Gronelândia chega aos EUA com a Europa à espera de saber se o "polícia mau" decide uma invasão ou o "polícia bom" salva as relações

14 jan, 07:00
O presidente Donald Trump fala na Sala Leste da Casa Branca, em Washington, no sábado, 21 de junho de 2025, após o exército dos EUA ter atacado três instalações nucleares e militares iranianas, juntando-se diretamente aos esforços de Israel para destruir o programa nuclear do país, enquanto o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth ouvem. (Carlos Barria/Pool via AP)

Ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da sua região autónoma vão ser recebidos esta quarta-feira por Marco Rubio. E tudo está em aberto quanto ao futuro da maior ilha do mundo

Chegou o Dia E, de Encontros. Esta quarta-feira, enquanto uma delegação de legisladores democratas e republicanos dos Estados Unidos vai a Copenhaga debater o tema Gronelândia, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da sua região autónoma vão à Casa Branca reunir-se com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. 

Há vários dias que se especulava sobre um possível encontro, no rescaldo de renovadas ameaças de Donald Trump sobre tomar a Gronelândia à força, mas até ao fecho desta edição não havia confirmação dos detalhes - apenas uma fonte da União Europeia com conhecimento da matéria a dizer ao Politico que sim, Rubio vai receber hoje em Washington DC Lars Løkke Rasmussen, chefe da diplomacia da Dinamarca, e a sua homóloga gronelandesa, Vivian Motzfeldt.

O encontro ocorre uma semana depois desta troca de ideias entre o presidente dos EUA e dois jornalistas do New York Times:

David E. Sanger: No acordo de 1951, porém, diz-se que os Estados Unidos podem reabrir essas bases [na Gronelândia] quando quiserem. Podem enviar quantas tropas quiserem.

Donald Trump: Isso mesmo.

Sanger: E não o fez. Porquê?

Trump: Porque quero fazê-lo da forma correta.

Sanger: E da forma correta significa ser o proprietário [da Gronelândia]?

Trump: Na verdade, para mim, é a propriedade. A propriedade é muito importante.

Sanger: Porque é que ser proprietário é importante neste caso?

Trump: Porque é isso que eu sinto que é psicologicamente necessário para o sucesso. Acho que ser proprietário dá-nos algo que não conseguimos ter nem num contrato de arrendamento nem num tratado. A propriedade dá-nos coisas e elementos que não se conseguem apenas assinando um documento que nos permite ter uma base.

Katie Rogers: Psicologicamente importante para si ou para os Estados Unidos?

Trump: Psicologicamente importante para mim. Talvez outro presidente pensasse de forma diferente, mas até agora tenho estado certo em tudo.

Pager: E usaria a força militar para conseguir isso?

Trump: Eu não disse isso. Foi você que o disse.

Pager: Eu estou a perguntar-lhe. Faria isso?

Trump: Sim, não comentaria isso. Não acho que vá ser necessário.

A maioria dos analistas não discorda desta parte final. Questionado sobre a possibilidade de Trump anexar a Gronelândia à força, Manuel Serrano diz à CNN Portugal que acha “difícil que isso aconteça, porque não precisa” e também porque, por mais “hostil” que o atual presidente norte-americano possa ser, particularmente em relação à Europa, tomar a ilha e firmar um “corte absoluto das relações” com os aliados “não facilitaria a vida dos Estados Unidos - apesar da retórica, a Trump interessa-lhe mais ir extraindo coisas dos Estados-membros do que esse corte total”.

Conselheiro de Segurança Nacional de Putin diz que, se Trump não se apressar a anexar a Gronelândia, os 55 mil residentes da ilha ainda votam a favor de integrar o território da Rússia (foto Leon Neal/Getty Images)

Questionado sobre os encontros desta quarta-feira, em particular aquele que terá lugar na Casa Branca, o especialista em política internacional e assuntos europeus diz que tudo se resume “a quem tem mais ascendente sobre Trump, que num dia decide ouvir mais uma pessoa e noutro dia outra, também em função da zona do globo, sendo que a sua lógica é a de que é ele, Trump, quem decide o que é moral sem olhar ao direito internacional”.

Sabe-se que Rubio estará na reunião, mas “o mais preocupante é que JD Vance também possa estar”, considera Serrano, porque isso significará que “Rubio, mais pragmático em relação a esta região, fica com um papel mais reduzido e com menos margem de manobra”. Se o vice-presidente de Trump participar no encontro, “será o polícia bom e o polícia mau, e a lógica será a de dizer que, se os europeus não aceitarem o que os norte-americanos vão propor, Trump vai invadir a Gronelândia e ficar com ela à força”, arrisca o analista. “Prevejo algo como ‘é melhor que aceitem este acordo inacreditavelmente mau’, ou então…”

Uma impossibilidade "do ponto de vista racional"

Como referiam os jornalistas do New York Times, e como destaca também Serrano, há acordos em vigor há mais de meio século que permitem aos EUA ter o número de bases e de tropas que queiram na Gronelândia, a maior ilha do mundo e uma região particularmente importante, pela sua posição geoestratégica e pelos recursos naturais que o degelo está a deixar a descoberto - e que os grandes magnatas da tecnologia e patrocinadores da campanha de Trump, de Jeff Bezos a Peter Thiel, estão desde abril a preparar-se para explorar.

(Enquanto as discussões avançam e não avançam, a CNN Portugal foi até à Gronelândia tentar saber o que pensa quem vive lá. A reportagem pode vê-la abaixo)

Desde a assinatura do primeiro acordo em 1946, os EUA chegaram a ter 17 bases militares com milhares de soldados estacionados no território - hoje têm apenas uma, a base militar espacial de Pituffik, ali instalada desde a Guerra Fria para controlar os satélites que alertam para ataques contra a América do Norte. Se a explicação para a “obsessão” de Trump com a Gronelândia fossem as garantias de segurança que a administração norte-americana acusa a Dinamarca e a UE de não terem face às ameaças da Rússia e da China, então bastaria redefinir o número de bases e de tropas. E os europeus já se mostraram disponíveis para negociar os termos dos tratados, enquanto debatem o destacamento de uma força militar de patrulha para mostrar a Trump que estão investidos na segurança regional, face aos interesses da Rússia e da China na região.

“Sabemos que Trump não precisa de ter a soberania da Gronelândia para garantir a segurança do Ártico, isso é algo que poderia ser enquadrado na parceria de 1951 em boa fé e com os parceiros”, ressalta Manuel Serrano. “O que é óbvio e já se percebeu é que Trump quer basicamente ter aquela estrelinha, fazer desta ilha tão relevante o 51.º estado dos EUA, e portanto, do ponto de vista racional, no contexto desta narrativa, é muito difícil convencê-lo a aceitar apenas mais tropas.”

A par da segurança do Ártico, o presidente americano também tem argumentado que, à guisa da “segurança nacional”, precisa de ser dono da Gronelândia para explorar os minerais críticos que lhe permitiriam rivalizar com a China, atual líder na exploração e extração de minérios e terras raras usados para produzir todo o tipo de tecnologias. Mas também aqui os responsáveis da ilha estão abertos a negociações, tendo mostrado, desde o primeiro mandato de Trump há quase uma década, total disponibilidade para que empresas norte-americanas explorem o setor mineiro.

O futuro da "megalópole Nuuk"

Não sendo certo quanto é que Rasmussen e Motzfeldt estão preparados para oferecer, o que fica a descoberto na partida para estes encontros é a posição de "enorme fraqueza" em que os europeus se encontram face a um “líder da ordem liberal que está a destruí-la por dentro há mais de um ano e a fazê-la implodir diariamente”, ressalta Manuel Serrano.

Os europeus continuam sem assumir uma posição de força perante as ameaças e ações de Trump contrárias ao direito internacional, como a tomada da Venezuela, sobretudo pelo "medo de exercerem pressão" enquanto a chamada coligação das vontades debate com os EUA as garantias de segurança para a Ucrânia, destaca Serrano. "Estão presos a uma lógica de presos por fazer e não fazer". foto Tom Nicholson/Getty Images

“É óbvio que, se Trump recorrer à força para tomar a Gronelândia, a NATO deixará de existir como aliança, porque um aliado atacar outro vai contra qualquer lógica de uma aliança. Mas o que ainda não aceitámos é que a aliança, tal como está – não digo já morta, mas num coma profundo – depende única e exclusivamente da vontade de Trump. E temos Mark Rutte [secretário-geral da NATO] a dizer que está tudo bem e temos a Europa sem conseguir enviar mensagens geopolíticas fortes, sem dizer que não podem dividir-nos para nos conquistar, presa a uma lógica total e absolutamente limitada e subserviente que, no final do dia, não funciona.”

É assim que a UE no geral, e a Dinamarca em particular enquanto “um dos países mais atlanticistas de todos”, dão por si de mãos atadas e com pouca margem para apaziguar a equipa de Trump. “Entre esta dependência do presidente dos EUA e os bloqueios internos que conhecemos, com as Hungrias, as Eslováquias e as Chéquias a bloquear os processos de decisão, a estratégia de Trump é clara: fazer uma proposta completamente inaceitável para que a proposta seguinte seja mais palatável”, destaca Serrano.

Por ora, ninguém sabe ao certo quais serão essas propostas. E enquanto os europeus continuam a ser “forçados a ceder em todas as dimensões e humilhados constantemente”, a Rússia esfrega as mãos de contente. Na véspera dos encontros desta quarta, numa publicação na plataforma online russa Max, o antigo presidente russo brincou que, se Trump não “incorporar” a ilha “a tempo”, os gronelandeses poderão fazer parte do território russo.

“Trump tem de se apressar, porque de acordo com informações não verificadas, dentro de alguns dias poderá haver um referendo repentino em que os 55 mil residentes da Gronelândia poderão votar para se juntar à Rússia”, escreveu Dmitri Medvedev, atual vice do Conselho de Segurança de Vladimir Putin.

Gozando com a alegação sem provas de Trump sobre as águas que banham a Gronelândia estarem “cobertas de submarinos russos e chineses por toda a parte” - e num paralelismo com as ações dos EUA na Venezuela - Medvedev acrescentou que o “brilhante” presidente norte-americano tem bons motivos para anexar a ilha. “De modo geral, a captura da Gronelândia pelos EUA seria benéfica para a melhoria do clima global. Em primeiro lugar, permitiria a eliminação do ninho de vespas da máfia das drogas no viveiro do mal apocalíptico - a megalópole Nuuk.”

A menos de 24 horas dos encontros, o primeiro-ministro gronelandês garantiu, numa visita oficial a Copenhaga: “Estamos perante uma crise geopolítica e, se tivermos de escolher entre os Estados Unidos e a Dinamarca neste preciso momento, escolhemos a Dinamarca”, afirmou Jens-Frederik Nielsen, ao lado da primeira-ministra dinamarquesa. "A Gronelândia não está à venda e o seu futuro será decidido pelos gronelandeses, como consta no Estatuto de Autonomia. É com esta mensagem que viajamos amanhã para os Estados Unidos."

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