossível.
De acordo com a revista The Economist, as autoridades americanas já terão tentado ter conversas diretas com o governo da Gronelândia para a sua aquisição, e todas as tentativas foram rejeitadas – com o primeiro-ministro da região, Jens-Frederik Nielsen, a adotar esta semana uma posição mais dura em relação à administração Trump. “Já chega. Chega de pressão, chega de indiretas, chega de fantasias sobre anexação. Quando o presidente dos EUA diz ‘precisamos da Gronelândia’ e nos associa à Venezuela e à intervenção militar, isso não é apenas errado - é uma enorme falta de respeito.”
Os líderes europeus concordam – e, como aponta a mesma revista, estão em pânico. Mas há muito pouco que possam fazer para já.